Justamente por amor

“ Filhinhos, não deixem que ninguém os engane. Aquele que pratica a justiça é justo, assim como ele é justo.” 1Jo. 3.7

Um dos atributos mais fundamentais do caráter de Deus é a justiça. Sua santidade e sua integridade se manifestam através da justiça proveniente de seus lábios, suas mãos e seu coração. Ou seja, tudo que Ele fala, tudo que Ele faz e tudo o que Ele é se traduzem na forma mais pura de justiça. Não uma justiça fabricada pela nossa moral e ética, mas uma justiça genuína, que muitas vezes não pode ser entendida por nosso limitado raciocínio.

A bíblia é recheada de textos que mostram que esse é um atributo pelo qual Deus aprecia ser reconhecido. São tantos os textos que fica difícil listar todos, porém destaco alguns:

Se vocês sabem que ele é justo, saibam também que todo aquele que pratica a justiça é nascido dele.
1 João 2:29
Justo és, Senhor, e retas são as tuas ordenanças.Salmos 119:137
O Senhor é justo! Ele libertou-me das algemas dos ímpios.Salmos 129:4
O Senhor é justo em todos os seus caminhos e é bondoso em tudo o que faz. Salmos 145:17

Com tantas menções, é importante entendermos o que é a Justiça e como Deus pode ser reconhecido como O Justo e, consequentemente, nós mesmos reconhecidos como justos pela fé em Jesus Cristo.


Os hebreus tinham um conceito bem completo sobre a justiça. Segundo o Novo Dicionário da Bíblia, são três palavras que aparecem no AT para significar “justiça”: (tsedeq) justiça, retidão, (tsᵉdāqâ) justiça, retidão e (tsaddîq) justo, legal, certo, reto. Veja o que Cirilo Gonçalves, investigando o tema diz:

No Israel antigo o comportamento não era julgado segundo uma norma abstrata, mas em função do concreto, das relações humanas. O conceito(mishpāṭ/tsᵉdāqâ) (tsedeq/tsᵉdāqâ) é conceito de relação real entre
dois seres e não entre uma idéia e um objeto submetidos à julgamento de valor .
O uso mais antigo de (tsedeq/tsᵉdāqâ) diz respeito à função de juízes. Todos os seus procedimentos e decisões devem ocorrer de acordo com a verdade e sem nenhuma parcialidade (Lv 19:15). A fraude e o engano nas relações comerciais não são permitidos. O termo em questão descreve três aspectos de relacionamentos pessoais: Ético, Forense e Teocrático.

Disso podemos chegar a conclusão de que Deus não somente dá importância para a prática da justiça em meio ao seu povo, mas considera que a justiça é uma característica intrínseca do agir daqueles que O amam.

É a forma que os santos e íntegros interagem e como se baseiam os relacionamentos com o próximo. Em outras palavras,

JUSTIÇA é ação conforme o padrão de Deus.

Mas essa justiça é realmente pra gente? Será que nós, que erramos tantas vezes, de tantas formas diferentes, nós que deixamos nosso orgulho tomar conta das nossas ações, será que nós podemos ser considerados justos diante de Deus?


“Não cometam injustiça num julgamento; não favoreçam os pobres, nem procurem agradar os grandes, mas julguem o seu próximo com justiça.
Levítico 19:15

De acordo com o estudo do pr. Cirilo, “o aspecto Forense está ligado à igualdade de todos, ricos e pobres, perante a lei. O justo não era morto (Êx. 23:7), pois a lei não o condenava…” e “Na época do Israel antigo o juiz considerava a inocência de um homem mediante a sua retidão em relação à lei de Deus. Ser inocente e ser justo eram a mesma coisa.”

Morte, inocência, condenação - isso tudo pode parecer distante da gente, mas a Palavra nos mostra que não. A justiça faz parte da essência de Deus, então como pode essa justiça também não fazer parte da nossa vida, quando nos entregamos ao senhorio de Jesus?

Há vida!

O fato de que vemos o assunto da justiça de Deus muito distante é porque o diabo quer que assim seja:

Desta forma sabemos quem são os filhos de Deus e quem são os filhos do diabo: quem não pratica a justiça não procede de Deus; e também quem não ama seu irmão.
1 João 3:10

Como filhos de Deus, nossas atitudes devem ser permeadas da justiça de Deus. Por exemplo, se uma pessoa em situação crítica precisa de ajuda e não tem como sair do buraco, por sabermos quem somos e qual é o padrão de Deus para todos nosso dever é ajudá-la e assim trazer a justiça de Deus.

Atitudes de justiça só tem esse rótulos quando o resultado dessa ação é a aproximação com Deus, com sua dignidade e sua identidade.

Ou seja, atos de justiça tem tudo a ver com a nossa identidade. Se somos filhos de Deus, somos santos, somos íntegros e somos justos.


Certo, uma boa base teórica, mas na prática, como eu posso ser justo? Eu só peco! Piso na bola diariamente! Vamos ver adiante, como esse conceito de justiça era entendido quando foram escritos os livros e cartas do NT.

“DIKAIOS (Justo) em primeiro lugar é aquele que se comporta de modo adequado para e dentro da estrutura de sua comunidade e observa os deveres para com os deuses e os homens.
DIKAIOSYNÊ (Justiça) na justiça está, como um compêndio, toda a virtude.”
“É o caráter ou qualidade de ser reto ou justo. Usado para denotar um atributo de Deus, significa essencialmente o mesmo que sua fidelidade, ou veracidade, aquilo que é coerente com Sua própria natureza e promessas;”
“Dikaiosyne: se encontra nas palavras do Senhor Jesus no sermão do monte, referindo-se a tudo que é reto e justo em si mesmo, de tudo o que está de acordo à vontade revelada de Deus. Mateus 5:6 “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos”; 10 “Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus”; 20 “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus”(citação). É possível que a chave para esse sermão seja este ultimo verso. O tema central desse texto é a verdadeira justiça. Os líderes religiosos possuíam uma justiça artificial e exterior com base apenas na lei. A justiça que Jesus descreve é verdadeira e essencial, começa no interior, no coração. Os fariseus se preocupavam com os mínimos detalhes da conduta e do cumprimento rigoroso da lei, mas deixavam de valorizar a pessoa.”
Ao proferir o sermão do monte, Jesus inicia enfatizando os benefícios e bênçãos para o cristão decorrentes de seus ensinamentos. Os fariseus ensinavam que a justiça era algo exterior, uma questão de obedecer a determinadas regras e preceitos, e aplicavam a punição caso houvesse a infração da mesma, em detrimento da misericórdia. Jesus apresenta um caráter cristão que flui do ser interior e se manifesta em atos exteriores ao exercer a justiça. No episódio da mulher adúltera (João 8:1–11), em vez de julgar a mulher, Jesus julgou os juízes, porque certamente se indignou com a maneira como a trataram.

Ou seja, Jesus nos ensinou que a justiça é algo maior que aparência. É algo que provêm de misericórdia e amor. Então, se pecamos, temos a graça e misericórdia de Deus para nos ajudar a mudar e não mais pecar.

Por exemplo, um relacionamento que agrada a Deus é o que coloca o próximo sempre em primeiro lugar, onde há sempre renúncia. Jesus mesmo nos ensinou que para seguí-lo, precisaríamos renunciar a nós mesmos (Lc. 14). É uma cruz, um objetivo que temos. Não quer dizer que devemos continuar pecando.

Não podemos concluir de que Jesus não tratava o pecado com rigor ou de que desrespeitava a Lei. O perdão de Cristo também não é uma desculpa para pecar. Sua ordem foi: “vai e não peques mais”. Essa experiência do perdão repleto de graça foi um exemplo da justiça e misericórdia (dikaiosyne) que deve servir como motivação para viver em obediência.

Em outras palavras, a justiça de Deus nos faz buscar a verdade de Deus e deixar de lado o comportamento que O desagrada.


Mas eu sou justo?

Sim! A Palavra é clara ao nos chamar de JUSTOS! Aqueles que amam a Deus, seus filhos, foram JUSTIFICADOS, ou seja, tornados justos pela fé em Jesus Cristo. Veja:

pois quem morreu, foi justificado do pecado.
Romanos 6:7
“Portanto, meus irmãos, quero que saibam que mediante Jesus lhes é proclamado o perdão dos pecados. Por meio dele, todo aquele que crê é justificado de todas as coisas das quais não podiam ser justificados pela lei de Moisés.
Atos 13:38,39

Glória a Deus! Lembra que o conceito de justiça no AT dizia que o justo não era morto porque a lei não o condenava? É exatamente pela morte de Jesus, o único perfeito, que morreu na cruz no nosso lugar, que podemos ser chamados JUSTOS. Porque para que houvesse vida, teve de haver morte! Ele pagou o preço por todos os pecados que cometemos e que ainda iremos cometer, justamente por amor!

Por isso:

Portanto, fomos sepultados com ele na morte por meio do batismo, a fim de que, assim como Cristo foi ressuscitado dos mortos mediante a glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova.
Se dessa forma fomos unidos a ele na semelhança da sua morte, certamente o seremos também na semelhança da sua ressurreição.
Pois sabemos que o nosso velho homem foi crucificado com ele, para que o corpo do pecado seja destruído, e não mais sejamos escravos do pecado;
pois quem morreu, foi justificado do pecado.
Ora, se morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos.
Romanos 6:4–8

Temos vida! É a justiça! E essa justiça pode e deve ser compartilhada! Pela morte de Jesus, Deus nos enxerga como justos, inocentes, puros, como pessoas que não têm o mal arraigado e como dignos de seu amor.

Por isso devemos agir conforme somos vistos por Deus e buscar o amadurecimento através da justiça em nosso agir. Devemos nos envolver com as coisas do Reino e nos afastar das coisas que nos afastam de Jesus.

Se na Grande Festa a santidade é nossa vestimenta, a justiça é a forma como essa vestimenta é utilizada. Não adianta termos um terno bonito para usar como calça ou um vestido elegante para usar como chapéu. Tudo precisa estar em conformidade com o que fomos chamados!

Que Deus nos ajude a entender a forma de usar e usufruir sua Justiça!

Lucas Alhadef Clemente

Fontes:

Estudo de Cirilo Gonçalves

Bíblia NVI