Os sapatos sociais estão engraxados e brilhantes, a meia esticada até o ultimo centímetro cobre as canelas já cansadas pelo tempo. A bermuda jeans em tom pastel pouco combina com o sapato, muito menos com a jaqueta de couro ou a boina azul marinho, mas qualquer moda não o impede de caminhar até a mercearia da esquina. Essa é uma simples fotografia, uma fotografia de Manoel Cabrero tirada pela minha memória.
Essa lembrança não surge do nada, muito menos o sentimento. Nessa lembrança, eu sou o Operator, eu recorto a lembrança de 1999 e a guardo na memória junto com os almoços de domingo. Se apropriando das classificações de Roland Barthes (A Câmera Clara: Notas sobre Fotografia, Nova Fronteira, 1984), seria eu um Operator “mental”? Talvez, construo fotografias na minha mente pela falta das usais. Guardando esta recordação eu mantenho uma conexão que não pode ser construída em vida, o que foi construído em vida foram itens que me condicionaram a função que exerço.
Antes eu era apenas um Spectator, a fotografia era algo admirável? Sim era. Entretanto, não me interessava. Nós vivemos grande parte da nossa vida apenas convivendo com a fotografia, sem nem ao menos interagir com ela. Folheamos um bombardeio de imagens na fila de espera do consultório médico e nos mantemos distantes de qualquer sentimento.
Um dia tudo muda, você compra um presente de aniversário para seu pai, uma simples caneta e ele te dá outro em troca: também uma caneta, de 1971. Após quarenta e dois anos ela ainda funciona e é a partir daí que eu me torno um studium “físico”, exploro um sentimento até antes inexplorado e reconheço a importância de um objeto.
Conviver com essa caneta Parker de 1971 provocou um flerte com o meu Operator “mental”, que me lembrava das vezes em que ele brincava de esconder meu copo de suco enquanto eu fingia que não percebia. O processo, entretanto, não estava concluído, reconheci a existência da lembrança através da caneta e convivo com essa existência no meu cotidiano — rascunhos desse ensaio foram escritos com ela.
No contato com a fotografia busquei as minhas. A nostalgia que se pode atingir a partir de um álbum de fotos é assombrosa. Repousada no fundo da caixa de fotos, estava uma em preto e branco: Manoel Cabrero abraçava uma versão sorridente e mais nova de um de meus irmãos. Nesse momento, compreendi o punctum de Barthes. Aquela foto me atingiu e me condicionou a recortar muitas imagens na minha mente: Vô Manoel escondendo meu copo, o traje peculiar de ida a mercearia…
O punctum me transformou num Operator, agora posso construir fotos cheias de significado, condicionar o olhar fotográfico é um processo lento, podendo levar até seis meses. Gosto de pensar que tive uma ajudinha do meu avó nesse processo.
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