De um policial aposentado

Texto escrito em 2012

Alguns passam e me olham com pena, outros com desgosto, mas uma pequena quantidade me olha com orgulho, aqueles que, com esforço, me mantêm vivo, que, mesmo quando disseram para desistir, sempre me bancaram e assumiram a responsabilidade.

Hoje já não sou aquele ser com porte, que impõe respeito, que era a atração principal nas festas infantis enquanto corria atrás de balões para estourá-los. Já não assusto mais invasores com tanta facilidade, admito que eu até possuo um pouco de medo deles. Já tenho o olhar de um velho ancião curtindo os últimos momentos enquanto espera o repouso, afinal eu possuo quase a mesma idade que o primeiro sobrevoo do 14-Bis.

Tenho diagnosticado todos os problemas de um indivíduo pós-moderno: artrite, artrose, hipertensão e talvez até um pouco de estresse. Sim, ou acham que comer com meus frágeis dentes e demorar um bom tempo para conseguir levantar e fazer minhas necessidades básicas é fácil? Às vezes, até deixo algum rastro pelo caminho, mas nunca sofri nenhum castigo por isso, acho que tenho muito crédito com quem limpa o chão. Com certeza eu mereço essa moral, foram anos de dedicação e espera no portão, reação a vários estímulos no meu prolongamento nervoso e algumas vociferações para o sino da igreja que insistia em badalar religiosamente ao meio-dia.

Alguns vizinhos eu vi crescer, passavam pedalando na sua motoca ou andando de skate, barulhos que me atordoavam demais, hoje esses mesmos passam cantando pneu de seus carros 1.8 de 16 válvulas. Outras senhoras que já eram velhas, eu vi ficarem mais velhas ainda, algumas não passam mais por aqui a caminho da missa, não sei se elas morreram, mudaram de casa ou trocaram de religião. Vi algumas crianças novas chegarem, que, na medida em que cresciam, miravam erroneamente pra mim esboçando um receio e contando ao pai minha presença vacilante. De fato eu fui e ainda sou muito popular na minha rua.

Urso ainda novo, com o dono, Lucas

Talvez minha presença marcante e constante à espera de alguém tenha causado uma má impressão a uma senhora que sempre que passa me olha com pesar e sai às lágrimas, admiro tamanha preocupação, mas ela me traz comida e meu instinto primário nota a presença de um cheiro diferente e sacio minha vontade em pouco tempo. Caso tenham esquecido, sou hipertenso, tenho alimentação regulada e não sei distinguir o que é certo ou errado. Reconheço sua preocupação, mas tenho quem cuide de mim.

Então, como não consigo negar um prato diferente, gostaria de pedir encarecidamente para que ela pare de me alimentar e não olhe a mim com pena, olhe com admiração, como um exemplo de superação. Nunca fui maltratado, muito menos passei fome e ainda menos sofri da ausência de carinho. Gostaria também de pedir, caso ela queira ajudar de forma útil, que seja com um cafuné ou algumas palavras — obviamente ela deveria falar alto, pois minha audição também foi afetada pelos anos nesse mundo estranho -, embora eu não consiga responder, ainda estou lúcido e compreendo bem.

Em respeito aos meus donos, também gostaria de pedir para que ela pare de causar constrangimento a eles. Comentar na rua que eu sofro de maus tratos não é legal e não me sinto nada bem com isso. Não tenho conhecimentos científicos, mas acho que intromissão na vida alheia é um dos requisitos básicos para os humanos, pelo menos é o que percebo pelas pequenas ações que consigo enxergar no meu ângulo de visão limitado pela grade de ferro que separa minha casa dos problemas da rua.

Também percebo o cotidiano apressado dos jovens, que em passadas largas e rápidas saem com pressa das escolas aqui perto, em contraste com as crianças que observam cada ser e objeto como se fosse uma nova descoberta e aos idosos que enfrentam cada desnível da calçada com a mesma dificuldade que eu tenho para subir o degrau do deck da piscina.

Ah! Como eu queria que as pessoas pudessem me ouvir. Eu iria ensiná-las que não existe uma fórmula para longevidade, mas cuidar de si e de quem ama é a melhor maneira de explorar e aproveitar ao máximo cada momento vivido, e assim tornar longos os momentos de prazer e curtos os de tristeza. Mostraria que a vida passa a nossa frente muito rapidamente e cada momento olhando ao lado é tempo perdido. Nós, caninos irracionais, aprendemos isso melhor do que ninguém e deve ser por esse aproveitamento de emoções que nosso coração bate por menos tempo.
Não sei quantas primaveras ainda terei por aqui, mas estou em paz por sempre ter feito o que achava correto e por deixar este aprendizado. Como melhor amigo do homem, tenho dever em deixar um conselho: percebam, vivam, amem a vida de vocês, aproveitem quem vocês têm ao lado, valorizem suas habilidades, quem sabe assim um dia vocês possam olhar para trás e afirmar que tiveram uma vida saudável e mansa. Quem quiser agir, que aja logo.

Urso, falecido em 29 de outubro de 2012, com 16 anos.
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