10 de junho de 2013

UM HOMEM PROCURADO
No dia 23 de maio de 2011, um homem janta na Cantina do Giggio, no Brás, zona leste de São Paulo, durante uma festa organizada por associados do Corinthians. Trata-se de um evento apolítico, que conta com a presença de muitas famílias que estão comendo e se divertindo. No final da festa, um garçom passa em sua mesa e o informa que há dois homens — dizendo-se policias — esperando-o do lado de fora do restaurante.
O “procurado” diz que viu um sujeito chamado André Negão, apelido de André Luiz de Oliveira — um famoso conselheiro corintiano — conversando com seu advogado. Segundo ele, os dois homens estão tramando sua prisão. O homem — avisado de que o problema seria resolvido na 8ª seccional do Tatuapé — recebe a instrução de seu advogado para que não saia do estabelecimento. Os dois policiais — que não possuem a papelada da prova do mandado de prisão -, depois de consultarem a central, dizem se tratar de um “engano” e vão embora.
Esse homem se chama Paulo Cezar Andrade Prado, tem 41 anos, é um jornalista e blogueiro conhecido por fazer sérias denúncias contra dirigentes do futebol brasileiro em seu espaço virtual, o “Blog do Paulinho”. Ele é temido por muitas pessoas.
PROCURANDO O Nº 528
Entrei em contato com Paulinho (como ele é conhecido) por meio da internet. Sou leitor do blog do jornalista há cerca de 4 anos. Em um sábado, em uma conversa por celular, mencionei a possibilidade de fazer a entrevista em sua casa, localizada próxima à Estação Bresser Mooca, na zona leste de São Paulo, no dia seguinte.
No domingo, pela manhã, ao falar com o jornalista pelo telefone para confirmar o local da entrevista, ele sugeriu realizar a mesma em um local público, no horário de almoço. O lugar sugerido era a Galeria do Brás, próxima à Avenida Celso Garcia.
Eu já estava preparado para a entrevista, com todas as perguntas elaboradas e aproveitei a presença de minha mãe, recém chegada do trabalho, em casa com o seu namorado Jefferson, e pedi para que os dois me levassem ao lugar da entrevista. Eles toparam. Já no carro, perto do local desejado, na Avenida Celso Garcia, altura do Brás, reparei em um detalhe curioso: de um lado da rua — em que o nosso carro estava parado — havia uma simples e pacata igreja católica e do outro lado uma grande igreja evangélica, belíssima por sinal.
Jefferson, o namorado de minha mãe, comentou: “Vejam só essa igreja bem pobrezinha e do outro lado essa baita igreja. Como esses caras conseguem construir uma coisa dessas?”. Ele sabia a resposta, concluí; Jefferson é católico e fez essa pergunta em um evidente tom de ironia.
Mesmo assim, essa pergunta martelou minha cabeça durante algum tempo. Pensei nos famosos e polêmicos dízimos e em como a igreja evangélica se tornou extremamente questionada nos últimos anos para muitas pessoas. Apesar de ateu, tenho certo descontentamento com os rumos tomados por igrejas que lucram à custa da fé alheia de uma gente pobre, que precisa se apegar a algo, nesse mundo tão difícil.
Ao descer do carro me espantei com a precariedade do local, que me era tão familiar, pois vivi os primeiros nove anos da minha vida no Brás, na Rua Piratininga, perto do local marcado para a entrevista. Parecia-me que o bairro ainda possuía uma aura de antiguidade, de um tempo que há muito se foi; um lugar que não cedeu à modernidade e ao fenômeno da especulação imobiliária de bairros como Tatuapé e Mooca.
Estavam ali os prédios antigos, os galpões abandonados, os barzinhos e botecos humildes; nada mudou; nem mesmo a sensação de insegurança — que, diga-se — eu sinto em qualquer lugar da cidade, mesmo naqueles aparentemente mais aparelhados. Trata-se de uma cidade violenta.
Corri para sair da rua, a tempo de aproveitar o sinal fechado. Caminhei alguns metros e passei perto de um ponto de ônibus cheio de pessoas. Nº 528 era o lugar na Celso Garcia que havíamos combinado. Perto do ponto de ônibus, decidi atravessar a Avenida, imaginando que o boteco estivesse do outro lado.
Notei três carros de polícia do lado do estabelecimento, que a princípio, parecia ser o do ponto de encontro. Passei na frente dos policiais que estavam na frente dos carros e rapidamente me encaminhei para dentro do lugar. Havia apenas uma senhora, que se desdobrava para atender os poucos clientes que era possível avistar.
À medida que olhava o lugar com mais detalhes, percebi que havia um grupo de pessoas no fundo do estabelecimento e não apenas aquelas que se sentavam nos bancos da entrada do bar. A tarefa da senhora, que tinha que fazer tudo sozinha, era de fato, muito difícil. Perguntei-lhe se ela era a Lena, e se ela conhecia o “Paulinho”. Ela disse que não. Olhei com muita atenção, mais uma vez, para o fundo do boteco, na tentativa de encontrar o rosto de Paulinho. Não consegui avistá-lo.
Eu perguntei à senhora se aquele era o nº 528. Ela disse que não. Saí do boteco e avistei do outro lado da Avenida, o número que procurava. Me Lembrei de um detalhe fundamental: o lugar era uma galeria, com um bar dentro. “Seu imbecil!”, pensei, me dirigindo a mim mesmo. Sou uma pessoa muito desligada e me perco em mínimos detalhes.
Entrei na Galeria do Brás, ponto de encontro para a entrevista: um lugar velho, com muitos prédios ao redor e algumas lojas fechadas. Por um momento, tive a sensação de não estar em um lugar seguro. Adiante vi crianças brincando e correndo e uma quadra onde tantas outras jogavam futebol.
Avistei, no bar da Lena, um homem sentado tomando cerveja. Era o Paulinho.
UMA ENTREVISTA DIFERENTE
Paulo Cezar Andrade Prado estava com uma escura jaqueta de motoqueiro, calça jeans e cabelos muito curtos. Eu o reconheci prontamente, pois já o havia visto em algumas de suas fotos na internet. Espantei-me com sua baixa estatura, pensara que ele fosse mais alto. Logo que me sentei à mesa, ele me ofereceu um copo de cerveja e me falou um pouco sobre sua trajetória. Paulinho nasceu naquele lugar simples e viveu a vida inteira no bairro do Brás.
- Trabalhei como vendedor de Coca-Cola, motoboy, em posto de gasolina. Tenho um filho de 20 anos com quem morei, juntamente com minha mãe, já falecida, em um apartamento -, ele lembra.
Uma curiosidade em especial sobre o Bar da Lena é o fato de que havia uma música, popularmente conhecida como “brega”, em altíssimo volume, vinda do lugar, provavelmente de dentro da cozinha. Confesso que fiquei sem saber quais eram aqueles artistas cantando. Paulinho também não soube a resposta. Talvez Amado Batista, Genival Lacerda, não sei. Apenas sei que tive muitas dificuldades para realizar a entrevista normalmente, munido que estava de apenas um celular para a gravação.
Uma pequena bandeja de prata com pedaços de carne e linguiça é colocada sob a mesa pela dona Lena. Eu estava morrendo de fome; não comera nada aquele dia; e aproveitei o fato de que adoro carne. Ao colocar a carne na minha boca, senti um gosto estranho. Relevei. Estava com tanta fome que não me importei com um estranho gosto de sabão que sentia.
Pouco depois conclui que talvez não fosse exatamente isso, talvez fosse a qualidade da carne, ou a cerveja que tomava, à medida que comia. Particularmente, eu nunca fui tão exigente com comida e, lembrara, eu não estava em uma das famosas churrascarias da cidade e sim em um lugar humilde. Apesar de tudo isso, concluí que a carne até que era boa.
Paulinho, desde os 10 anos de idade, sempre foi leitor fanático da Gazeta Esportiva e da Revista Placar, em especial, de um jornalista que já trabalhou na publicação, Juca Kfouri.
- Jamais poderia imaginar que iria me tornar amigo do Juca -, diz orgulhoso. O jornalista lembra ainda que sempre gostou de ler jornais e revistas, além de fazer anotações e guardá-las.
A vida seguia e Paulinho, já com 34 anos, entrou em depressão e não conseguia lidar com a pacata vida que levava. Surgiu a ideia de criar um blog.
- Criei esse espaço na internet porque não agüentava o trabalho de motoboy e precisava de um hobby -, recorda-se.
Paulinho pensou em criar um blog de torcedor, porém concluiu que aquilo era o que mais havia na internet e a possibilidade de comentar notícias de terceiros não lhe agradava.
“A princípio eu comentava notícias dos outros, mas achava aquilo muito chato e sempre que eu ligava para alguns lugares as pessoas não diziam nada ou não atendiam. Muitas vezes as notícias que eu recebia nem eram verdadeiras”.
Ele aprendeu que a imprensa muitas vezes sabe, mas deixa de noticiar o que deve ser mostrado ao público, muitas vezes, por conta de interesses. O blogueiro conhece o ambiente do clube de maior torcida de São Paulo, o Corinthians, e muitos de seus dirigentes e ex-mandatários.
- Há muito tempo eu conheço Andrés Sanches (ex-presidente) e todos no clube sabem que ele é um bandido, qual a sua origem, a mentira de que ele é um empresário bem- sucedido, o fato de que ele chegou ao Corinthians por intermédio de um bicheiro do Rio de Janeiro chamado Jaça-, lembra.
Nesse ponto da entrevista, me impressionei com a contundência e coragem com que Paulinho trata um tema tão delicado, responsável por lhe render tantos processos. Reparei também que ele olhava constantemente para a entrada da galeria, como que esperando por alguma coisa. Talvez estivesse de alerta, preocupado com pessoas que entrassem no local, para tentar ameaçá-lo, afinal, — apesar da presença de pelo menos três carros de polícia do lado de fora da avenida -, o lugar parecia bastante hostil.
Ele se lembra de alguns de seus furos jornalísticos com impressionante riqueza de detalhes, à medida que, insistentemente, brinca com uma tampa de garrafa amassada da cerveja que acabara de abrir, ora com uma só mão, ora com as duas. Em especial um caso lhe rendeu publicação e repercussão no blog do jornalista Juca Kfouri, que imediatamente quis conhecê-lo.
- Tenho um amigo que foi à Inglaterra e ouviu Kia Joorabchian [investidor iraniano responsável pela parceria Corinthians-MSI], dizer em uma reunião que daria um golpe no Lyon [clube francês], para conseguir contratar o atacante brasileiro Nilmar e repassá-lo ao clube paulista-, recorda-se.
O empresário Kia Joorabchian abriu 23 processos contra Paulinho. Ele lembra:
- Um oficial de justiça, a mando dele, vinha atrás de mim todos os dias, em minha casa, quando eu ia a jogos no Pacaembu, até mesmo quando eu estava sentado aqui tomando cerveja. O advogado pago por ele é muito bem relacionado nesse meio -, concluiu, dando risadas.
O furo de reportagem, dado no ano de 2007, fez o blog explodir e causou muita polêmica.
Durante a entrevista sou surpreendido por um senhor que parecia ter 70 e poucos anos.
- Como está a família?-, ele perguntou.
- Está bem-, Paulinho respondeu.
O senhor, que conhecia Paulinho há muitos anos, foi embora. Ele disse ter 84 anos, surpreendentes 84 anos! Aquele homem era Augusto Fernandes, um grande corredor de marcha atlética, recordista em corrida de veteranos. Ele tem um filho chamado Cláudio, que não foi a uma Olimpíada porque não tinha dinheiro, mesmo tendo atingido índice olímpico. Curioso como se podem encontrar as melhores histórias em lugares tão inesperados, pensei.
Voltando à entrevista, o blogueiro e jornalista continua a lembrar alguns de seus furos de reportagem. Ele cita o famoso caso envolvendo o treinador Vanderlei Luxemburgo. “Quando ele era treinador do Santos (no ano de 2006), pediu comissão ao jogador Rodrigo Tabata a fim de poder mantê-lo no clube da Baixada”.
UMA METRALHADORA GIRATÓRIA
Paulinho conseguiu, em pouco tempo de carreira, o que muitos profissionais da área levam uma vida inteira para conseguir. Ele também cita o caso do jogador Júnior do Vitória da Bahia, preso por ter adulterado documentos para obter vantagem, um crime configurado no termo jurídico conhecido como falsidade ideológica. Foi um furo e tanto…
Sobre a forma como trabalha, Paulinho diz não revelar suas fontes. “Muitas vezes, pessoas atingidas por minhas denúncias acabam se transformando em minhas fontes apenas para descontar em outra pessoa”. O jornalista já foi incitado por um juiz a revelá-las. “Uma aberração jurídica, ele pensou que estava sendo contrariado”, lembra. [Segundo o inciso XIV, do artigo 5º da Constituição Federal do Brasil, está assegurado o direito ao resguardo da identidade das fontes de informação].
Ele diz não temer represálias por revelar podres de dirigentes do futebol brasileiro, mas lembra de já ter sofrido ameaças. “Quando eu era motoboy, saía para trabalhar sem saber se conseguiria voltar à tarde, porque andar de moto é complicado. Se eu ficar com medo das ameaças, não vou conseguir sair de casa”, diz Paulinho — que continua a usar uma moto para se locomover pela cidade.
Em muitas oportunidades, Paulinho chegava ao Estádio do Pacaembu em dia de jogos do Corinthians, ao meio-dia, quando não havia ninguém em campo e saía apenas depois das entrevistas coletivas. Saía do local escoltado pela polícia, já que era constantemente ameaçado por torcedores e dirigentes do clube, pelos quais já foi agredido. Um dos momentos mais tensos que viveu, lembra, foi quando lhe armaram uma prisão falsa na cantina do Brás, episódio contado no primeiro parágrafo, que retrata os riscos assumidos por exercer esse tipo de trabalho.
Paulinho também crê na obrigação de todo jornalista em levar a verdade dos fatos para as pessoas e que pode mudar situações por meio de suas denúncias, tarefa que não conseguiria realizar nos tempos de motoboy, pois ganhava dinheiro apenas para pagar as próprias contas.
O jornalista não poupa críticas ao presidente da ACEESP (Associação dos Cronistas Esportivos Estado de São Paulo), Luís Ademar, que não lhe concedeu o credenciamento da Associação.
- Ele é um banana, da turma do Milton Neves. Certa vez ele me disse que eu causava muitos problemas, que eu teria de aliviar a barra de muitas pessoas processadas por mim. Ele chegou ao absurdo de exigir a minha presença na ACEESP, para apresentar minha defesa, uma vez que tinha muitos processos nas costas. Eu lhe respondi que era muito bom ter processos, pois jornalista que não os recebe não está mexendo com ninguém.
Paulinho não poupa nem mesmo figuras conhecidas da imprensa, como o polêmico jornalista Jorge Kajuru, sua maior decepção como ser humano e jornalista.
- Ele vende opinião, é um grande ator, um picareta da imprensa.
Os dois se conheceram em evento de lançamento do livro “Condenado a Falar”, de Kajuru. Ele contou a Paulinho sobre a ideia de abrir um negócio, a “TV Kajuru” e o convidou para participar de um debate com os então candidatos à presidência do Corinthians, Andrés Sanches, Osmar Stábile e Paulo Garcia, que seria realizado em um hotel da zona sul de São Paulo. Kajuru havia fechado uma parceria com o Jornal Lance, que transmitiria o evento com a TV Kajuru.
- Ele me disse para mandar ver, chamar o pessoal da imprensa e que havia reservado vagas no hotel.
Ao chegar ao local, Paulinho descobriu que não havia nenhuma reserva. Havia convidados do Brasil inteiro, da Folha de São Paulo, o Benjamin Back (jornalista do Lance), o Ricardo Capriotti (também jornalista).
Ele pensou: “Estou morto!”.
Quando ligou para o Kajuru, ele disse: “Pô irmão, eu tô no caminho de Ribeirão Preto, na estrada. Falei pra fulano de tal fazer isso, dá um jeito aí!”.
- Conversei com o dono do hotel que, caridosamente, nos abriu espaço, colocou um funcionário responsável por fazer um palco “mais ou menos”. Ele também mexeu na banda da internet que não funcionava-, recorda-se.
- Eu tive que arrumar tudo, até água -, ele lembra.
- Encontrei o Mauro Betting, que me perguntou sobre a pauta. Não havia pauta!
Durante a negociação para a transmissão do evento, Andrés Sanches, que não compareceu ao debate, fez uma série de exigências -, lembra Paulinho.
- Ele exigiu a minha ausência e a de Kajuru no evento. Ambos assinamos no papel o trato. Ele também queria que ficássemos do lado de fora do hotel-, conta. E contiua:
- Na época, o Neto [comentarista de futebol], que contribuía com minhas denúncias, deixou o celular ligado com o Andrés, na linha, ouvindo o debate. Ele me alertou:
- Olha só Paulinho, o Andrés está aqui!
Para pagar todo o prejuízo causado, Kajuru lhe disse que assumia toda a responsabilidade.
- Depois fiquei sabendo que ele usou um cartão de débito, no valor de R$ 5.000,00, pago por Neto -, recorda Paulinho. Ele ainda lembra-se de uma oportunidade em que fez um importante aviso a Kajuru. Eu liguei para o Kajuru e disse que ele estava morto para o jornalismo, que ninguém acreditaria mais nele e que ele deveria dar um tempo e depois poderia voltar à TV.
O blogueiro conta que criou um blog para ele, já que este, segundo suas palavras, não sabia nem mesmo mandar um e-mail. Paulinho também fez várias análises de partidas de futebol, que depois foram publicados naquele espaço.
- Muitas vezes ele me ditava pelo telefone aquilo que ele escrevera para que eu pudesse colocar tudo no seu blog -, recorda-se.
Ele ainda cita o momento em que se deu o seu rompimento com o polêmico jornalista:
- Posteriormente eu descobri, depois de uma série de investigações, que ele recebia dinheiro do Carlinhos Cachoeira [bicheiro]. Ele me dizia que o Carlinhos era gente boa, parceiro, então eu me desliguei dele. Ele passou a apoiar um deputado financiado por Cachoeira.
A briga dos dois se deu antes de explodir o escândalo envolvendo políticos, empresários e o bicheiro goiano, que abalou as bases do governo Federal e de empreiteiras com contratos junto ao Planalto.
O blogueiro idealizou o projeto “Mídia-Sem-Média”, um site de esportes, com a ajuda de alguns amigos da faculdade e colaboradores como os jornalistas Alberto Murray Neto, Roberto Vieira, Vladir Lemos, o ex-jogador Wladimir, entre outros.
- Foi um projeto que não deu certo, porque não tínhamos dinheiro para competir com os outros.
O jornalista guarda gratidão por um personagem em especial, um amigo, cujo nome ele prefere não dizer. “Esse cara me ajudou a pagar a minha faculdade e jamais me pediu nada em troca. Meu blog não tem nem o nome dele, em banners, em nada. Ele é um cara milionário, que gosta de ajudar as pessoas e é meu amigo até hoje”.
Posteriormente, Paulinho criou uma rádio, projeto mais barato, que não se manteve por falta de patrocínios. “A rádio eu faço da minha casa, e tenho a ajuda de um jornalista chamado José Renato e de outras pessoas; o problema é que ela vive sendo boicotada; o blog eu faço sozinho”, concluiu.
Quando o assunto é o futebol brasileiro, Paulinho decreta: está em um péssimo estágio.
- Em campo, o futebol brasileiro está copiando de maneira errada determinadas características do futebol europeu, ao dar prioridade ao aspecto tático e não ao aspecto técnico, que não condiz com o nosso estilo.
Paulinho ainda critica a maneira como os jovens talentos do futebol brasileiro são trabalhados nas categorias de base.
- Os treinadores da base pensam em manter o seu emprego, ganhar títulos e não revelar jogadores. No Corinthians e em muitos clubes a base é comandada por integrantes de torcidas organizadas que mandam em diretores-, lembra.
Com relação às torcidas organizadas, é enfático:
- No dia em que os clubes pararem de dar dinheiro as organizadas, elas vão morrer. Dirigente que gosta de dar benefícios a essas torcidas é bandido também, conivente com a bandalheira.
No sábado anterior à entrevista, em meados de março de 2013, uma notícia caiu como uma bomba no mundo do futebol. O mafioso e oligarca russo Boriz Berezovski fora encontrado morto em sua casa, em Londres, em circunstâncias ainda desconhecidas.
Berezovsky fez fortuna no início dos anos 1990 com o colapso da antiga União Soviética e também com um extenso projeto de privatizações realizado no país, ao vender carros importados e por ser proprietário de uma empresa petrolífera.
Ele foi acusado de ter envolvimento com a MSI, empresa que criou uma parceria com o Corinthians em 2004 e de ter o empresário Kia Joorabchian como seu representante no Brasil. Ambos tiveram prisões decretadas pelo Ministério Público e pela Justiça Federal em julho de 2007. Porém, em 2009, o Supremo Tribunal Federal (STF) concedeu uma liminar aos dois, suspendendo a ação judicial. Para Paulinho nada muda.
-O sistema é mantido, mas o processo é acelerado, pois todos os réus já foram ouvidos, menos o Boris, que agora não poderá ser ouvido. A morte de Berezovski não é boa para o Kia — já que ele claramente mentiu em seu depoimento -, e para os outros réus envolvidos no processo Corinthians/MSI -, concluiu.
O COLABORADOR
Nesse momento da entrevista, senta-se à mesa um senhor que deveria ter uns 60 e poucos anos, careca, com óculos escuros, short e camiseta. Ele me parecia ter voltado de algum lugar em que fizera compras de casa, pois estava com uma sacola na mão. Ele é Fiori, ex-árbitro e também colaborador do Blog do Paulinho.
Fiori, que comenta a atuação da arbitragem nas rodadas de futebol, sempre finaliza suas postagens no blog com ácidos comentários políticos e a frase: “Acorda Brasil!”. Sentado à mesa, em meio à entrevista, e aproveitando a aparição de mais um senhor que veio falar com Paulinho, ele me perguntou:
- Quantos anos você acha que eu tenho?
Depois de 5 segundos de adivinhação, chutei: “65 anos”.
- Quase! -, ele respondeu, dando risada. — Tenho 67 anos -, completou.
Euclydes Zamperetti Fiori nasceu no dia 13 de Janeiro de 1946 e começou a arbitrar em 1972; aposentou-se em 1992. Como o trabalho de árbitro no Brasil não é profissionalizado, muitos apitadores possuem duas profissões. Fiori é policial aposentado e como apitador se notabilizou por bater de frente com as pessoas que comandam as federações de futebol no Brasil e por não participar do processo que conduz árbitros ao selo Fifa, parte do sujo jogo político dos bastidores do esporte brasileiro e mundial. O ex-árbitro, curioso, pergunta com um forte sotaque italiano, comum ao de muitos moradores do Brás, em que faculdade e em que ano do curso de jornalismo eu estava.
- Estudo na Rio Branco e estou no terceiro ano. Eu fiz a prova da PUC, mas como a turma não abriu, eu acabei me transferindo para a Rio Branco. Estou fazendo um trabalho sobre jornalismo investigativo -, respondi.
Paulinho se lembra de uma passagem sua especial envolvendo a faculdade.
- O Vitor Birner (jornalista) deu uma aula na Rio Branco e o pessoal da faculdade me ligou. Eu estava na rua e entrei ao vivo para falar no evento-, lembra.
Fiori diz que houve poucos árbitros detentores do selo Fifa que não tiveram que se sujeitar a práticas ilícitas, comuns no meio do futebol.
- Se o árbitro chegou nesse status é porque em algum momento ele prestou favores à federação.
Ele diz que o já falecido Dulcídio Vanderlei Bosquila, conhecido como “Alemão”, foi o melhor árbitro que ele viu apitar.
- Ele foi um árbitro que não prestou favores a ninguém -, lembra. Pergunto-lhe sobre o que ele achava de um juiz muito polêmico que apitou nos anos 90, Oscar Roberto Godói.
- Ele foi um árbitro cuja postura sempre considerei séria. Mesmo assim ele conseguiu o selo Fifa. Significa que algum favor ele teve que prestar, qual eu não sei.
O árbitro citado por Fiori foi ajudado por Eduardo José Farah, ex-presidente da Federação Paulista de Futebol. No fim de carreira, Godói recebeu um convite do Farah para apitar um jogo no interior de São Paulo.
- Aí eu te pergunto: por que o Godói foi apitar esse jogo, sendo que muitos outros juízes passavam por necessidades mais sérias do que ele?
Farah é, segundo Fiori, “Um dos maiores corruptos da história do futebol brasileiro”. Para o ex-árbitro, ou se é honesto ou não; não há meio termo.
Paulinho tem em Fiori não só um exemplo de árbitro, mas de ser humano. Ambos se conhecem desde quando Paulinho tinha 10 anos.
- Cabeça de juiz é que nem isso aqui -, ele afirma, e nesse momento, faz o gesto de uma gaveta se abrindo e se fechando. Paulinho se refere aos sempre suspeitos sorteios direcionados da Federação Paulista de Futebol, quando muitos árbitros são privilegiados em detrimento de outros.
- Assisti a um jogo entre Portuguesa e São Bernardo, no qual o Fiori deu uma palestra para os dois times. As torcidas queriam matar ele. Fiquei com medo de que eles acabassem me matando também -, lembra Paulinho, às gargalhadas.
O ex-árbitro revela o time do coração do jornalista, que também é o seu time, o Corinthians.
- Ele é torcedor fanático do Corinthians desde moleque.
A conversa é produtiva e falamos também sobre o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa. Eu disse achar que ele teve uma postura lamentável quando se dirigiu a um jornalista que o fizera uma pergunta, dizendo que ele era um “palhaço” e que deveria “vasculhar no lixo”.
Fiori sentenciou:
- Talvez ele esteja revelando quem realmente é. Quando uma pessoa atinge um ponto alto, de destaque, passa a olhar os outros de cima para baixo
Paulinho e eu concordamos. Aproveitei, para arrematar o assunto, dizendo que Barbosa tem o defeito de ser muito destemperado e que isso prejudica o seu julgamento. “Tem também o fato de que ele é uma pessoa pública. Ele realmente pisou na bola dessa vez”, Paulinho concluiu.
Sobre a profissão de jornalista, ele diz:
- A faculdade pode ser o melhor lugar do mundo, mas lá você não aprenderá a ter ética e moral, princípios básicos do Jornalismo. Um jornalista pode ser brilhante tecnicamente, mas se não tiver esses atributos, não poderá fazer Jornalismo e, além disso, ele precisa ter tesão de ler, ter conhecimento, se informar. Na faculdade em que eu estudei, 80% da sala não lia jornal -, lembra-se.
O blogueiro acredita que o jornalista precisa servir à população e não pensar em ficar rico:
- Eventualmente ele poderá ficar rico, dependendo do seu trabalho.
Paulinho crê que o jornalista é um intermediário entre o que acontece no mundo e as pessoas.
- Eu aprendi muito mais fora do que dentro da faculdade. Na universidade, só aprendi as técnicas de Jornalismo.
Uma vez dentro do sistema, as tentações são grandes e é preciso conviver com pessoas que querem ver publicado fatos editados e não inteiramente expostos, ele lembra.
JORNALISMO É…
O blogueiro acredita que as faculdades formam jornalistas programados para trabalhar em emissoras como a Rede Globo e em jornais como a Folha de São Paulo, para serem politicamente corretos. O jornalista lembra, em tom irônico, de uma fala de seu professor de faculdade:
- O jornalista que seguir o exemplo do Paulinho vai morrer de fome.
Não adianta fazer jornalismo com a intenção de salvar o mundo e sim fazê-lo de acordo com o sistema, disse-lhe o professor.
Ver, observar e contar o que viu são, para o jornalista, aspectos fundamentais da profissão.
- Os jornalistas têm medo de divulgar informações e acabam omitindo a verdade. Os grandes veículos trabalham visando seus próprios interesses e não os interesses do Jornalismo.
Ele destaca um episódio marcante, em que foi testemunha, envolvendo o jornalista Juca Kfouri.
- Na redação da CBN, chegou uma circular com a informação de que notícia tal não poderia ser dada porque prejudicava os interesses da rádio. Ninguém deu a notícia. Chega o Juca, pega a circular, chama o editor-chefe e diz que quer um pronunciamento da rádio, em 50 minutos, antes de seu programa começar-, conta.
O jornalista dá a notícia e o posicionamento do veículo e diz: “Está vendo Paulinho? Você tem o dever de dar a notícia, mesmo que ela contrarie os interesses da emissora em que você trabalha”. Todos os repórteres naquela ocasião se submeteram a serem carneirinhos da CBN, lembra o jornalista.
- Quem se curva diante dos poderosos mostra o traseiro aos oprimidos -, diz Paulinho, em referência à célebre frase de Juca Kfouri.
Sobre o futuro da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Paulinho acredita ser possível que o atual mandatário, José Maria Marin, seja destituído de seu cargo. Marin, então deputado estadual, personagem de uma série de gravações comprometedoras veiculadas recentemente na internet, é tido por muitos como um dos responsáveis pela morte do jornalista Vladimir Herzog nas dependências do DOI-CODI, em São Paulo, em 1975.
O jornalista faz a ressalva de que é preciso lembrar que o grupo político opositor à Marin na CBF representa “a escória do mundo do futebol misturada à corja de um conhecido partido político”.
Dirigentes que dizem a profissionais de imprensa, segundo Paulinho:
- Você não precisa dar as notícias boas sobre mim, só não dê as notícias ruins-, e pagam R$ 1.000,00 ao jornalista, que bovinamente aceita.
- Há um conhecido jornalista da Bandeirantes que tem a parcela do seu carro paga por Andrés Sanches. Ele exalta o Andrés o tempo todo.
Para o blogueiro, parte da imprensa trabalha para a manutenção de determinadas pessoas no poder.
O jornalista e blogueiro acredita em fortes conflitos de interesses promovidos pela mistura de Jornalismo e Publicidade. “Academicamente é uma prática condenável, é errado. Isso é dito por muitos professores de faculdades”. Ele diz que um jornalista não pode fazer propaganda de um supermercado e falar bem do jogador ligado a um fundo de investimentos desse mercado, citando um caso verídico envolvendo um famoso jornalista. “Existe claro conflito de interesses, assim como um advogado não pode fazer propaganda, segundo a OAB, porque ele pode trabalhar para o juiz tal”.
A interferência da política no futebol é escandalosa, nas palavras do blogueiro.
- Alguns políticos vão à Bolívia defender os “12 apóstolos”, porque vai chegar a eleição e eles vão precisar de muitos votos de pessoas da torcida organizada, que saberão retribuir o favor-, lembra, citando o caso dos 12 torcedores corintianos presos na Bolívia, depois da morte do garoto boliviano Kevin Espada, de apenas 14 anos, em fevereiro deste ano.
Com relação às acusações de seus detratores, Paulinho é convicto.
- As críticas não incomodam porque muitas de minhas denúncias se mostrarão verdadeiras lá na frente.
Um grande erro cometido pelo jornalista foi receber e publicar uma denúncia que falava da presença do então jogador do Corinthians, Ronaldo, e Andrés, então presidente do Corinthians, em uma boate. Eu exigi algumas fotos como prova.
- Erroneamente, dei a informação, mesmo sem as fotos -, diz Paulinho, que veio a saber se tratar de uma armadilha para pegá-lo. — Publiquei minhas desculpas no blog para os dois, reconheci o erro e tirei a postagem com a denúncia.
O “Blog do Paulinho” passou por várias tentativas de censura, responsáveis por um ano e meio de arquivo perdido.
- Essas tentativas mostram que eles têm medo, porque as denúncias incomodam.
Sobraram críticas até mesmo para Fernando Carvalho, ex-dirigente do Internacional de Porto Alegre, constantemente exaltado por parte da imprensa por ter revolucionado o clube gaúcho e ter promovido um choque de gestão, responsável por ter rendido a conquista de muitos títulos desde 2006.
- Ele é um empresário de futebol, envolvido em negociações com jogadores e se relaciona com Frank Henouda [conhecido empresário do mundo do futebol]. É mais uma dessas pessoas interessadas em ganhar dinheiro à custa do futebol.
Ainda falando sobre denunciar as falcatruas dos poderosos, Paulinho cita o caso do filósofo Olavo de Carvalho, que denunciou o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva e que hoje mora nos EUA.
- Hoje, o Olavo — que foi chutado do Brasil por Lula e o PT -, vive de doações daqueles que acompanham o seu blog.
Por sua vez, com o seu blog, Paulinho se sente livre para fazer Jornalismo de verdade, com liberdade para falar o que quiser sem ser censurado, apesar dos erros que possa vir a cometer — sem ser politicamente correto. “Eu recebi uma proposta da Record muito boa e recusei. Já pensou se eu tivesse que trabalhar para o Edir Macedo e não pudesse denunciar suas falcatruas?”, pergunta.
No ano que vem, o Brasil sediará a Copa do Mundo, mas para Paulinho nem tudo será só alegria.
- Já está acontecendo roubalheira para a realização do evento; dispensa de licitação; dinheiro público rolando solto; elefantes brancos. A Rede Globo vai mostrar o País das Maravilhas.
O grande problema para o jornalista não é o que vai acontecer e sim o que não vai acontecer. Para o blogueiro e jornalista, os problemas estruturais do Brasil, como a falta de estradas de melhor qualidade e aeroportos decentes, continuarão sem ser resolvidos.
- Apesar de tudo isso o povo vai reeleger essas mesmas pessoas.
- É a falta de cultura do povo -, diz Fiori.
Ainda tendo como assunto o tema futebol, Paulinho fala sobre os novos dirigentes de Palmeiras e Flamengo [os dois clubes brasileiros que mais passam por crises e que parecem viver uma constante guerra civil política], que assumiram o comando dos dois times no início do ano.
- Um ponto favorável a eles é que não precisam do futebol para enriquecer, pois são milionários; isso é um bom sinal. Porém, eles precisam ser fortes para aguentar as pressões de terem cortado os privilégios das torcidas organizadas.
Para Paulinho, o grande erro dos dois clubes é acreditar na fama de bons gestores de Paulo Pelaipe e José Carlos Brunoro, diretores de futebol de Flamengo e Palmeiras, respectivamente.
- O Pelaipe foi responsável por quebrar um clube no Nordeste, o Fortaleza, ao contratar 20 jogadores em um mês e depois ir embora; o Brunoro fez a fama de grande gestor com a ajuda da parceria Palmeiras/Parmalat no início dos anos 90, quando o clube tinha bala na agulha para contratar grandes jogadores.
Para o jornalista, recai sobre o diretor palmeirense uma nebulosa suspeita:
- Ele e o Luxemburgo são sócios. Os dois deram as caras na negociação do Barcos [ex-atacante palmeirense], que foi trocado por quatro jogadores do Grêmio-, diz, lembrando da polêmica negociação ocorrida no início do mês de fevereiro, envolvendo os dois clubes.
Durante cerca de uma hora, Paulinho, Fiori e eu discutimos futebol, política, injustiças, decepções, religião, e tomamos algumas cervejas, numa experiência que parecia ser a mais próxima do Jornalismo de imersão, vivenciando aquele ambiente simples, apesar de hostil, com pessoas comuns vivendo suas vidas de forma muito resignada e feliz, na medida do possível.
Do lado de fora, pude ver muitas viaturas de polícia ainda presentes na Avenida Celso Garcia que contribuíram para criar um clima de incerteza e de medo, ainda que num nível menor daquele que eu sentira no momento que entrei na galeria. Tentei me colocar na pele de Paulo Cezar Andrade Prado e arrisquei imaginar o quão dura e perigosa é a vida de uma pessoa que denuncia os poderosos.
Não consegui me imaginar nessa situação; penso que ele deve tirar isso de letra. Pessoas entravam e saíam do estabelecimento a todo o momento e nós três permanecíamos sentados no Bar da Lena. Sem dúvida foi uma experiência que não poderia ser vivenciada em um local particular, tranqüilo e sem riscos — tão contrastante, assim como aquela Rua no Brás que separava as duas igrejas.