O ímpeto para além da tempestade: Malala e os Europeus (cena única)


Por Lucas Barreto

Existem certos estados de espírito, sob os quais, naturalmente, fugimos do corriqueiro, e buscamos algum retiro silencioso, por assim dizer, onde passamos dar algum pretexto para os nossos sonhos e, sossegados, edificar nossos castelos “kafkianos”.

Nesse estado, deixei-me vagar pelos velhos corredores duma biblioteca fantasmagórica — tal qual Jorge Luis Borges já propugnara, e assim tratei, prontamente, de refugiar-me deste mundo turbulento. Já bem dizia um amigo: “Este é o mais barulhento planeta do Sistema Solar”. Deste modo, estou com ele e não abro — como dizem os tiozões da vida. Por lá, solicitei o auxilio de um bibliotecário que — e este mais se assemelhava com o tal“porteiro” aludido numa fábula de Franz Kafka — conduziu-me através de um majestoso portão, e muito parecido, aliás, com aquele pelo qual Don Giovanni atravessara para o quinto dos infernos.

“Se cada castelo é um turbilhão de potenciais narrativas — pensei eu — as portas e janelas cerradas hão de magnetizar-me a carne e todos os ossos.”


Já no corredor havia uma portinha, em cujo ferrolho o funcionário introduzira uma chave. Estava duplamente trancada e, talvez pelo pouco uso, abrira sem dificuldade. Subimos, então, por uma escada estreita e sombria e, atravessando uma segunda porta, alcançamos, por fim, a biblioteca. O lugar parecia adequado para o estudo e intensa concentração. Vez por outra, eu conseguia ouvir cochichos estranhos, como se fossem clamores daqueles que jamais voltarão — pelo menos por hora. Aos poucos, os gritos foram-se desvanecendo, até, por fim, sucumbirem. Continuei, então, a minha andança por entre todas aquelas estantes enormes; os livros eram milhares: enciclopédias, manifestos, escrituras, documentos, sobretudo, é claro, romances diversos.

“Quantas dores de cabeça — refleti — terá causado cada um desses livros, ora largados com tal indiferença; quantos dias de trabalho fatigantes; quantas noites em claro seguidas de ataques do coração, hipocondrias e visões imaginárias sob o efeito da cafeína. E pior, tudo isso para quê?”

“Sinto náuseas só de pensar” — diria Hamlet.


Abri, por acaso, enquanto ponderava inúteis especulações, um pequeno livro. E, para a minha surpresa, o pequeno exemplar pronunciara algo como um cochicho de criança. A princípio, sua voz era finíssima, dentro de pouco tempo, no entanto, tornou-se mais grossa e mais inteligível — a ponto, inclusive, de tornar-se civilizada. Lembrei-me, de imediato, do diálogo de Gulliver com o seu cavalo. Começara, então, o pequeno exemplar, com pequenas invectivas. Falara sobre as injustiças do mundo e, para a minha surpresa, invocara Malala, que ali já dava sua aura esplêndida. E como plano de fundo de toda essa magia brotavam autores da literatura russa. Eis os diálogos:

Devaneios…


Entravam ainda Tolstói ,Tchekhov, Dostoiévski e Viktor

Eu (aproximando-me dos espectros)
Poesia Russa, meus amigos!

Fiódor Dostoiévski
Zdrastvui!

Liev Tolstói
Tens um bom gosto!

Eu
Sim, meus companheiros, o bom e velho Marx certamente diria o seguinte: a cada um, conforme sua necessidade; de cada um, conforme sua capacidade. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém! Que assim seja por séculos e séculos!

Malala Yousafzay
Amém!

Anton Tchekhov (com um cachimbo na boca)
Gostei! És um aprendiz destemido.
É sempre fundamental recitar a poesia russa!

Liev Tolstói
E se houver rum e vodka, a poesia se embevece de sentimentos e súplicas…

Malala Yousafzay
E um raminho de hortelã no copo de rum para compor o ambiente…

Todos (surpresos)
Olha para Malalaaaaaa….!

Eu (aproximando-me)
Precisamente, Malala, tu, definitivamente, és do ramo!

Fiódor Dostoiévski (sentado num canto)
Meia luz, mesa do canto, de onde se possa ver o pôr do sol e o alvorecer.
E se puder, mais tarde, depois de copos de rum e vodka, os bons e velhos romances!

Liev Tolstói
Deixaste, verdadeiramente, o subsolo, companheiro!
Eis a fusão que faz a brevidade da poesia querer o prolongamento da prosa, meu caríssimo Dostoiévski.

Fiódor Dostoiévski (a Tolstói)
Mas que seja breve murmurar de sons quase mudos,
entre lábios calados e um e outro afagar. A literatura, de fato, permeia muito mais a vida dos russos do que a dos brasileiros, por exemplo….

Eu
Bom, o meu querido Brasil, nesse sentido, certamente não é um parâmetro de comparação.

Fiódor Dostoiévski
Por certo, caro amigo, mas a Rússia teve noventa anos de União Soviética, então os programas de incentivo à leitura eram fortíssimos.

Viktor Chklovsky (num tom potente)
Se me permitem, eu mesmo, enquanto vivi em Moscou, conheci pessoas de diversas áreas que, por exemplo, já o haviam lido e sabiam muito bem de quem o senhor se tratava; certa vez, conheci uma engenheira com quem pude discutir uma série de nuances da sua obra, meu caro Dostoiévski.

Eu
Eis a Casa dos Livros de São Petersburgo a livraria européia mais cativante em que já estive!

Liev Tolstói
Em sonhos, sim?

Eu
Sim, claro! Imaginem que eu me sentava no café que ficava no segundo andar e, com ampla e maravilhosa visão para a Avenida Niévski, lia os mais diversos autores que me caíam na mão. Bom, aí entra o caráter brasileirão deste rapaz: ao preço de um simbólico cappuccino — e sem jamais sacar o escorpião do bolso, por assim dizer, — este mero aprendiz que vos provoca ia percorrendo as narrativas e as ideias essenciais duma história fantástica e universal. Enfim, embora, pelo menos a meu ver, a Rússia não seja um arquétipo a ser seguido em certas áreas, eu admiro muito essa questão de incentivo à leitura e o nível cultural desse fantástico país. Um brinde para vós!

Brinde

Eu
Estás muito quieta, Malala. Tens algo a dizer?

Malala Yousafzay (tranquila)
Ah, sim! Eu sou Malala, e empunho uma guerra pela ética de pensar livre dentro dum ethos humano! Livros! Livros! Conteúdos! Conteúdos!

Todos
Nós hoje e sempre somos MALALA!

Malala
Olha, e ainda há quem duvide do direito do Paraíso terreno, hein!

Todos
Nós hoje e sempre somos MALALA!

Eu

E o amor, nobres amigos…? O ímpeto da tempestade clama por seu princípio.

Viktor Chklovsky (que vinha em minha direção)
Precipício você quis dizer… Atentai para a minha fala, companheiros… De galho em galho o macaco envelhece! Os pessimistas dizem não acreditar mais em literaturas; pois eu, por minha parte, não acredito mais no amor. Atiraram contra Malala, uma mulher! Acreditais? Eis aí uma provaconcretíssima de minha propugnação!

Eu
Falas em concretismo, por certo; pois bem, nobre amigo, eis o meu dístico a respeito do concreto: sacos de cimento, seixos, cal, e muito, mas muito saco para aguentar os Campos!

Algum livro de Aleister Crowley sussurrava:

Sinapses contam mais que Sinopses. Hamlet é mais do que represália. Electra não fora Eletrocutada. Dostoiévski é Nietzsche. Pura ficcionalidade conexa. O “Eu Lírico” precisa ser mefistofélico; satânico no sentido poético, claro. Chega dos “mi-mi-mi” nessa porra, tá ligado?


Viktor Chklovsky
Ouvis? Falando em mi-mi-mi…. chamai por Mimi, a alegoria do infortúnio!

Entrava Mimi (personagem da ópera “La Bohème”, de Giacomo Puccini)

Mimi (doente)
Cof! Cof! Cof!

Viktor Chklovsky
Bem se vê que a Boemia não leva a lugar nenhum!

Malala Yousafzay

Coisa mais feia, Viktor…

Viktor Chklovsky
Resmungai ao “Eu-Lírico”. Estou isento desta calamidade. Amor? Isto me provoca risos!

Malala Yousafzay
Tu não sabes? Amar é correr um bom risco…

(Fim)