paixão por prédios e medo de vida não vivida

De pequeno, guardo uma paixão antiga. Posso me lembrar, ainda que com certa dificuldade, do primeiro apartamento em que vivi — imagino que no Recife, cidade de onde eu escrevo neste momento. Estava na casa de vovó, tinha algo entre dois e três anos e havia descido para pintar o muro da parede que envolvia o espaço do parquinho. Aquilo me fascinava: olhar para cima e ver aquele gigante de alvenaria que me passava segurança, unidade.

Como criança, sentia-me seguro. Como adulto, observo-os como quem observa arte. Sinto-me um pouco crítico mesmo não tendo qualquer base teórica para sê-lo. E, definitivamente, não me importo; faço do meu senso a crítica mais profunda.
Mas o diálogo sobre prédios é somente um prelúdio para o que quero, em verdade, contar.

Num dia desses, quando redescobri o centro do Recife, ao lado de uma companhia bacana. Todos aqueles prédios — imagino que já bastante antigos — me tinham muito a dizer. A cada janela, uma perspectiva; a cada apartamento, algumas novas vidas; a cada ferrugem na janela, uma chuva que passou. História!

Lembrei as histórias de um amigo que já morou por ali: ele viveu (e se encontrou).
Ando divagando sobre tudo, a ponto de me perder na névoa densa que são meus pensamentos. Não consigo viver sem sofrer por ansiedade, insegurança. Eu, que sempre fui alguém sozinho, já preciso de afeto. Mas não só disso, porque isso é pouco. Preciso é de vida vivida, de amor em intensidade, de amizades aconchegantes, de pessoas novas, de lugares novos. E objetivos não-convencionais, os que estão fora do meu alcance atual.

A rotina me engole — e sempre foi assim — dia sim, noutro dia também. Ela é voraz; puxa-te pra baixo; quer te fazer depender. E dependência é sinônimo de vida não vivida. Destruidora de possibilidades, de sensações novas, de novos amores e novos amigos.
Meu maior medo é cair nesse marasmo algum dia. Não que eu já não esteja com lama até o pescoço.

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