Por que História(s)?

Artemisia Gentileschi, Clio, a musa da História, 1632
Papai, então me explica para que serve a história. Assim um garoto, de quem gosto muito, interrogava há poucos anos um pai historiador. (p.41)
Cada vez que nossas tristes sociedades, em perpétua crise de crescimento, põem-se a duvidar de si próprias, vemo-las se perguntar se tiveram razão ao interrogar seu passado ou se o interrogaram devidamente. Leiam o que se escrevia antes da guerra, o que ainda pode ser escrito nos dias de hoje: entre as preocupações difusas da época presente, escutarão, quase inexoravelmente, essa preocupação de misturar sua voz às outras. Em pleno drama, foi me dado captar seu eco todo espontâneo. Era junho de 1940, no mesmo dia, se bem me lembro da entrada dos alemães em Paris. No jardim normando, onde nosso estado-maior, privado de tropas, exercitava sua ociosidade, remoíamos as causas do desastre: É possível acreditar que a história nos tenha enganado?, murmurou um de nós. Assim, a angústia do homem feito ia ao encontro, com um acento mais amargo, da simples curiosidade do rapazola (p.42–43)
Marc Bloch, Apologia da História ou o ofício do historiador

Muitos anos se passaram desde que Marc Bloch escreveu essas palavras. Hoje, já não vemos ninguém perguntar abertamente para que serve a história?. Pelo contrário, vemos cada vez mais o uso do passado para sustentar posições políticas. Só que esse passado é estático, embasado em incompreensões e em julgamentos anacrônicos sobre os que deixaram de existir.

Se o anacronismo — julgar uma época ou sujeito passado segundo os valores e ideias de outro tempo (frequentemente, o presente) — é o pecado primeiro do historiador, o estudo acadêmico da História visa criar meios de limita-lo. Historiadores pensam e refletem sobre o seu método de análise e narrativa do passado, visando diminuir a influência subjetiva sobre aquilo que estudam. Mas sabemos que nossas perguntas, nossas motivações, nossos desejos de pesquisar o passado, são movidos por um profundo desejo de falar sobre o presente e para o presente.

A academia, é verdade, foi responsável pelo desenvolvimento de métodos de análise que diminuíram consideravelmente a arbitrariedade da escrita histórica. Mas hoje, as regras e padrões de produção da História fizeram que os historiadores falassem cada vez mais para os seus pares. E todo professor de História já se viu encarando a pergunta inocente de um aluno um pouco mais contestador: pra que estudar história se isso é passado?

Pessoalmente, o historiador justifica-se pelo gosto, pela sua preferência a determinado tema. Mas poucas vezes ele se coloca perante a um público menos iniciado as questões historiográficas para justificar a necessidade de estudar aquilo que pesquisa. E nem sempre a necessidade de um assunto é auto-evidente.

Essa publicação colaborativa visa, de forma bem minúscula, contribuir para a divulgação das pesquisas históricas ao grande público. E convida a fazer isso através de textos simples, que justifiquem o porquê é interessante estudar um tema.

O título, no suposto plural, também é uma precaução contra a história única. Há muitos passados. Por isso a impossibilidade de falar a História, a não ser referindo-se a disciplina história.

Esse é um convite para que os historiadores, com um pouco de paciência, desçam da sua Torre de Marfim e busquem falar para um público maior, para multiplicarmos as histórias. E que possamos atender essa necessidade de orientação temporal.

Um último ponto: há uma certa figura, na mente da maior parte dos historiadores, de que a profissão é solitária, composta de uma dedicação quase religiosa a horas na biblioteca e em computadores, redigindo textos analisados por outros, também em suas solidões. Essa é uma tentativa de encurtar nossas distâncias.

Regras de Publicação

Como dito anteriormente, o objetivo é ser simples e introduzir algum tema. Os textos deverão ter pelo menos 1000 palavras e uma bibliografia de 5 livros para aqueles que quiserem continuar sua pesquisa sobre o tema, terem um ponto de partida. A citação é permitida, indicando a página ao lado da citação e, ao final, o livro. Não precisa ser, necessariamente, um trecho de um dos livros indicados na bibliografia final.

Como disse, o objetivo aqui não é o mesmo das revistas acadêmicas, apesar de prezar pelas práticas historiográficas convenientes (leia-se: que não serão aceitos textos que possuem seu embasamento teórico-metodológico em preconceitos e ódios de qualquer espécie).

Os textos poderão ser submetidos através do e-mail porquehistoria@outlook.com ou pelo medium.

Like what you read? Give Lucas Cabral a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.