Historias a tinta

É na alma encantadora das ruas de João do Rio, pioneiro na arte de noticiar o que o corpo às vezes sussurra e não fala, que os relatos de uma São Paulo invisível se inspiram. Entre os prédios, dos mais variados, e as ruas da região central da capital, pessoas escondem suas histórias na pele, no corpo e na alma. Escondem contrariados, já que a falta de abrigo e de zelo as fez assim: combalidas e surradas por uma vida tortuosa — mas que não se apaga.

Talita Cavalcante tem 23 anos. É do signo de peixes, nascida no dia 6 de março. Sentada em um dos vários meios-fios quebrados do centro, contou que ali era onde dormia na maioria das noites. “Durmo onde dá”. A menina, de aparência machucada e abatida, não demorou muito para se sentir à vontade e despejar suas décadas e décadas de assunto — contidas em simbólicos 23 anos, que travestiam a carga que levava no rosto.

A menina começou a usar droga depois que perdeu a mãe. Já sem perspectivas, acabou tendo com referência o padrasto — a quem culpa pela vida que leva; o homem, de quem a menina nunca mais ouviu dizer, usava droga na frente dos filhos. O exemplo pegou. Principalmente em Talita.

“O vício virou coisa de família”

A jovem conta que foi parar na rua na boca dos 13 anos. Mesmo assim, a diferença entre um teto e a rua, segundo ela, não foi muito sentida. A casa em que morava tinha mais ou menos o tamanho do quadrado de cimento que, no momento, fazia às vezes de casa. Além do baque de enfrentar a vida crua com pouca idade, foi violentada pela primeira vez por um policial. Logo no “primeiro ano de rua”, como conta, conheceu o homem em seu estado menos humano.

Em certo momento, contraiu HIV, mas não se lembra exatamente quando ou com quem. A fala tinha tom de indiferença até aquele momento e só ganhou corpo quando finamente começou a falar da filha Katlen Vitória, de 3 anos, nascida na Santa Casa e cujo nome tinha uma razão especial para a mãe.

Talita foi adiante. Contou, além da história da filha, que tinha um sonho de fazer uma tatuagem. O sonho não chegou a se concretizar, já que estampava na pele apenas uma tentativa frustrada.

Eu queria fazer um coração aos 12 anos de idade. Eu não tinha minha filha ainda, catei e fui pra Campinas com uma amiga e ela disse que o marido dela fazia tatuagem. Aí a gente pegou as coisas dele e começou a fazer no meio da rua. Pegamos as agulhas e desenhei o coração. Quando eu fui começar a fazer e vi que pinicava, parei. Doeu demais”.
O coração ficou pelo caminho

A investida frustrada não abalou a menina, que só queria mostrar às amigas que tinha estilo e estava na moda. “Vou voltar toda tatuada, daora”, comentou, rindo. Certamente a falha de se tatuar tenha sido a única vez em que tenha perdido pela falta de coragem.

Quando perguntada se ainda queria terminar o que havia começado, a resposta vinha com um olhar confuso. Primeiro, cuspiu um “não” muito certo de si, alegando que não era a vontade de Deus e dizendo que o corpo vem como deve vir:

Mas e se você tatuasse alguma coisa que fizesse um significado para você?”, perguntei.
“Aí eu escrevia que amor é só de mãe. E o nome da minha filha”, contou, com olhar comprido.

A resposta com ar de dúvida tinha um bocado de sentido. Afinal, a dúvida era todo dia. Dúvida pela vida, pelo amanhã, pelo prato de comida que talvez viesse. Mesmo assim, sorriu ao pensar nas duas pessoas queridas. E perguntou se a matéria iria parar na TV.

Eduardo Braga Chagas Nolasco tem 35 anos. É natural de Mogi das Cruzes, região do Alto Tietê. Diferente de muitas pessoas que usam a rua como casa, o homem de barba bem-feita tinha alegria na fala. “Ah, não tem muito do que falar”, comentou, ainda no começo da conversa.

Há um ano e meio em situação de rua, o pai de dois filhos quase se ausentava de toda o cenário de dificuldade, exorcizando todo o drama de sua situação ao ver, na família, solução a quase tudo. Era sua grande motivação.

O que explicava seu desalento ali, no entanto, não era tão diferente do que havia acometido Talita e tantos outros: a tentação do craque. Eduardo colocou a droga como o problema central. Mas, enquanto estreitava os ombros e esfregava uma mão na outra, contou: “Cara, para falar a verdade para você, isso começou quando eu perdi minha mãe”. A figura da mãe, primeira provedora, metáfora de leito, peito e vida, aparecia nas histórias como um divisor tormentoso de águas de rumo próprio. Difícil chamar de coincidência. Fácil ver o tamanho da perda, ao olhar nos olhos.

Dois anos atrás, pouco antes de largar a casa que tinha, Eduardo contou que perdeu o chão em que botava os pés. A morte da mãe desencadeou um quadro sério de depressão. Em vez de procurar ajuda médica, viu nas drogas a saída mais curta. Se arrepende. “Fui burro”, repetiu com a cabeça baixa e o olhar pendurado.

Com os braços apoiados no chão, já mais solto, nomeou as duas grandes razões pelas quais ainda lutava: Caroline, de um ano, e Luan, de um ano e oito meses. Eram tudo na vida do pai. A salvação de todos os dias. Os nomes, até então, tinham tudo para virar tatuagem em breve. Até o momento, só mostrava orgulhoso o nome de dona Delma e um coração no antebraço, em memória da mãe.

O amor

Perguntei sobre o significado de tatuagem. O homem virou os olhos e respondeu:

Na verdade, nada. Eu tatuei o nome da minha falecida mãe. Para lembrar dela”.
Pensou melhor
Bom, não sei. O nome dela está bem destacado e tal. Eu fiz por ela. Assim lembro sempre. Viu, a gente leva quem a gente ama no coração. É… Se eu pudesse tatuava lá [no coração]”, riu.

Eduardo mora sob o minhocão, com a noiva e os dois filhos pequenos. Além da homenagem à mãe, tem um desenho tribal em preto na panturrilha esquerda, já um pouco apagado por conta do tempo e da tinta improvisada. Pagou 30 reais por ele. Já mais à vontade, lembrou do momento bom que o levou a fazer o desenho, dessa vez sem muitas justificativas.

O motivo do riso
“Eu estava muito bêbado”

Falou, rindo, com a mão no rosto, quase que em uma descarga de vergonha. Pediu um ajuda e andou sem muita pressa.

Erick Josnei Ribeiro tem 33 anos e é mineiro. Nasceu em Passos, interior do estado. Perdeu alguns parentes, inclusive a mãe. De lá, se mudou para Porto Ferreira, cidade paulistana a 227 quilômetros da capital. Na terra em que caiu por acaso, conheceu algumas paixões: Pela tatuagem, pelas drogas e pela liberdade — que lhe foi tirada quando se meteu em umas e acabou preso.

Sofrendo pelas perdas da vida, o uso do craque não demorou a surgir como opção. Pelo sofrimento da família, saiu de casa. “Fui pras caminhada”, conta. O rapaz passou por todo o litoral do Sudeste e conseguiu parar no Paraguai, destino mais longe onde já pisou. Depois de toda a jornada, chegou em São Paulo, de onde não saiu mais. E foi primeiro à Cracolândia.

Em meio à vida na rua, o ex-metalúrgico conheceu Pâmela, a quarta paixão de sua história. Em pouco tempo já dividiam um barracão improvisado, em uma calçada da cidade. Quando contou um pouco mais sobre tudo, Erick revelou que a situação de rua durava oito meses até o relato, já que, infelizmente, era preso recorrentemente.

“Tenho sete passagens. Eu me envolvi com um pessoal dessas caminhada errada aí. Eles roubavam fio de cobre e isso dava muito dinheiro. Eu entrei nessa com eles e acabava sendo preso toda hora”, conta rindo.

Pâmela ficava do lado de fora, apreensiva e cheia de saudade. Às vezes voltava a morar com a mãe, enquanto o namorado ficava alguns meses cumprindo a pena. Durante os momentos de distância, do amor veio a primeira tatuagem.

Nas mãos, leva os nomes dos dois filhos que deixou em Porto Ferreira. Conta, com muito jeito, como são feitas as tatuagens em presídios. Diferente do que se pensa, elas seguem normas de higiene e qualidade, assim como as “muito caras” feitas aqui fora, em suas palavras.

A máquina é puro improviso. Primeiro, uma molinha de caneta bic e um tubinho de cotonete com um pedacinho de algodão. A tinta é feita com prestobarba queimado no isqueiro, com as raspas diluídas em paracetamol. Daí em diante, é aguentar a dor e torcer para que não dê problema. Mas “o cara é profissional”, segundo o homem, que também tem uma letra de Charlie Brown no antebraço e uma tribal na perna. É um adorador da arte como um todo.

A rua e a pele contam histórias.

A tatuagem é a ponte entre essas histórias e as memórias — que tinham tudo para se apagarem, não fosse a natureza definitiva desses riscos vivos feitos nos corpos. A vida de quem mora na rua costuma ser assim: marcante. Marcante no sentido de não deixar esquecer. Marcante no sentido de permanecer estanque. Marcante que verdadeiramente marca.

A tatuagem tem papel importante nessas histórias mal contadas, já que as conta como se não houvesse um botão de mudo; não dá pra silenciar o que o corpo grita com tanta força e pujança. O movimento veio do oriente como arte mexida e remexida e acabou difundido nas ruas, becos e portos como um dos manifestos da contracultura urbana.

Felipe Gomes, 26, é tatuador há cinco anos e não fala de seu trabalho sem falar de arte, rua e manifestação. Concorda em chamar de “cultura de rua” o universo em que a tatuagem surge — e ressurge — e defende que as histórias sejam contadas assim, pela pele, como nos casos de Talita, Eduardo e, talvez, de muitos das mais de 16 mil pessoas em situação de rua no Brasil atualmente, segundo censo do IBGE feito em 2015. Sabe-se lá se tem tatuagem ou não. Mas história sim, com toda certeza. E contá-las tem beleza que não se conta.

O tatuador fala que os desenhos no corpo e a preservação das memórias sempre foram envolvidos por essa forte ligação. “O motoqueiro, o vagabundo e o irresponsável. A cultura sempre foi vista assim e isso a fortaleceu”, encerrou, com poesia pura.

Por fim, peguntei se era possível resumir isso tudo em uma única frase.

Da rua se fez e na rua se manifesta”, contou.

Preciso como agulha.

A fé de Erick em seu verso preferido