Quando eu vejo ela sentada sozinha

Ela desceu os degraus olhando para os pés e quando pisou na calçada me olhou sorrindo. Depois de um abraço, eu disse que o prazer era meu por encontrá-la ali.

Os primeiros passos juntos nos levaram a um bar onde trocaríamos frases e experiências que de forma alguma me prenderiam na mesa junto ao copo de cerveja. Em meio a fumaça dos cigarros eu viajei por locais distantes, sonhos sobre coisas que eu não conhecia até então.

A culpa não foi do álcool.

Foi do sorriso doce, dos vários anéis em vários dedos, das gargalhadas quando eu falava alguma bobagem, o cabelo comprido e descuidado de forma perfeita. Uma obra de arte em movimento, que pensa e fala, canta e inebria.

Em determinado momento precisei sair da mesa e fui até o balcão fazer um pedido.

Na volta, observei a nossa mesa à distância. Ela sentada, sozinha, confiante, com um cigarro entre os dedos era o símbolo de alguma divindade que eu não conseguia decifrar. Mesmo daquela distância eu sentia a gravidade, uma força de atração de um astro que até então orbitava outro plano, que me impulsionava e me arrastaria como uma onda Deus sabe pra onde.

Ali eu já tinha certeza.

Hoje me parece uma viagem de infância, ela lembra com nostalgia as vezes, vive o presente comigo, mas eu não. Eu vivo no passado, eu vivo a memória toda vez que vejo ela sentada em uma mesa, em uma roda com os amigos eu vejo ela de novo pela primeira vez. E é inútil resistir, ela me arrasta e me engole, me leva por aí na palma da mão.

Parece que ela esqueceu, mas pra mim, sempre é como a primeira vez.

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