O privilégio do Benjamin

Hoje, mesmo sem saber, meu filho com (quase) 3 anos foi beneficiado por um privilégio silencioso. Daqueles que muitos negam ter e que só tornam mais difíceis o equilíbrio social.

Saindo da escola após a comemoração do Dia das Crianças, chamei a atenção do Benjamin quando ele deixou cair metade dos salgadinhos que tinha ganhado. Não briguei (até porque entendo que parte da culpa dele ser desastrado é do meu DNA, mas principalmente por não ser muito fã dele comer esses salgadinhos industrializados), mas soltei um “Êta, Benja!”.

Então esse é o Benja?, perguntou uma mulher que passava ao lado segurando a coleira do seu cachorro. Eu, que não tenho muito tato social para small talks com desconhecidos, apenas acenei com a cabeça.

O meu filho sempre fala do Benja! Um dia ele chegou da escola e disse que o Benja tinha batido nele.

Qual é o nome do seu filho? — A Aretha (mãe do Benja) perguntou, provavelmente curiosa pelo mesmo fato que eu: o Benjamin nunca foi de bater nos colegas. Mas a gente também sabe que o “anjinho” de casa nem sempre reflete o comportamento longe dos pais.

Fulano*! Um dia, ele chegou falando que tinha apanhado na escola e falava “Beja”, eu achava que ele estava pedindo beijos!

Eu ri.

Engraçado porque o Benjamin não costuma bater. Aliás, ele sempre voltava machucado porque apanhava! — a Aretha contou, rindo. Afinal de contas, crianças brigam o tempo todo e elas precisam resolver isso entre elas, faz parte do processo de amadurecimento.

É, tem um garoto da sala deles que sempre bate no Fulano! Eu não gosto dele, ele sempre faz isso. Sabe quem é? É um… trancudinho.

Ela queria dizer preto. Negro. Mas o alerta do politicamente correto da família tradicional brasileira deve ter apitado na cabeça.

Eu sabia bem de quem ela estava falando. Era do Ciclano*, filho de uma família bastante humilde que mora aqui perto. De fato, o Ciclano tem um comportamento mais agressivo. Ano passado o Benjamin era a principal vitima da falta de gentileza dele.

Normal. Ensinamos que quando o Ciclano empurrasse ou brigasse, o Benjamin deveria tentar explicar que ele não gostava. E, se possível, dar um abraço pra incentivar o afeto.

A gente sabe que as coisas não devem ser fáceis na casa do Ciclano.

Meu marido foi na escola e perguntou pra professora quem era o Benjamin — a dona do cachorrinho continuou — Quando ela apontou, meu marido falou “Imagina, aquele garoto loirinho não poderia ter batido no Fulano!”.

Ela riu. Eu não.

Nessa hora, a realidade bateu forte como um tapa que eu já tinha tomado. Mas ainda assim, senti a mesma dor.

O Benjamin é branco, tem olhos claros e sem saber ou querer já está sendo beneficiado por isso. Como essa criança dentro dos padrões aceitáveis na sociedade poderia ser capaz de bater em um amiguinho? Claro que não. Foi o negrinho, o troncudinho, filho de pessoas que jamais devem ter tido oportunidades de entender que parte de seu sofrimento é inerente a sua vontade.

Se você acha que sempre ralou por tudo que conseguiu na vida e que nunca teve privilégios, pensa de novo. Porque quando crescer, o Ciclano talvez nunca entenda o motivo das pessoas desconfiarem da sua palavra, dificultarem seu ingresso em oportunidades de emprego ou até mesmo atravessar a rua quando ele estiver vindo de noite.

O Benjamin nunca vai saber o que é isso. Ele é privilegiado. Não é culpa dele, claro que não. Mas é um privilégio que ele não pode negar.

A questão que eu deixo é: o que você está disposto a arriscar, quais privilégios você está disposto a sacrificar para criar uma sociedade mais justa?

*nomes fictícios