Avião B-26

O Operário de star

O cigarro apagou. O uísque, demasiado antigo, secou. Havia chegado ao fim.
Desde criança, no centro da capital pernambucana, viu-se deslumbrado com a possibilidade de frequentar, mesmo que de forma artificial, os céus (da região e do mundo). Ouviu passar na rua o anúncio de um parque — algo como vira nos filmes norte-americanos vez por outra — e, empolgado que era, pediu a mãe tantos tostões; seria sua primeira experiência sem os pés no chão.

Foi em direção à praça, na Ilha do Leite, onde morava, animado pela adrenalina que já lhe tomava conta. Ao sentar na plataforma de execução do brinquedo, sentiu que aquilo era pra ele: resolveu se tornar operário de manutenção do "star" (nome do brinquedo). Começou: giraram, giraram, giraram e, um minuto depois, cessou a brincadeira que o fascinara por dias. Nada mais o interessava.

E foi assim: dos nove aos treze, já contava a todos os amigos do bairro com quem jogava futebol provinciano o que seria: "operário de star". Queria fazer com que a sensação que sentiu — a de descolar-se da realidade, o desafio à gravidade — fosse multiplicada. Era como se, para ele, a vida dependesse disso para lograr significado.

Eis que um dia, aos catorze, quando estava voltando para casa, avistou um cartaz que lhe dizia: "Venha ser Oficial da Força Aérea Brasileira", ilustrado com um avião B-26, bombardeiro e utilizado em operações de busca e resgate utilizado na Segunda Grande Guerra. Não era o que ele queria, obviamente, afinal, já havia estreitado relações com o star. Mas chamara atenção. Desde que se entendia por gente, observava, com certa timidez e distância, a trajetória dos aviões que rompiam o espaço aéreo da Capital do Nordeste.

O concurso, marcado para idos de agosto, constava de provas de Português e de Matemática. Aparentemente, parecia-lhe fácil. Ora, cursava o primeiro ano ginasial e a prova abarcava conteúdos até a oitava série. "Quem sabe eu possa ser os dois: piloto e operário de star", pensou quando estava se inscrevendo no concurso.

Como era um dos melhores alunos de sua escola, ainda que muito mais por dom do que por esforço (entenda: não o era, de fato), resolveu que passaria na prova sem estudar. E foi o que aconteceu. Quando abriu o caderno de prova, na sala com mais cinquenta jovens que aspiravam ao mesmo cargo que ele, viu-se encurralado; não contava com o teor irresoluto das questões de matemática. Era muito mais do que aprendera em todos os anos da combalida educação básica recifense.

Com a sorte, sempre fora afeito ao português, matéria que lhe inspirava. Tobias Barreto, filósofo e jurista falecido em manguetown, apesar de sergipano de nascença, servia-lhe de inspiração. Com Tobias, aprendeu a ser bom moço. E, olha que coincidência: o poema da prova era dele. E as questões, quase em absoluto, eram sobre métrica, algo que estudara duas semanas atrás. Resolveu a primeira questão a qual, do poema "Beija-flor", pedia para identificar o número de sílabas poéticas do seguinte verso: "Era uma moça franzina". Sabia que deveria contar até a última sílaba tônica e o fez. Perdeu certo tempo na leitura do poema. Tobias o fascinava.

Terminada a prova, voltou para casa confiante, ainda que a prova de matemática não tenha sido das melhores. Mas estava contente; achava ser suficiente para ser operário de star.

Passaram-se, então, três meses. Era novembro, mês de aniversário. Dia 11, seu dia. Sua mãe, alegre de maneira poucas vezes vista, já que era alguém totalmente dedicada à criação dos, pasmem, dezesseis filhos e filhas, entregou-lhe a carta que provinha do Departamento de Ensino da Aeronáutica. Os dizeres espantaram o jovem futuro operário de star (ou, talvez, quem sabe, piloto): "Jovem, você logrou êxito no concurso de admissão à Escola Preparatória de Cadetes-do-Ar do ano de 1957. Sinta-se convidado a participar de nossa instituição, cujo objetivo é zelar pela defesa aérea do país. Você deve se apresentar na cidade mineira de Barbacena, sede da escola, até o dia 19 de janeiro, para início das atividades militares."

Chorou. Não de felicidade, mas de medo. Nunca havia chegado sequer a passar de Jaboatão dos Guararapes, cidade vizinha ao Recife. Resolveu encarar. Dias de ônibus e lá estava. O frio da serra da mantiqueira o surpreendeu. Clima gélido e seco. Agressivo. Não fora fácil o período de adaptação militar, pois, digamos, era um pouco arredio, indisciplinado. Mas seu fascínio por aviões, pelos céus, sucumbiu toda e qualquer vontade de bater em retirada pra casa. O operário de star agora seria piloto.

Dois anos na Escola de Barbacena, com direito a muitas fugas pela linha do barulhento trem que passava religiosamente pela frente da fachada imperiosa da instituição, levando algo como minérios de alguma grande companhia nacional.

Mais três anos de Rio de Janeiro, na Escola de Aeronáutica, onde realizou seu primeiro voo solo. Eram só ele e a máquina. Eventualmente, Deus, mesmo que não fosse dos mais apegados à religião. Para ele, a cura da alma era ser como era.

Fora um dos 23, entre os 223 que entraram na turma 58 de Barbacena, a se tornar piloto. Piloto militar, como se congratulava aos quatro cantos. Remetido para a aviação de caça, foi desligado por problemas comportamentais, mas nada o impediu. Sua paixão pelos céus só aumentava. E a aviação de helicóptero, recém-criada, lhe fora destino. À busca e resgate, mais precisamente, dedicou sua vida profissional. O resgate que realizou na amazônia marca hoje o dia desta aviação. Contava-o com brilho nos olhos daquela mesma criança que confessava aos amigos a pretensão de ser operário de star.

Soube aproveitar sua vida pessoal. Sempre fora boêmio e galanteador. Casou-se com uma paulista da cidade de Igarapava. Mulher de fibra, mãe de quatro filhas, todas bem criadas.

Das suas maiores alegrias, fora ver seu neto trilhando seus passos. Infelizmente, para ele, a trajetória rompera-se. Mas ainda o amava, como amou aos outros sete netos. A espada, símbolo do oficial de aeronáutica, ficou à poeira. Pouco importava.

Viveu seus últimos anos ao lado de uma fiel companheira, mulher admirável, de coração mais puro que já vi.

Mas o tempo é implacável. Ele alardeia o fim de um ciclo.
Soube aproveitar a vida. Cuidou de si. E, talvez, para mim, esta seja sua maior lição.

Rest in peace, meu avô.

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