Então, eu não caibo mais aqui.
Escrevo isso enquanto tinha que estar fazendo uma lista de matemática básica pro ENEM. Hoje é dia 6 de novembro de 2019, 15:47. Diferente de ontem que eu escrevi no banheiro ou escondido na minha cama de madrugada, estou na sala de casa. Sentado transversalmente no sofá com duas almofadas nas costas. Estou até que bem confortável, mesmo indo escrever sobre um assunto um tanto quando desconfortável pra mim.
Vou falar sobre as minhas amizades tóxicas. Fazer talvez uma linha cronológica disso, não sei, apenas tentar. Vou começar deixando bem claro que quando eu digo AMIZADES TÓXICAS eu estou separando as pessoas do relacionamento que havia entre nós. Pode sim ocorrer de uma pessoa não ser tóxica mas a relação entre nós ser, vou demonstrar isso um pouco na minha história aí pra frente. Também parto do pressuposto de que todos (eu me incluo nisso) somos o puro chernobyl em algum momento da nossa vida. Ninguém esta impune disso.
Here we go… Dois textos atrás eu falei um pouco da minha família e como somos criados nela com o intuito de se destacar e chamar atenção, o problema disso em amizades é que esse tipo de relacionamento demanda uma atenção que não se baseia em elogios e premiações. Claro que isso acontece as vezes, mas não é o ponto principal de dois ou mais amigos. Eu não sei definir pra colocar aqui o que deveria ser essa relação, então deixo a cargo do seu consciente subjetivo lidar com isso. Você que lute.
Na inocência da infância, ninguém procura outras pessoas por interesse ou desespero igual fazemos quando somos adultos. As crianças funcionam de uma forma muito mais simples: “oi, quer ser meu amigo” e, provavelmente, a resposta da outra pessoa vai ser “sim”. Duas crianças não entendem ainda o que é procurar pessoas diferentes delas, pra que procurar pessoas renomadas ou, até mesmo, descriminar outras pessoas. A criança tem uma pureza pra fazer amizades por ser um laço tão simples e superficial pra elas. Porém, conforme as pessoas vão crescendo, aparecem uns demônios que são conhecidos por responsabilidades. Elas começam a moldar o caráter das pessoas, “Você é responsável por aquilo que cativas” não se encaixa nesse contexto, estou falando algo mais para “Você é aquilo que as suas responsabilidades assumidas fazem de você”. Esse molde de caráter muda seus critérios, começamos a entender um certo peso de necessidade nas amizades, um certo medo de ficar sozinho e nisso paramos de simplesmente perguntar se “Você quer ser meu amigo” e passamos pra “Posso sentar do seu lado ?”, “O seu cabelo é bonito”, “Te vi sozinha ai no canto”, “Prazer, esse é o meu nome”.
São inúmeros diálogos que podem começar uma amizade, mas tudo se tornou complexo demais pra um simples vamos brincar.
Sei que você, leitor, deve estar se perguntando: meu amigo que que isso tem a ver com o tema proposto ? Dessa vez a resposta não vai ser sei lá, eu realmente acho que sei do que to falando. Crianças são tão cheias de si que não precisam se contentar com outros ou procurar alguma coisa nos outros. É ideia do “Sou boa em outras coisas” (fica ai a recomendação de um vídeo da jout jout: PARA LACRAR COMO UMA MENINA DE 6 ANOS). As responsabilidades tiram uma parte nossa, ao mesmo tempo que nos molda pelo que sobrou, é louco de pensar e escrever dessa forma, mas é isso. Conforme crescemos, nossas amizades servem apenas para preencher vazios que foram tirados de nós. Seguindo essa lógica todas as amizades são tóxicas, né ? Nem tanto.
Digredi um pouco, vou voltar pra história principal.
Até meados do meu 5° ano eu fazia amizades na leveza do vamos ser amigos e isso nunca foi problema pra mim, amava fazer amigos, tinha vários. Porém depois daí eu comecei a me perder nisso. Entrar no ensino fundamental 2 me trouxe um vazio nunca antes sentido, até hoje não sei falar o que foi aquilo, fica ai de novo pra você imaginar o que aconteceu. Aqui nós incentivamos a imaginação. Eu comecei a trocar meu ciclo de amigos e nunca conseguia ficar muito tempo no mesmo, eu tinha uma vontade de estar sempre envolto de pessoas diferentes, que fossem me dar um pouco de atenção de pouco a pouco e, quando acabasse, eu iria pra próxima (eu era tipo um parasita de atenção, que horror). Quando cheguei no 7° ano tive o desprazer de conhecer a professora que faria os maiores infernos na minha vida pelos próximos 3 anos.
Essa mulher sempre dava atenção para os bagunceiros, coisa que eu não era, então comecei a admira-los. Eram pessoas festivas, estavam sempre saindo, em festas, bebendo (o adolescente que se acha maneiro por sair pra beber com 14 anos de idade) e eu percebia que todos da escola comentavam sobre eles, todos queriam ser eles. Mas eles eram maldosos demais. Muitos deles fizeram bullying comigo (história pra outro dia), mas mesmo assim eu só queria ser amigo deles.
Aqui começamos a entender o título: eu comecei a me rebaixar, me diminuir (digo isso sobre autoestima, inteligencia, coisas que eu fazia, TUDO) pra caber em lugares que não foram feitos pra mim. E daí que eu entendi o que era relações tóxicas. Eu comecei a me sentir mal por ser quem eu era quando estava com os meus amigos (e antes que alguém problematize “ah eles não eram os seus amigos”, sim, eles eram, só que eu não era quem eu devia ser). Por tudo que era ruim, algo de bom aconteceu: eu não fui o único a ter esse caminho de busca pela atenção, uma amiga minha que me acompanhava desde o 5° também se moldou para andar com essa galera.

Mas como eu sempre transitava entre grupos, eu tinha meus momentos de alívio quando eu juntava com pessoas que eram realmente compatíveis comigo. Era sempre o ponto auge do meu dia.
Por mais que isso tudo tenha começado no ensino fundamental, se arrastou por boa parte da minha vida e durou até o ensino médio.
UMA PEQUENA PAUSA: Eu postei no meu status uma foto escrito “Não se culpe por acreditar em alguém. Você acreditou porque nunca teria feito o que eles fizeram com você, porque você é diferente e só por isso, você já ganhou” e um amigo meu puxou assunto sobre isso e estamos conversando sobre tudo o que eu disse ate aqui e sobre as pessoas que eu vou falar ainda adiante. 17:34 agora, parei pra almoçar 4 e pouca da tarde kk.
Voltando ao assunto, chegando no ensino médio eu tinha colocado duas coisas na minha cabeça, a primeira era que eu iria tratar todas as pessoas como eu gostaria de ser tratado (por causa do bullying e tals) e a segunda é que eu seria eu mesmo por conta de tudo que eu tinha passado e me submetido nos últimos 4 anos. Spoiler: um dos dois deu errado, mas eu sempre tentei ser gentil com todos.
Em certo ponto eu realmente fui eu mesmo, comecei a me procurar na libertação sexual de ser gay e tudo que eu não fazia na outra escola por ser um bando de adolescente com a cabeça conservadora, comecei a me soltar mais e fazer brincadeiras, danças, usar algumas roupas, falar algumas gírias. Tudo coisa que antes eu não fazia por querer estar no padrão dos outros, porém, sem perceber, eu comecei a fazer a mesma coisa nessa escola nova. Vi um grupinho que era IDÊNTICO ao da outra escola e comecei a me aproximar deles, mas eu jurava de pé junto que dessa vez seria diferente. Não foi, mas foi.
Essa parte da história só vai dar pra ser entendida por quem viveu essa época comigo, por quem já ouviu essa tour ou, se você não conhece, um dia quem sabe eu conto. Meu 1° ano do ensino médio foi um surto, esse foi o resumo.
Me vi apegado emocionalmente pelas pessoas desse grupo que falavam que eram meus amigos, eles sempre me afirmaram isso, mas eu sempre cai naquele discurso de “faz isso, todo mundo tá fazendo” que nossos pais falam pra não cair e a gente, jovens de 14/15 anos, cai por que queremos ser socialmente aceitos de alguma forma. Eu beijei uma garota já sendo assumidamente gay por pura pressão. Mas enquanto esse âmbito social da minha vida parecia estar “tranquilo” tinha outro desmoronando: meu acadêmico. Um terror, xoxo, capenga, anêmico. Eu resolvi dar um foco maior nisso, por que eu tinha que passar de ano, eu era inteligentíssimo fazia anos, eu não concebia a ideia de reprovar, com isso eu dei uma afastada de todos (os que me faziam bem ou os que não faziam) pra dar um foco nos meus estudos (esses cujo foquei mais do que devia kk).
Me isolar socialmente nunca foi bom, mas eu sempre faço em momentos ruins para mim e dessa vez não ia ser diferente. Eu me isolei, me entendi e resolvi voltar. Vieram as férias (aclamadíssimas, puts) e passei 3 meses sem ver nenhuma alma viva daquela escola.
Antes de passar pra próxima fase da história quero fazer uma pequena linha do tempo dos grupinhos que eu participei. Em 2017 eu comecei o ano na Formation e ela variou na quantidade de integrantes durante o ano, começamos com 5, nosso máximo foi 8 mas acabaram o ano em 6 (eu fui um dos que saiu). Entrei para os Los Biscoiteiros, começamos em 4 e, hoje, somos 7. Depois participei de um grupinho tão ruim que nem colocamos nome (é nesse grupo que essa história toda se apoia). Depois veio a Surtation (agora é “A” Surtation) que começou com 3 e hoje somos 4, mesmo um pouco afastados e inativos. E, por último, veio o Info News, meu grupão da turma que eu amo e hoje somos 2.
Vou apelidar o grupinho de Britneys, por conta do teor tóxico. Muitos passaram por esse grupo, mas ninguém conseguia ficar muito tempo. É muito ruim estar nele, mas você só entende isso quando sai. Tem alguns integrantes fixos (4, pra ser mais específico) e eu sempre fiz questão de ser amigos dos garotos por eles serem almejados e populares, então eu pensava que estar perto deles ia me fazer ser o que as pessoas veem de incrível neles. Estava profundamente errado, eu só ficava no meio de dois héteros que conseguem ser bem homofóbicos na maior parte do tempo, enquanto eu passava pano por eles serem o que eu queria ser (não hétero, mas populares) e as garotas desse grupo só serviam de falar mal dos outros. TODOS OS DIAS, O DIA INTEIRO. Elas falam mal profissionalmente, e claro que eu peguei esse hábito durante um tempo já que eu andava com eles.
O único problema pra eles é que eu tinha me isolado e consegui entender que algumas coisas minhas eu não devo mudar por que os outros estão incomodados. Quem se incomoda com alguns detalhes meus são esses outros, existem pessoas que gostam disso no mundo. Entender isso e praticar isso começou a desgastar minha relação com a deles. Um ego inflado que não precisa ser elogiado, uma autoestima exuberante que exalava confiança (as vezes eu podia confundir com a arrogância, eu admito), uma vontade de ir bem na escola e passar na faculdade dos sonhos maior que o mundo. Esse era eu em 2018, eu era implacável. Passava dias estudando conscientemente sem ir além dos meus limites. Eu me tornei uma máquina, fiz coisas que nem imaginava que conseguia. Comecei a me entender, porém isso incomoda alguns. Muito.
O fato de eu passar 7 horas e meia em sala de aula, 2 horas e meia fora de sala estudando, 1 hora a noite relaxando e o que sobrava a noite dormindo me fez uma MAQUINA acadêmica. Comecei a procurar tópicos além do ensino médio, engoli livros de filosofia moderna, fiquei meu recesso de julho aprendendo Cálculo 1. Eu não prestava atenção mais para as provas que estavam por vir, eu queria saber o que Thomas Kuhn falava sobre os paradigmas do século XVII.
Eu gostava disso, não nego. Tenho saudades.
Foi ali que as coisas começaram a se mostrar tão tóxicas quanto eram. Quando eu gostei de ser eu, percebi que, as vezes, o simples fato de se amar num meio no qual a dúvida e o depreciamento é normal, se torna um ato revolucionário. E a revolução começou internamente. Em mim.
Uma das pessoas começou a me dizer várias vezes que eu devia mudar, que eu devia ser menos quem eu era, mas vinha sempre com um discurso “Eu acho que existem coisas que tu pode mudar, que deve mudar. Porém, não vou te falar o que é, acho que tem que descobrir sozinho, não cabe a mim falar”, hoje eu entendo o quão problemático uma pessoa falar isso para outra é, mas naquela época sempre achei que estava recebendo a maior dica do mundo que ia fazer com que todos me amassem. Problemático né ? Demorei demais pra perceber. Dali pra frente eu comecei a fazer o que me pediam, ser menos. Eu comecei, de novo, a mudar quem eu era por que as pessoas estavam pedindo, mas eu me sentia tão bem sendo eu que as vezes eu dava uma fugida do personagem, mas sempre era repreendido. Sempre tinha alguém chateado comigo, bolado comigo, brigado comigo porém eu só me importava se fosse uma pessoa de dentro das Britneys, enquanto eu tava no meio delas falando mal dozotro, tudo estava bem.
Até que eu virei ozotro. Comecei a demonstrar demais traços da minha personalidade mas eu já deixei claro que isso incomodava. Não me importava mais e comecei a ser eu integralmente, até que um dia tudo começou a mudar, conversando numa sala entre 4 pessoas levei um grito “Ai, cala a boca, não aguento mais você”……… EU NÃO SOUBE REAGIR. Peguei minha mochila, recolhi todos os demônios que aquela frase colocou nos meus ombros e fui pra casa enxugando as lágrimas a cada 5 passos. Isso foi só o começo, a gente ficava até de noite estudando juntos, você era a minha companhia de sempre, me chamava de irmão, éramos nós. Não durou muito mais. Parecíamos estranhos sentados de frente um pro outro, você não me reconhecia, por mais que falasse que me conhecesse e eu olhava pra você e não te reconhecia. Isso aconteceu em meados de setembro e tentamos fazer dar certo uma coisa que ninguém mais queria até novembro. Dois idiotas.
Seu namoro começou, mudou seu círculo de amigos e eu não estava nele. Percebia cada vez mais o quanto eu me tornei dependente emocional de você, pra ser descartado. Hoje nem me importo, mas tive que crescer muito pra isso. Novembro foi um ponto de mudança, na última semana de aula recebemos as notas. Tirei 9,5 na matéria que eu tanto estudei. Estudei pra tirar 10, não 9,5 (Me desculpa seguidor mas se pra você 9,5 e 10 é a mesma coisa, esta casa não é democrática e não te quer aqui). Eu reclamei sobre e fui atacado, reconheço hoje meus erros em alguns momentos, mas não acho que justifique alguém falar que eu tenho que me dar mal na vida, mas pra você sim, que riu com isso tudo.
Passei um mês inteiro me lamentando e entrando numa espiral de me odiar em tudo. Eu já não era mais eu, não me encontrava mais aqui. Comecei a odiar tudo que eu era, fazia ou representava. Hoje eu percebo que eu era emocionalmente dependente de alguém que não podia retribuir na mesma intensidade, e não te culpo nem a mim. Sentimentos não se escolhem, acontecem. Mas naqueles dias que eu não entendia que eu te tornei parte de mim e simplesmente te perdi, foi difícil.
Acabei de me ligar que não queria transformar isso em você, mas falhei.
Vou pular todo o resto da história então e partir pra minhas considerações finais logo.
Consigo ver que não existem pessoas tóxicas, mas sim relações. Duas pessoas não precisam ser amigas só por que tem uma história, só por que se consideram muito, ou qualquer “só por que” que eu consiga achar. Cada pessoa tem um sentimento diferente, cada um reage diferente as adversidades que a vida propõe, basta a cada um saber respeitar o que o outro estabelece em seus limites. Quando uma relação (amorosa, afetuosa, amigável, qualquer uma) se torna tóxica é por que em algum ponto as duas pessoas não se encaixam e nem tentam. E quando eu digo não tentam, eu quero dizer que não ignoram, não amam, não reconhecem, não respeitam. Eu senti na minha pele muitas vezes durante a vida. Você não foi a primeira e já consigo perceber que não vai ser a última.
Quero nessa parte dar ressalva as pessoas que estão comigo na minha vida hoje. Eu entendi que amizades tem sim função, disse isso mais cedo nesse texto: procuramos pela falta, necessidade e interesse. Não consigo negar isso. Mas eu não procurei vocês, fui encontrado por vocês. Eu realmente estava em falta, me faltavam amigos próximos fisicamente, me faltava amor próprio, me faltavam amigos emocionalmente. Encontrar cada um que me envolve esse ano me fez achar o melhor de mim. Clichê né ? Pena que é verdade. Me sinto apoiado, amado, confiante, cheio de mim e de outros. Graças a vocês.
Mudei todo o meu círculo de amigos pra perceber que não existem pessoas tóxicas e sim relações tóxicas. Se você não se sente bem, falta você mesmo.
Tentei me encaixar em lugares que eram pequenos demais pra quem eu sou, não que vocês sejam pequenos. Mas é que meu grande é relativo demais pra grandeza de vocês. Não existe um lado tóxico, os dois foram, enquanto só não entendiamos que crescemos demais uns para os outros. Foi bom enquanto durou, foi péssimo enquanto terminou. Hoje eu quero mais é que vocês sumam da minha vida.
Poderia falar bem mais, entretanto acho que já me entendi.
Ser tóxico é escolher muito mais pela potência do que pela falta.
Emocionalmente, eu.
07/11/2019 - 00:52am
Porque é claro que estou ficando cada vez maior, eu sei que você visualiza a minha figura. Mas quando eu comecei a me afogar, eu não sabia que ele era a âncora.
