“Apelo ao diálogo”

Com esta pérola, retirada das embalagens de óleo de peroba, o representante-mor do combalido Ministério da Educação classificou na TV os ‘esforços’ do governo para convencer dezenas de milhares de estudantes a desocupar 3% dos locais de provas do Enem. O ‘apelo’, feito à base do corte de água e de energia, além de ameaças de todas as partes, não amoleceu os corações desses jovens, que preferem a luta à lona em 364 escolas e universidades públicas ou privadas, como a PUC Minas.

É verdade que o ‘ministro’ Mendonça Filho (DEM) bem que se esforça…, para agradar o chefe. O político rechaça a ideia de retirar da pauta do Congresso a Medida Provisória da Reforma do Ensino Médio (MP 746/ 2016). Afinal, este governo está mesmo vocacionado ao provisório. Ele também é signatário das ideias de Temer sobre a PEC 55 (ex-PEC 241), aquela que levou a juventude a ocupar escolas, repetindo o gesto dos estudantes secundaristas paulistanos em relação à Gestão Alckmin.

A PEC 55 congela os gastos sociais por 20 anos, reajustando-os pelo índice da inflação dos últimos 12 meses contados até 1º de julho do ano anterior. A proposta, porém, não considera questões básicas como o progressivo aumento populacional e o déficit de investimentos em áreas como a educação. Nossos jovens, que sentem na pele as deficiências da escola pública, exerceram o livre direito à manifestação na busca por diálogo. Eles, como Ana Júlia Ribeiro, ‘símbolo das ocupações’ aos 16 anos, querem ter voz e vez diante daqueles que seus pais, tios ou avós elegeram.

Mas, no Brasil onde o Judiciário autoriza o corte de salários de servidores públicos em greve, ferindo a Constituição Cidadã de 1988, o diálogo perde força. Aqui, ganha status a máxima temeriana “não reclame, trabalhe”. Por isso, o que faz destas ocupações de jovens sedentos por educação algo único é a oposição a essa decantada ideia. Eles reclamam, ocupam, protestam e atestam a incapacidade deste governo de conversar com o cidadão. Sobretudo, com eles, novos ‘protagonistas da democracia’, que já poderão colocar Mendonça & cia à prova das urnas em 2018.