Faca de dois gumes
Quem planta ódio vive sob o risco de colhê-lo

Facada em um candidato parecia ser a página que restava para chancelar a ebulição vivida pelo País nos últimos tempos. Emblemático — até natural — que a vítima tenha sido Jair Bolsonaro, a mais proeminente caixa de ressonância do ódio na atualidade.
Não entrarei no mérito dos comentários vindos de políticos, sobretudo presidenciáveis; afinal, nenhum deles se arriscaria a posicionar-se fora do script na reta final da corrida eleitoral. Com efeito, dizer algo polêmico acerca deste fato custaria caro.
Direcionando o olhar às “pessoas comuns”, é possível identificar na internet visões de todos os tipos. Entretanto, considero importante focar em uma delas, que engloba o mesmo pensamento dos políticos acima. Muitos dos que consideram Bolsonaro um personagem nefasto e uma ameaça, apregoam que nada justifica a barbárie, independentemente contra quem seja. A ideia é compreensível e, de um ponto de vista reducionista, correta. Mas (creio que seja consenso) o Brasil não é para amadores. Por isso, prefiro ampliar o raio de todo e qualquer método de avaliação acerca dessas complexidades.
Em algumas situações, esse tipo de discurso, de que as coisas “tem de ser resolvidas com ideias, e não com violência”, abre precedentes para a exacerbação do conceito de liberdade de expressão, tornando admissíveis, por exemplo, nazismo e fascismo, sob a ilusão de que o diálogo é o caminho para a paz. Eu, particularmente, não me vejo por ora capaz de agir violentamente; no entanto, muitos o são, inclusive influenciados pelo próprio Bolsonaro.
No mundo ideal, facada em um candidato ao Planalto é inaceitável e incompreensível. Porém, se esse indivíduo notabiliza-se por destilar o ódio cada vez que abre a boca, incitando uma população confusa a praticar o mesmo, uma hora o feitiço pode se voltar contra o feiticeiro.
Entre as pérolas de Bolsonaro, destaco a última delas: “Vamos fuzilar a petralhada aqui no Acre”, enquanto segurava um tripé de câmera para simular uma arma. Assim, o que é uma facada perto de tiros de metralhadora?
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É inevitável traçar um comparativo com os mais recentes atentados a figuras de outro espectro político: o ataque à caravana de Lula no Paraná, em abril, e o assassinato de Marielle Franco um mês antes, no Rio de Janeiro. Ninguém sequer fora indiciado em relação ao primeiro; já o segundo caso, no que depender daqueles que controlam a engrenagem brasileira, galopa rumo ao esquecimento.
Grupos que espalharam notícias falsas sobre a morte da vereadora, prática abjeta e criminosa para incitar o ódio através de mentiras, hoje agem de forma diferente:

Curiosamente, distorções ocorrem pelo lado bolsonarista, sobrando para quem nada tem a ver com o assunto:

Contudo, segundo Adélio Bispo de Oliveira, o autor da facada, a ação na verdade teve uma ordem divina: “quem mandou foi o Deus aqui em cima” . Malafaia dirá “Fora, Deus”?
As contradições se escancaram justamente por aqueles que cobram “coerência”.
Consequências eleitorais
Uma faca de dois gumes. Bolsonaro será elevado à condição de mártir por seus seguidores, curiosamente em meio ao dia da Independência num país carente de novos heróis. Resta saber qual efeito isso causará à parcela indecisa e às potenciais migrações de voto no eventual segundo turno.
O problema reside em como sustentar o discurso pró-armamento e se desvencilhar da teoria de que ele está colhendo o que plantou. Fosse o porte liberado, ele poderia ter sido morto. É este ponto que a equipe de Geraldo Alckmin deverá explorar nas próximas propagandas, dando sequência à ofensiva contra o militar no longo espaço que desfruta na televisão.
Já Bolsonaro terá de convencer o público de que, com uma arma em mãos, elementos como Adélio Bispo de Oliveira serão executados antes de cometerem crimes.
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Oliveira está detido e tem de sofrer as consequências cabíveis. Agora, mais do que uma barbárie, algo assustador e inadmissível, o acontecimento desta quinta-feira é sintomático.
Este é o Brasil real. Seus cortes são bem mais profundos.
