Éramos eu e solidão

Já passava da meia-noite, hora boa pra sair com os amigos ou a namorada (se ele namorando estivesse), mas continuava lá, observando o movimento ainda perene dos carros que passavam pela rodovia expressa. E, ainda que não quisesse abandonar o silêncio de seu quarto naquela noite de sábado, brotavam convites de todos os lados. Só que, especialmente naquelas épocas, surgia sua amiga mais fiel, em que se pese sua inexistência material, digo, só existindo pra ele. (Como se isso importasse). Solidão, nome dado àquela amiga imaginária, aparecia sempre que as agendas de finais de semana estavam abarrotadas de eventos — algo milagroso tendo em vista a monotonia daquela parca cidade provinciana.

Ele reclamava, quando da ausência de Solidão, que nada acontecia por aquelas bandas e seu desejo era mudar-se para a cidade vizinha. Era o duplipensar em pessoa, mas já sabia lidar com isso, embora não quisesse ferir ninguém de morte (ou de amor!). Mas isto era incrível: sempre que voltava a preencher agendas, Solidão aparecia, como aquela mulher ciumenta que não deixa o marido pançudo meter o migué do jogo de futebol com os amigos (pretexto pra encher a cara de cachaça, claro. Não que eu achasse isso errado).

Parecia haver algo errado com ele, tanto que procurara ajuda de profissionais para exterminar com Solidão — aquela companhia, por horas, ingrata (para os outros, na verdade). Embora não houvesse quem melhor compreendesse seus mais profundos devaneios em forma de templo de si mesmo, onde cultuava algumas divindades como sua mente e seu amor próprio, traduzido por alguns como "egoísmo". Era tudo ele; tudo dentro dele e tudo para ele. Sem subterfúgios, nada de máscaras.

Dizia haver se curado, até conseguiu manter conversas vagas por mais de duas semanas — temos um milagre! Agora, Solidão era amante bandida, igualzinha àquelas moças de novela que amam ardentemente o homem casado. E, em forma de segunda mulher, era mais perigosa. Ele tentava resistir a ela, mas não conseguia; era tal qual o uísque do poeta amargurado pela vagueza da vida, por seu pesar inexorável, só findado com a morte.

Num desses sábados pulsantes, eis que ele ficara em casa — sozinho, como de praxe — tendo apenas, e novamente, Solidão como companhia.

Ela nunca o deixou.
E foram felizes,
mesmo sendo escravo de si mesmo.