Minhas flores preferidas são as que caem no copo

Confesso que gosto dos padrões. Não sei se por simpatizar com a ordem ou por aflorar o lado virginiano, reconheço que tenho uma queda por coisas bem arrumadas e que seguem uma ordenação ou sequência de fatos. A estante imaginária parece sorrir a cada coisa do dia que acontece e se alinha, como num armário de garrafas, levando nossa cabeça a crer infantilmente que vivemos um roteiro de filme. Coisa a coisa, vai fazendo a gente a imaginar que toca no fundo uma trilha sonora, que uma cena inusitada vai virar a esquina e que acharemos um bilhete escrito em papel de carta com letras retas em tinta preta de caneta, como se estivesse escrito. E estaria, caso encontrássemos o bilhete. Devaneios à parte, venho aqui hoje falar da vida e de seus padrões. Gosto dos padrões da vida. Ainda que não sejam cronometrados em uma linha precisa de acontecimentos, nós bem que vivemos cada passo e passamos cada dia num eterno jogo de amarelinha, pisando no próximo pedaço de chão da rua feito coreografia. Eis que nessas de achar padrões e de sentir o cheiro orquestrado da vida ao redor, enquanto almoçava em um boteco em Santa Cecília, de frente pra mulher que me encanta, vi que uma árvore cheia de campanularias já entrava em ritmo de primavera.

A ordem das coisas é bem bonita (Fonte: Thago Photography)

Era domingo preguiçoso de sol e ela, à minha frente e as flores soltas, sobre a cabeça, dariam a mim a prova mais contundente de que não tem nada de místico achar que vivemos sob a tutela de um arranjo de episódios em nossa vida humana. Primeiro, caiu na mesa umas das flores, que além de rapidamente virar decoração de mesa, virou adereço de cabelo ainda que só pra tirar uma foto bacana. Depois, como num frame de filme, mais uma foi caindo, sem se apressar, até pousar dentro do copo dela, como se algum elemento natural quisesse dar um aviso. Ou talvez, caso fosse esse um conto de primeiro encontro, seria a desculpa perfeita pra quebrar o gelo e tirar um sorriso tosco e falar “nossa, que coincidência”. Mas os padrões são caprichosos e não pararam por aí. Depois da chuva de flores direcionada, teria de haver um desfecho digno de curta metragem, que gerasse um impulso desacreditado do público, puxando uma reação incrédula das bocas alheias. Mas ali estávamos só eu, ela e as flores; os três contracenando a mesmo momento no espaço e regidos pela mesma coisa que sei lá eu o que é. A última flor caiu. Sim, exatamente onde deveria cair, sem nada de ocasional ou aleatório, bem no meio do meu copo americano. Era o que eu precisava pra escrever isso mentalmente e só agora juntar o punhado de frases e fazer uma coisa bem fiel ao que foi. Curioso é que hoje, alguns dias depois desse episódio combinado e ensaiado, perguntei “Qual sua flor preferida? ”. Não tive resposta, mas já me adianto, pra não sair do padrão: as minhas são as que caem no copo.