O que eu, corintiano, ganhei com a eliminação na Libertadores? Uma camisa do Colo-Colo

Lucas Caetano
Sep 1, 2018 · 4 min read

Eis o futebol, belo, apaixonante e imprevisível, estendendo seu poder aos detalhes cotidianos e reduzindo o período de insatisfação pela derrota

Morador de Santos, costumo correr na praia duas vezes por semana. Na noite da última quinta-feira, enquanto seguia ordinariamente o trajeto rumo à costa, avistei um grupo sentado à mesa do quiosque, bebendo cerveja e cantando em alto e bom som.

Ainda à certa distância, não notei nada de especial na confraternização; entretanto, logo ao me aproximar, um deles, vestindo uma camisa do Colo-Colo, olhou para mim e gritou o nome do clube.

Sim, eu trajava o manto do Corinthians; minha digestão do revés já se encontrava em fase final, e, antes que surgissem maiores provocações sobre o resultado, reagi com risadas e um pedido: “Ahora por favor gane del Palmeiras!”.

No dia anterior, eles haviam assistido ao jogo na Arena, e depois aproveitaram para curtir o litoral. O homem que me abordara inicialmente prosseguiu: “¿Vamos a cambiar de camisa?”.

Prontamente, neguei. Hoje apenas duas peças corintianas servem em mim; portanto, não pretendo descartá-las. Ele e seus amigos esboçaram uma insistência, porém sugeri dar sequência ao negócio com outra blusa, alegando que possuo unidades de vários clubes, entre elas Grêmio e Santos.

O rapaz, chamado Franco, se interessou pelo uniforme da equipe gaúcha — pela qual o autor do gol de quarta, Lucas Barrios, conquistou a Libertadores de 2017— e logo batemos o martelo. Antes de enfim iniciar a corrida, como eu estava sem celular, anotei meu número no aparelho do chileno, que me enviou uma mensagem no Whatsapp para eu salvar seu contato assim que chegasse em casa. Marcamos de realizar a troca no mesmo quiosque no fim da tarde de sexta-feira, horário em que eu já estaria liberado do trabalho.

De volta ao lar, procurei a camisa do Grêmio, mas constatei que ela se encontra em péssimo estado. Imediatamente avisei-o e mudei a proposta, anexando ao recado uma foto do item santista; aliás, autografado por alguns dos atletas campeões brasileiros em 2002, presente dado pelo meio-campista Renato, meu vizinho na época.

“Está bien. Cambiado”.

Pela manhã, a título de confirmação, perguntei-o mais uma vez se tudo estava de pé. Positivo. E ao sair do trabalho, enviei outra mensagem, avisando que chegaria ao quiosque dentro de meia hora. A parti dali não obtive resposta, mas mantive o rumo. Ao atracar no local, avistei uma dupla (Miguel e Larry), sendo que Miguel envergava uma camisa do Colo-Colo, e perguntei se Franco estava. Negativo. Contaram-me que ele fora ao Guarujá e voltaria no sábado. Isso significaria o fim da negociação, pois não ficarei em Santos neste final de semana. Além disso, os amigos não possuem contato estrito com Franco; só se conheceram durante a partida em São Paulo. E ambos fariam ainda na sexta-feira a viagem de volta para Viña del Mar logo após nosso encontro.

Todavia, Miguel sentenciou: “Yo cambio!”, convidando-me a acompanhá-los até o hotel em que estavam hospedados para buscar uma blusa guardada em sua mala.

Miguel e Larry exibem as camisas trocadas

Chegando lá, roupas novas na mão, e cada um retomou seu caminho. Fue un placer conocerlos.

Lamento pela não consumação do negócio com Franco, que parecia bastante entusiasmado, embora devesse estar merecidamente muito bem, obrigado, desfrutando seus derradeiros instantes no litoral. Além disso, ele seguiu sem se manifestar no Whatsapp.

A vida é assim, dinâmica e imponderável. Como o futebol. E é impossível não se contagiar ao ver esses torcedores, recentemente acostumados a uma série de fracassos do seu clube na Libertadores, exibirem um largo sorriso pela classificação.

Certas coisas ocorrem em momentos específicos e de formas específicas, a fim de suscitar ou resgatar sentimentos.

Apaixonado por futebol desde sempre, eu relatei a alguns amigos no começo desta semana que tenho acompanhado o esporte com muito menos afinco do que o habitual depois da Copa do Mundo. De fato, já fui bem mais atencioso. Se isso é bom ou ruim, não sei responder, e talvez nunca saberei. Contudo, o inusitado episódio com os chilenos nesses dias que se desenhavam como mais uns pode ter revigorado meu espírito.

Porque, como diz o personagem Pablo Sandoval, interpretado por Guillermo Francella no magnífico filme “O Segredo de Seus Olhos”, “el tipo puede cambiar de todo: de cara, de casa, de familia, de novia, de religión, de dios… pero hay una cosa que no puede cambiar… no puede cambiar de pasión”.

P.S.: Coincidentemente ou não, o assunto da cena é o Racing Club de Alvellaneda, cuja torcida é, sem dúvida, um notável exemplo de paixão.

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