Vamos falar sobre intolerância?

Lucas Berti
Feb 23, 2017 · 3 min read
De cima do muro não se ajuda ninguém (Foto: Portal Café BR)

Se seu negócio for latir argumentos, aproveita o xis em vermelho do canto direito da página. Não tão cobrando. Pra variar, a hora é de tentar falar um pouquinho sobre esse maldito manto de ódio que cobre, principalmente, a bolha de discurso pobre e cruel da rede insocial. Sim, insocial. Se engana quem pensa que essa geração mesquinha e desumanizada é vítima de apolitização, de falta de leitura, de ser desta ou de outra geração. É preciso parar com a cultura da desculpinha. Quem dissemina ódio não é coitado. É mau caráter. E não é de hoje que, para a tristeza geral, a discussão é tão rasa e tão sem participação. Quase ‘agressivo-passiva’. Muito empenho dos agressores e corpo mole de quem sequer levanta a questão. Assim fica difícil.

Em dezembro de 2010, a Folha de SP — sem juízos — divulgou, pela ilustríssima, uma matéria que tratava justamente desse ativismo capenga da galerinha nesses novos canais de mídia. Para entender a metáfora:

Na década de 60, quatro estudantes da Carolina A&T foram vítimas de preconceito e ódio racial no balcão de uma lanchonete na Carolina do Norte. Ao pedir um café, Ezell Blair ouviu que o local não atendia negros. Ainda em pé, já que os quase 70 assentos do balcão eram só para clientes brancos, o jovem ainda foi chamado de ignorante por insistir na causa.

Indignados, os quatro prometeram voltar à porta do restaurante no dia seguinte. Pouco depois, uma multidão já se desenhava em frente, inclusive com representantes da mídia local de Grensboro. No dia seguinte, eram 27 pessoas no grupo dissidente. Passado mais um dia, 80 pessoas da Dudley High já se amotinavam contra o crime de ódio. Em seguida, 300, já com três estudantes brancas entre as manifestantes e membros de Universidades sem segregação. Subiu a 600 no sábado. A correu mais de 80 km dias depois.

Com a entrada de pessoas de outras universidades, o protesto se tornou viral — bem antes do termo digital usado para o boom das replicações. Rompeu as fronteiras do estado da Carolina do Norte, chegando até o conservadorismo do Texas.

Deu de frente ao sistema “já estabelecido” de separação racial. Eles se mexeram. E, com toda certeza, o legado não pretendia formar uma geração de gente que se esconde do problema por não se identificar.

O texto é um resumo do artigo “A revolução não será tuitada”, do autor Malcolm Gladwell. Pois é. Com o perdão do erro histórico, em boa parte do tempo vivemos o racismo norte-americano anos 60 em nossas fiéis contas de Facebook, Twitter e etc. Não se senta ao balcão quem foge ao padrão. E pior: não tem ninguém que se junte pra peitar tudo isso.

E cadê a cultura da desculpinha? Com toda a “facilidade” de se dialogar — já que é possível até pelo celular — , bastava organizar um alerta geral para que essa revolta fosse feita justamente onde perpetua a intolerância: nas redes. Mas é mais fácil lavar as mãos e votar nulo. Culpar o agredido. Mimimizar. Relativizar. Chamar sexismo de papinho furado. Generalizar. Desmerecer. E a lista de verbos é grande.

Então, se você se incomoda com pichação homofóbica em porta de banheiro, se você acha um horror agressão gratuita a transexual, se você, como boa pessoa que é, acha o fim do mundo quando um representante de cargo público incentiva tortura, estupro, difama sem precedentes, faz um favor pra si mesmo: desfaz amizade com o amiguinho que vota pelo conservadorismo violento. Não fica no “pois é, é foda” na mesinha de madeira do bar. Educa na marra, pesquisa e forma opinião, levanta o debate na aula da sua faculdade de grife, rebata o professor. Faça um texto. Denuncia. Se mexa.

Por último: Faça um exercício de reflexão e veja se você realmente faz na prática o que ecoa na sua cabeça. Querer ajudar e não ajudar — com o que pode — é basicamente a mesma coisa. Sinto te informar.

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