Tráfico Negreiro e Escravidão ou Anacronismo e suas vistas turvas

Modesto Broco, Engenho de mandioca, 1892

Dia 20 de novembro comemoramos o dia da Consciência Negra. Gostaria de comemorar a data fazendo uma reflexão sobre um texto que circulou (e circula) ano passado. O texto é foi publicado no Geledes, com o título Lista com nomes de navios negreiros escancara cinismo dos comerciantes de seres humanos no Oceano Atlântico em 24 de abril de 2015. Originalmente, o texto havia sido publicado dias no blog Jornalismo em pé com o título Além de tudo, dissimulados: Lista com nomes de navios negreiros escancara cinismo dos comerciantes de seres humanos no Oceano Atlântico.

O auto do texto foi Caetano Manenti que, suponho, seja jornalista. Meu objetivo não é apontar os erros na sua leitura. Ele possuí uma interpretação diferente da minha. Caso você queira lê-lo na integra, aqui está o link: http://www.geledes.org.br/lista-com-nomes-de-navios-negreiros-escancara-cinismo-dos-comerciantes-de-seres-humanos-no-oceano-atlantico/#gs.fBCZ=_g

Vou destacar o trecho que resume a ideia principal do texto:

“Não há páginas da história da escravidão que não nos envergonhe.
Essa, talvez ainda pouco abordada, trata dos dissimulados nomes que os donos das embarcações davam as seus infernos flutuantes, os navios negreiros — ou navios “tumbeiros”, que vem de tumba, sinônimo de caixão.
As histórias desses barcos de nomes revoltantes estão expostas no mais amplo estudo do comércio transatlântico de seres humanos, iniciado ainda na década de 1960, e reunido pela Universidade de Emory (EUA), no site slavevoyages.org.

Ao longo do texto, o Manenti faz questão de ressaltar a dissimulação dos donos de escravos. E compila uma lista considerável de nomes que vão desde Boa intenção a Feliz Destino. Lendo assim, certamente os traficantes soam como uns cretinos que não possuíam nenhuma consideração pelos seres humanos que carregavam em condições degradantes.

Não que eu queira limpar a barra de ninguém, mas é um pouquinho mais complicado do que isso.

Aprendi com dois amigos queridos (que aprenderam com um terceiro, que nunca conheci, mas considero amigo) que um dos objetivos da História é inserir o complexo e o tenso no tempo. É isso que eu procuro fazer aqui.

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Lá no início da faculdade de História, todo estudante universitário passa por uma reflexão sobre uma palavrinha fundamental para o seu futuro ofício: anacronismo. O que raios significa isso?

Anacronismo diz respeito ao ato de julgar algo do passado com parâmetros do presente. Segundo o dicio.com: “ Erro que consiste em atribuir os costumes de uma época a outra”.

Como disse, aprendemos isso no início da faculdade. Passamos o resto de nossas vidas profissionais pensando em como não ser anacrônicos. A nossa primeira reação ao lidar com o passado é julgá-lo com os nossos valores e pensamentos, aquilo que achamos correto. E é uma reação bastante natural e direta.

Pense aí se você já não se pegou pensando “como as pessoas faziam isso naquele tempo?”.

Passamos uma boa parte do tempo, durante nossa formação, estudando teoria sobre História e metodologia da pesquisa histórica exatamente para evitar o mínimo possível o anacronismo. Entenda: anacronismo não é exatamente julgar o passado da forma como eu desejo. Mas é julgar o passado com parâmetros que não pertencem ao contexto analisado.

É quase como chamar Jesus de comunista. Ou os mercadores do templo de capitalistas.

Mas o que grande problema do anacronismo para interpretação histórica é que impede uma compreensão mais cuidadosa dos acontecimentos do passado. Dito de outra forma: julgamos mais do que compreendemos. Quando compreendemos estamos tentando entender os elementos de um acontecimento, tentando criar um certo tipo de identificação com o que aconteceu em determinado contexto; quando julgamos, estamos apenas determinado se achamos correto ou não um fenômeno do passado. Não nos colocamos em uma distância do evento, não procuramos ver todas as minúsculas ações que levaram a um determinado desfecho.

Isso tudo é muito abstrato, eu sei. Se você deseja um exemplo mais concreto veja esse vídeo aqui e repare como certas crianças não conseguem entender como é possível alguém usar algo tão aparentemente inútil e obsoleto como os primeiros computadores. Isso é anacronismo.

Quando tentamos entender as ações do passado através das visões e valores daqueles que viveram no passado, coisas fascinantes e singulares surgem. Os indivíduos começam a surgir como pessoas dotadas de escolhas difíceis, complicadas, em contextos igualmente complexos. Se tornam, estranhamente, distantes e próximas. Distantes por estarem em mundos com parâmetros tão diferentes do nosso e por não ter uma compreensão tão ampla do seu tempo como nós possuímos no presente. Próximas por terem que guiar suas vidas sem nenhuma garantia de sucesso.

Meu ponto é que julgar que os traficantes negreiros eram hipócritas por dar nomes positivos e fofinhos aos seus navios é uma forma de anacronismo.

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Eu certamente não possuo um bom motivo para explicar qual era a lógica que guiava os traficantes negreiros na hora de escolher um nome para os seus navios.

Porque veja: eu precisaria de uma farta documentação sobre como eles batizam seus empreendimentos. Como os donos dos navios negreiros batizavam seus outros empreendimentos? E se eles batizassem com nomes similares aos dos negreiros, poderíamos continuar considerando-os hipócritas?

Na minha dissertação eu encarei um dilema parecido. Meu questionamento foi outro (só pra ser curto): será que o público do século XIX ria das mesmas piadas que eu, no século XXI, rio quando leio uma comédia do XIX? Será que não existem trocadilhos que passam despercebidos e outras coisas cômicas que passam por mim por eu não achar graça?

Julgar os nomes selecionados como hipócritas também não dá conta de compreender o fenômeno do tráfico atlântico de africanos, nem da escravidão. É muito direto e simples: eles traziam africanos para o Brasil; nomeavam seus navios de forma positiva; logo são hipócritas, por realizarem uma prática que não condiz com nomes tão felizes.

Mas quem disse que essa contradição para nós hoje, era contradição para eles do século XIX?

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Como tentativa de compreensão, podemos avançar um pouco no tempo — lembrando que o tráfico negreiro acaba efetivamente na década de 1850 — e ver como a relação com escravos era descrita e se isso envolvia algum tipo de oposição entre a forma como eram tratados e as qualidades que a pessoa se dava. Porque é isso que Manenti afirma: os traficantes eram hipócritas por tratarem de forma degradante os africanos e batizarem seus navios com nomes positivos e sugestivos de caridade; existe uma oposição aí digna de hipócritas.

Vou recorrer a literatura. Não que a literatura nos diga a verdade, ela é mais um indicativo de como as pessoas pensavam a sociedade, o que era possível para aquela sociedade. O autor do texto literário tem um interesse e ele nem sempre é o de descrever algo real, mas o de construir uma história que faça sentido.

Machado de Assis tem um conto maravilhoso chamado Pai contra Mãe, publicado em Relíquias da Casas Velha(1906). O contro é sobre Cândido Neves, homem sem muito talento e habilidades que não consegue encontrar uma atividade fixa. Vagueia por diversos ofícios até encontrar um que, se não é exatamente desejado, paga as contas: capturar escravos fugidos.

Problema é que Cândido vai ter um filho e o dinheiro que entra desse ofício, além de começar a minguar, não é capaz de sustentar uma família composta por 4 pessoas: Clara (a mulher de Cândido), Tia Mônica e o futuro filho. Os nomes aqui não são aleatórios e Machado de Assis, do jeito sacana e irônico como escreve, no meio do texto lança, quando do casamento entre Clara e Cândido: “A alegria era comum aos três. O casal ria a propósito de tudo. Os mesmos nomes eram objeto de trocados, Clara, Neves, Cândido”.

Os tempos já não são mais os mesmos e, como disse, os ganhos de Cândido começam a minguar: outros profissionais entraram no mercado e a concorrência diminui o retorno do protagonista. Tia Mônica sugere — prevendo que eles não teriam condição de manter 4 bocas — que o casal abandone a criança na Roda dos Enjeitados, instituição destinada a receber órfãos rejeitados pelos pais. Após muito lutar contra a ideia e bater a linha da pobreza — a família é despejada de casa, mas a Tia consegue arrumar um canto para ficarem por uns tempos — Cândido aceita a sugestão e ruma em direção a Roda com a criança.

Retardando ao máximo o momento do abandono, no meio do caminho, Cândido vê sua salvação: encontra uma escrava fugida valiosa. Deixa o seu filho com um farmacêutico e dispara em caçada. Consegue, sem muito esforço capturá-la; ela suplica pra que lhe deixe ir, pois está grávida. Cândido não dá ouvidos e consegue subjugar a negra Arminda.

O resto da história, eu deixo pro Machado:

Arminda caiu no corredor. Ali mesmo o senhor da escrava abriu a carteira e tirou os cem mil-réis de gratificação. Cândido Neves guardou as duas notas de cinquenta mil-réis, enquanto o senhor novamente dizia à escrava que entrasse. No chão, onde jazia, levada do medo e da dor, e após algum tempo de luta a escrava abortou.
O fruto de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos da mãe e os gestos de desespero do dono. Cândido Neves viu todo esse espetáculo. Não sabia que horas eram. Quaisquer que fossem, urgia correr à rua da Ajuda, e foi o que ele fez sem querer conhecer as consequências do desastre.
Quando lá chegou, viu o farmacêutico sozinho, sem o filho que lhe entregara. Quis esganá-lo. Felizmente, o farmacêutico explicou tudo a tempo; o menino estava lá dentro com a família, e ambos entraram. O pai recebeu o filho com a mesma fúria com que pegara a escrava fujona de há pouco, fúria diversa, naturalmente, fúria de amor. Agradeceu depressa e mal, e saiu às carreiras, não para a Roda dos enjeitados, mas para a casa de empréstimo com o filho e os cem mil-réis de gratificação. Tia Mônica, ouvida a explicação, perdoou a volta do pequeno, uma vez que trazia os cem mil-réis. Disse, é verdade, algumas palavras duras contra a escrava, por causa do aborto, além da fuga. Cândido Neves, beijando o filho, entre lágrimas verdadeiras, abençoava a fuga e não se lhe dava do aborto.
- Nem todas as crianças vingam — bateu-lhe o coração

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Antes de partimos para conclusões apressadas, algumas coisas devem ser destacadas.

Machado de Assis escreveu isso anos depois da abolição e ele é permeado de ironia ácida. Nesse contexto, como o final deixa explícito, existe uma certa hipocrisia por parte de Cândido: a criança da escrava não importava muito, mas seu filho sim.

Só que hipocrisia não é exatamente a palavra aqui.

Hipocrisia diz respeito a uma ação do sujeito que afirmar ser contrário a essa ação. Pense no político que diz ser ficha limpa e ser contra a corrupção, mas rouba sempre que possível.

Cândido Neves em nenhum momento entra em contradição. Ele recupera escravos fugidos e ama seu filho como uma criança qualquer. Cândido não está muito preocupado com a vida de Arminda. E a consciência tranquila de Cândido fica exposta na ultima frase, ponto foda de Machado: “Nem todas as crianças vingam”.

Machado de Assis está escrevendo no início do século XX, depois de 18 anos do fim legal da escravidão. Os valores e princípios que nortearam sua escrita são significativamente diferentes daqueles dos traficantes de escravos do início do século XIX. Ele, de certa forma, quis causar no leitor o impacto entre a óbvia oposição entre a forma como Cândido trata a perspectiva de perder seu filho e com a perspectiva de perda de Arminda.

Mas, como disse no começo, a literatura nos importa pelas possibilidades que ela nos dá para pensar aquela sociedade. A atitude de Cândido mantêm alguma semelhança com a atitude dos Negreiros. Na ficção e na realidade, há uma desconsideração pela vida dos africanos, tornado-os apenas objetos, enquanto se trata de forma positiva e cristã outro alguém ou coisa.

Enquanto Machado realiza isso com ironia, depois de presenciar anos de luta pela abolição, os traficantes negreiros faziam isso pelo simples fato de não reconhecerem africanos como seres como dignos de algum tipo de consideração. Eram apenas objetos negociáveis — objetos que davam muita dor de cabeça, é verdade — altamente lucrativos.

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A contradição que constatamos ao verificar que os nomes dos navios negreiros não condizem com a forma como os africanos eram tratados dentro deles, esconde uma característica das relações entre indivíduos e escravos no século XIX. Nossa contrariedade nos impede de perceber a distância que separa aqueles indivíduos de nós. E nos impede de compreender que, para eles, não existe nenhum problema batizar um navio com um nome cristão e colocar 300 africanos para atravessar um mar em 50 dias; e os mortos são contabilizados como carga perdida.

Daquele tempo até hoje, existe uma longa história de relações objetificantes e de rebaixamento de africanos e negros. Essa história tem suas metamorfoses e seus capítulos: por exemplo, a transformação do corpo da negra em objeto sexual; ou em como certos tipos de trabalho “menos dignos” tornaram-se tarefa de negros, como motoristas, seguranças, empregadas, “auxiliares de serviços gerais” (meu eufemismo favorito).

Os traficantes negreiros não eram cínicos ou hipócritas. Assim como ninguém que diz “Eu até tenho amigos negros” também não se acha racista. Eles simplesmente tratam negros e negras(e ameríndios) como pessoas de uma categoria inferior, quase como objetos. Demonstrar o que essa forma de tratamento permite é lutar contra a perpetuação desse sistema nefasto, que legitima a morte de minorias, rebaixando-os automaticamente a categorias negativas (marginais, vagabundos, dentre outros).