Crise, ideologia, negociado e violência

Jovens, como eu, vivendo em tempos de avanços agressivos do neoliberalismo junto a medidas de austeridade, ressignificando as formas de organização produtiva e política, tornando-as cada vez mais precárias, autoritárias e grotescas, vem se acostumando a cada ano a escutar a palavra “crise” que se tornou uma característica permanente das instituições que sustentam a sociedade. A crise do emprego, das escolas, prisões, da água e dos alimentos, da saúde etc., são pontos fundantes do que Gilles Deleuze chamaria de sociedade de controle, um processo de metamorfose das disciplinas.

A crise vem do grego krisis, e significa, como lembra Marilena Chauí: capacidade de discernimento, ação de escolher, julgamento e ação e decidir. Se refere ao momento no qual o sentido de um processo se manifesta e pede que ações determinadas sejam realizadas para que o processo se desdobre até o fim e que a ação a ser realizada seja aquela que permita a compreensão e o termino do processo. Significado esse alterado completamente pela ideologia.

Relacionada a uma ideia de racionalidade na qual supostamente o liberalismo estaria organizado, a crise é apresentada ideologicamente como um mal funcionamento em algum setor da divisão social do trabalho, algo patológico que não pertence ao capitalismo e sim a uma falha individual ou de um grupo especifico, tirando da palavra crise sua historicidade dialética que poderia ser usada como contradiscurso para uma crítica contundente.

A questão é: quando topamos com esse raciocínio supostamente racional e coerente sobre o que é uma crise política ou econômica, acabamos por redimensionar nossas vidas de forma material e subjetiva para que nos adaptemos as formas de viver em crise, aceitando retrocessos, por exemplo, nos direitos sociais acreditando que será para um bem coletivo, repleto de boas intenções do setor empresarial e estatal.

Estamos todos endividados. Reféns da esperança insustentável do retorno de um Estado de Bem-Estar e buscando pelo resto das nossas vidas, modelos inalcançáveis de ser e viver. Uma forma de controle que, embora nos mergulhe em reformas, direitos de minorias, avanços, progressos, nunca termina em nada. Não há nenhum Estado democrático de direito que não seja responsável diretamente pela produção de misérias.

Slavoj Zizek, em seu livro “Primeiro como tragédia, depois como farsa”, alerta: “a época da chantagem moralista democrático-liberal acabou”. Nosso imobilismo alimentado pelas experiências socialistas autoritárias do século XX fazem com que a esquerda ainda peça desculpas pelas suas reações. Esse momento deve acabar e é bom que o outro lado perceba que são eles que devem começar a pedir perdão.

Propostas modernosas pipocam do congresso nacional, propondo flexibilidade, simplicidade e facilidade, tudo para manter a felicidade no harém do pleno emprego precário. Foi assim com a reforma trabalhista urbana e agora com a rural, que aspira nostalgia do feudalismo, propondo outras formas de remuneração que não seja dinheiro: como casa e comida e privilegiando o “acordo” sobre o legislado.

Na periferia do capitalismo, a farsa e a tragédia se diluem.

Negociar não é nenhuma fantasia nova criada pela burguesia atual. Desde a escravidão — não fazendo nenhuma comparação direta com os acontecidos de hoje — quase tudo se resolve no “esquema”. Na época, por pressão internacional e pelo medo de que por aqui acontecesse uma revolta a lá Haiti — aquela que não sobrou branco nenhum para contar história-, se chegou a um meio termo chamada Princesa Isabel para que a falsa abolição surgisse com jeito de caridade.

Mais recente, o ex-governo golpeado e simpatizantes sustentaram por quase quatro mandatos uma relação de orgia com o setor empresarial para conseguir ceder um direito aqui e outro acolá, tudo na calma, sem violência e pacificado com exército nos morros. E mesmo agora em situação de oposição, resiste em adotar uma postura radical para manter a possibilidade de novos acordos e governanças negociadas, perseguindo por vezes autonomistas que optam pela ação direta como forma de resistência.

Embora seja imprescindível a presença nas ruas, é ainda necessário fazer a crítica de como vem sendo estruturada as manifestações de massa como resposta aos retrocessos. O dirigismo e a cautela para não ofender parcela da burguesia que sustenta um ou outro sindicato e quase todos os partidos prevalece.

Quebrar vidraças dos bancos e das senzalas em forma de restaurantes ainda vem sendo uma forma de ação moralizada por boa parte da esquerda que ainda acredita que é possível mudar a realidade “humanizando” os responsáveis direta e indiretamente pela exploração e parece não ter se livrado da ideologia que mascara a real violência, sofrida pelas trabalhadoras e trabalhadores na relação capital-trabalho, no campo ou na cidade.

Como disse o Anarquista francês, Émile Henry, em seu julgamento por atentados em bairros burgueses de Paris no século XIX:

“…não havia nenhum inocente lá, não existe burguesia inocente. ”

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