Jesus Cristo, Sócrates e Shakespeare
A retomada do cânone e a agonia da nossa civilização

Ao prestar homenagem à universalidade do legado ocidental, precisamos nos debruçar sobre os clássicos que consubstanciam os nossos valores e todo o arcabouço de imagens, símbolos e narrativas mito-poéticas dentre as quais a intuição grega acerca do poder transcendente, bem como o panteão tragicômico de William Shakespeare figuram como uma espécie de monumento civilizatório basilar.
Em grandes linhas, o pensamento grego não se caracterizou somente pela administração da pólis. O gênio de Atenas procurou, antes de tudo, observar a constituição da physis, isto é, a natureza em sua totalidade, senão que também houve, por parte de filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles, uma forte tendência para absorver o âmago da estrutura humana.
O dístico milenar se delimitou ao esforço empreendido por ninguém menos que Ésquilo e Sófocles. Enquanto o Prometeu Acorrentado, de Ésquilo, volve os olhos do espectador comum para a dor universal em face da consternação de um semideus condenado, o Rei Édipo, de Sófocles, traz à tona uma série de incidentes cuja origem remonta a uma ofensa contra os desígnios morais do universo.
Olhai e vede, os laços por que estou acorrentado a este íngreme rochedo, onde ficarei de sentinela, bem a meu pesar, pelos tempos a fora!
(Prometeu Acorrentado, Ésquilo)
À luz dessa linha de construção narrativa da antiga Hélade, centrada no concurso entre as leis da comunidade e as leis divinas não escritas, a dramaturgia de William Shakespeare, tal como exposta em Timão de Atenas e Macbeth, adquire consistência na medida em que o destino do último é dado de antemão, ao passo que a sorte do mecenas se esgota numa autocondenação pelo excesso de benevolência. Desse modo, as bruxas estão para as musas, assim como Apemanto está para o Oráculo.

Os séculos que se seguiram puseram o projeto socrático em xeque: a propugnação pela ação coerente com o discurso, o esforço de investigação e o amor à contradição. O Império Romano começou a se consolidar, de fato, a partir de Marco Aurélio, de toda sorte que o êxito cultural se deu com o advento do Cristianismo.
Não foi por acaso que Clemente de Alexandria chegou a afirmar que a filosofia grega abria caminho para o Cristo. 40 anos a.C, Fílon de Alexandria, por sua vez, já tentava explicar o judaísmo nos termos da filosofia grega em A criação do mundo segundo Moisés. [1]
Daí se conclui que o nascimento, a vida, a paixão, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo é o acontecimento central. Uma vez aceito tal pressuposto, não dá para explicar o sentido da história humana apenas e tão somente a partir de especulações filosóficas ou com a morte de Sócrates.
Nota:
[1] É uma importante observação trazida por Olavo de Carvalho, em seu curso História Essencial da Filosofia, onde relembra esses pontos.
