Garfield e a crise mental no capitalismo

Lucas Rodrigues
Sep 3, 2018 · 3 min read

“odeio a segunda-feira.” um clássico bordão de Garfield, um dos personagens mais famosos do universo das tirinhas. Criado pelo cartunista Jim Davis, Garfield carrega um ódio pueril pela segunda-feira, já que é sempre na segunda-feira que sua dieta começa ou que ele acaba se dando mal em algum fatídico acidente. Mas essa relação do ser humano com a segunda-feira no mundo contemporâneo transcende esse tom cômico do cartoon, indo bem além, o nosso ódio pela segunda-feira é um sintoma do modo de produção capitalista.

A segunda-feira marca o começo de uma rotina cruel e impiedosa, traça o caminho da ansiedade, corrói a psique de todo indivíduo que se encontra preso nesta teia do capital. O trabalho alienado que devasta este Ser, o aniquila em uma máquina, arranca este individuo de sua vida social e atribui apenas um valor material à sua vida, um Homem mercadoria.

O Brasil carrega o título de país mais ansioso do mundo, além de ser o país com o maior número de deprimidos da américa latina, o Rivotril já é o sétimo remédio mais vendido no Brasil, nos drogamos para aguentar até a chegada do fim de semana. Pessoas devastadas pela razão econômica, jornadas duplas de trabalho, homens e mulheres que saem de casa de manhã e só voltam de madrugada, estressados com a rotina desumana e sem paciência para o convívio familiar. Não é de se estranhar o aumento da depressão entre jovens, já que este se encontra em um mundo onde todos estão escravizados pela lógica do mercado. Há uma passagem no vol1 do “O Capital”, que pode vir a sintetizar essa relação familiar moderna, Marx diz: Uma relação social definida, estabelecida entre os homens, assume a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas.

Ao analisar a questão da ansiedade e depressão, outro fator que chamou bastante a minha atenção, foi a diferença da taxa entre homens e mulheres. As mulheres são as que mais sofrem destes distúrbios. Vivemos em uma sociedade extremamente machista, onde as mulheres não se sentem seguras ao andar na rua e nem em sua própria casa. Onde elas muitas vezes sofrem da jornada dupla de trabalho, sofrem assedio em seu ambiente de trabalho, são descriminadas por razão de seu gênero e quando chegam em casa se encontram na jornada tripla, tendo que cuidar da casa e das crianças.

Todos esses problemas causados por uma sociedade de consumo, que nos transforma em uma máquina na linha de produção, que nos esvazia de toda essência, colocando o lucro em um altar para que seja louvado. Uma multidão de pessoas solitárias e vazias, tentando preencher este vazio com consumo, um consumo material, não apenas material no sentido de mercadorias, mas material em relações sociais. Materializamos nossas amizades, nossos amores, nossas tristezas, nós nos materializamos. Tentamos nos vender em nossas redes sociais, uma exposição, como em uma vitrine esperando que alguém nos consuma, uma coisificação da vida.

A publicidade nos mostra todo dia como devemos agir, como devemos ser, assistimos nos filmes, escutamos nas músicas, admiramos as pessoas bem-sucedidas que seguimos no Instagram. Representamos nossas frustrações pessoais em uma busca por esse “sucesso”. Consumimos pois somos levados a crer que assim iremos obter a felicidade, porem quanto mais nós consumimos, mais esse vazio nos consome, a indústria precisa criar esse vazio, tornando nossos smartphones supérfluos, para criar a necessidade de comprar outro smartphone todo ano, criando em cada um de nós um sentimento de insatisfação pessoal, pois no fim, nós nos tornamos supérfluos. O ódio à segunda-feira é uma ótima alegoria para expressar o cansaço em que nos encontramos, o cansaço de uma vida cuja a única finalidade é comprar, consumir e trabalhar para comprar e consumir.

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