Vida de Inseto

O vôo parece o mais difícil para os humanos. O zzz agudo no ouvido, o mais irritante. Para o mosquito, é a paciência, a espera. E a aterrissagem. A partir daí, as estocadas entre os poros da pele são firmes e determinadas. Micro-agulhadas até achar a fonte adequada donde flui o sangue.

Assim pensava Marco. Assim se imaginava na cabeça do inseto parado sobre a pele dela. Ali sobre a canela esquerda pela parte de fora da perna, bebia.

- Olha o mosquito aí na tua perna! — seria a sua reação habitual. Ou o esmagaria com um leve tapa.

Dessa vez, decidia esperar. Podia imaginar os largos goles de vida que nutriam o inseto. Uma existência curta, de poucas horas essenciais para manter o módico eco-equilíbrio. Diante da pequena coceira que ela sentiria minutos depois, isso lhe parecia aceitável.

Por outro lado, que conhecimentos tinha para medir as intenções do inseto? Transmitiria dengue, chagas, malária, ou outras doenças? Ou nada? Tão minúsculo ponto vermelho na pele poderia mesmo ser tão danoso?

Restava-lhe contemplar. A incidência do sol na pele do rosto, das pernas. O som áspero da palma da mão acariciando a página marcada do livro que ela lia. A deformação momentânea dos lábios pela bomba do tererê de ronco firme. A mão esquerda com o cigarro. Os dedos entre os cabelos de fios grossos e negros a cada período. E o balanço inquieto e despreocupado das pernas cruzadas, emulando um metrônomo.

Marco percebeu a naturalidade com que ela dificultava a ação do inseto. Sentar para ler um livro era mais que isso. Era sorver e estar inquieta. Mas ainda assim, o bicho lograva êxito. Alimentava-se dela, ali na mesma posição. A olho nu, Marco identificava o espasmo nervoso nas patas traseiras do mosquito aos goles.

Com um peteleco, ele podia mudar isso. Encerrar o mal. Encher-se do mais prosaico heroísmo. Igual ao dos filmes que gosta de assitir e das músicas que escuta repetidamente. Decidiu matá-lo. Que pensa esse bicho para interferir na vida de outra pessoa? Elevou-se de seu posto, calculou a força necessária, e… Plaft!

Observou o pequeno animal esmagado sobre a perna dela. Passou por dois segundos de perplexidade, mas reagiu com um sorriso. Sem aviso, sem qualquer sinal, ela ergueu a mão que marcava a página do livro, levou à perna e pôs fim à vida do inseto. Embora não pudera dar o beijo ou gozar de seu protagonismo, Marco viu que muito além de contemplar e interferir, algo podia ser melhor: estar conectado.

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