O ano em que eu parei de distribuir curtidas e comentários no facebook

Em abril de 2017 decidi que eu iria parar de distribuir curtidas no facebook. Eu entraria as vezes, veria as atualizações mas não curtiria nada, não responderia nada e também não usaria mais o botão de curtida como uma forma de dizer “eu estou de acordo”, “gostei” ou mesmo apenas por achar aquela foto “incrível”, seja lá de quem for.

Em um primeiro momento, verifiquei o quão difícil era conseguir fazer isso. Entrar, olhar, gostar, mas não reagir. Talvez, o processo mais difícil foi entender que não é porque você não curte algo, que você não gosta daquilo. Ou mesmo, não é porque você não responde um comentário em que você foi marcado que você não gosta da pessoa que te marcou. No começo foi muito difícil, para mim, o fato de eu não curtir as postagens das pessoas, bem como não responder quando alguém me marcava em algo parecia que eu estava rejeitando aquilo, que eu não estava cumprindo o meu “dever” de curtir alguma coisa.

A partir disso, comecei refletir sobre o impacto que isso poderia causar no meu Facebook e na minha vida pessoal. Deixe-me citar coisas que aconteceram comigo pelo simples fato de eu ter resolvido tomar essa decisão que parece simples, mas que tem um impacto descomunal.

Alguns “amigos” não vão mais falar com você, por acharem que você não gosta mais deles

Uma das primeiras coisas que irão acontecer, vai ser você esbarrar com alguém que você conhece e gosta, mas a pessoa não vai olhar para você por achar que você já não é mais amigo dela, que por conta de você não “curtir” o que ela posta ela já não é mais importante para você.

Curtida como sinal de afeto

Nos primeiros dias você já começa a perceber que muitas das pessoas que você conhece, hoje têm curtida como um sinal de afeto. Se você curte o que ela posta, ela irá curtir o que você posta para afirmar que na “amizade” de vocês está tudo bem.

Tornar-se invisível

Depois de sentir os primeiros efeitos de deixar de curtir as postagens no facebook, comecei a perceber que as pessoas já não tratam mais tão bem você como tratavam antes de você desaparecer da rede social, pois para algumas pessoas acreditam que estar exposto a todo momento nas redes, faz com que você seja lembrado, e se você não é visto lá, você automaticamente não é lembrado fazendo com que você se torne invisível aos olhos de quem acredita ser importante a exposição contínua nas redes sociais.

Sentimento de desprezo

Para mim, uma das coisas mais difíceis neste processo veio de mim mesmo, um sentimento constante de que eu estava desprezando algumas das pessoas que eu mais amava. Entrar no facebook e ver as fotos de minha família, de meus pais e amigos que são tão importante na minha vida e não fazer nada, só admirar e encher meus olhos de lágrimas ao ver quando minha mãe postou uma foto minha com uma legenda dizendo que me amava muito. Mas sempre que isso acontecia eu lembrava dos momentos incríveis que eu vivia quando minha família se reunia para ver os álbuns com diversas fotos das festas de família e de quão importante eram esses momentos que hoje estão acabando por conta desse recurso de curtidas.

A tecnologia nos afasta

O processo de globalização é importante sim, a tecnologia é importante sim, mas nada se compara ao contato. Nada se compara a sentar-se no quintal de casa com a família ou mesmo se reunir com as pessoas do trabalho e jogar conversa fora sem ter que clicar em curtir para estar de acordo. Ao mesmo tempo que a tecnologia te aproxima de milhares de novas pessoas, ela te afasta daqueles que estão todos os dias do seu lado lutando com você, acreditando em você, torcendo para que os seus sonhos se realizem e sonhando com você também.

Quando a gente deixa de curtir a gente não deixa de gostar uns dos outros

Uma das coisas que eu mais quero na vida é ter a certeza de que o episódio de Black Mirror, no qual tudo é controlado por curtidas, que você recebe pontuações pelo que você faz ou deixa de fazer nunca se realize. Mas se isso acontecer, que as pessoas saibam que o que realmente importa na vida é viver em comunhão e compartilhar memórias verdadeiras com aqueles que amamos.