Esquadrão Suicida prova que a DC não aprendeu com os próprios acertos

Dá pra fazer melhor do que isso; tanto que ela até já fez


Esquadrão Suicida, o novo filme da Warner Bros. baseado nos quadrinhos da DC Comics, está nos cinemas. A bilheteria internacional começou competente, ao contrário das críticas antecipadas que o longa recebeu. Germain Lussier, do iO9, disse que Esquadrão é “uma bagunça total”, enquanto Chris Orr, do The Atlantic, descreveu-o como “o pior dos piores”, e Matt Goldberg, do Collider, usou as palavras “podre até o caroço”.

O desânimo com a história dos vilões da DC, que se reúnem para uma missão secreta do governo, sob o comando do cineasta David Ayer, não é unanimidade, porém. Houve algumas críticas mais razoáveis, embora, em termos gerais, a empolgação com a campanha de marketing e os divertidos trailers tenham sido bem maiores do que a empolgação do público com o filme em si.

O caso é que Esquadrão Suicida, marcado pela performance abaixo das expectativas de Batman vs Superman, é, como seu antecessor, um filme ousado. Não só o filme reúne alguns personagens bem desconhecidos do grande público, como Katana, Capitão Bumerangue e El Diablo, como também aposta numa reunião de supervilões, ao invés de super-heróis, para mostrar ao mundo a riqueza do Universo DC dos quadrinhos.

Mas o filme é mesmo uma bagunça, desde o início da produção até o pós-lançamento. O primeiro trailer tinha um clima mais sombrio e tenso, com alguma sugestão de um humor mais cínico. Só que após as críticas ao tom pesado de BvS e o sucesso do bem-humorado Deadpool, surgiram notícias de que a Warner teria ordenado refilmagens com o objetivo de deixar Esquadrão mais divertido — informação negada pelo diretor, mas não descartada pela imprensa.

A partir daí, a campanha de marketing começou a refletir essa mudança de espírito. Os trailers começaram a exibir mais humor e ficaram bem mais coloridos. Tudo isso enquanto Jared Leto, o escolhido para arcar com a responsabilidade de viver o Coringa após a performance inesquecível de Heath Ledger em O Cavaleiro das Trevas (2008), enchia sites, jornais e revistas com entrevistas falando sobre como ele havia mergulhado no seu papel, distribuindo presentes bizarros para os colegas de set e vivendo como o personagem 24 horas por dia.

Ao fim da campanha, os pôsteres já haviam se tornado um festival caótico de pop art emulando páginas de quadrinhos, com direito a onomatopeias e muitas, muitas cores. O filme chegou aos cinemas no início de agosto e, o que se viu, foi uma montagem de cenas apressadas, embaladas por uma trilha sonora popular e pouco original, num filme de pouco mais de duas horas que mais parece um trailer muito longo para uma obra que nunca veremos.

Esteticamente, Esquadrão Suicida tem muito pouco das cores que a campanha de marketing prometia. O filme tem um ritmo e um tom mais ameno, é verdade, mas a direção de arte claramente indica que o plano inicial não era esse. E olhando para o passado recente do diretor David Ayer (veja Corações de Ferro), só fica mais evidente o quanto da versão final de Esquadrão é um recorte selecionado por produtores e montadores por encomenda.

Para completar, a campanha de divulgação do filme após seu lançamento foi marcada por comentários pouco comedidos de Jared Leto, aparentemente frustrado com a forma como a edição teria diminuído a participação do seu Coringa no filme. Ayer, por sua vez, repete aos quatro cantos que ele é o único responsável pela versão do filme que vemos no cinema, a despeito de notícias de que a Warner teria testado diferentes cortes do longa, e de que o que foi escolhido é um dos que foi montado pelos produtores sob encomenda a uma agência de marketing, e não pelo diretor.

Há, de fato, uma inconsistência em Esquadrão Suicida que é difícil ignorar. A montagem e a trilha musical vendem a ideia de um filme animado e descontraído, enquanto o elenco, a direção de arte e a fotografia vendem uma produção bem mais séria e sombria. Debaixo de toda essa bagunça, porém, há alguns poucos acertos, especialmente em relação à caracterização dos personagens.

A Arlequina vivida por Margot Robbie, por exemplo, é o coração do filme, garantindo os melhores momentos dramáticos e também os melhores alívios cômicos. Já o Pistoleiro de Will Smith é muito bem desenvolvido pelo ator e pela trama, como um marginal motivado por interesses próprios e recheado de uma “área cinzenta moral”: nem 100% bonzinho e nem 100% vilão. Um anti-herói bem construído e equilibrado.

O restante do elenco se encaixa bem nos seus respectivos papéis, dando profundidade até aos menos importantes. O destaque, porém, vai para a performance impecável de Viola Davis como Amanda Waller. Se Arlequina é o coração, Amanda é o cérebro do filme. Não só o roteiro coloca a personagem como a perigosa agente do governo que ela é nos gibis, como também a interpretação de Viola é composta por uma presença de cena impressionante.

Não há filme perfeito, todos têm erros e acertos, mas, via de regra, um lado sempre desequilibra o outro. Se no caso de BvS os acertos chamam mais a atenção do que os erros (pelo menos na visão deste que vos fala), o que pesa mais em Esquadrão Suicida são os erros. O filme tinha tudo para ser melhor do que isso: um elenco competente, um diretor talentoso e material original de sobra. O resultado, porém, fica abaixo das expectativas.

“E quais eram essas expectativas?”, você deve se perguntar. Toda a ideia por trás desse universo expandido cinematográfico da DC (ou DCEU, como chamam os entusiastas) é uma resposta ao universo cinematográfico da rival Marvel (MCU, por sua vez). Desde 2008, a editora que virou estúdio de cinema para transportar seus mais antigos heróis à tela grande começou a construir uma franquia interligando diversos títulos, de Homem de Ferro a Capitão América, culminando em filmes como Os Vingadores e Guerra Civil.

Mais antiga do que a Marvel no ramo de quadrinhos de super-heróis, a DC deixou a oportunidade passar para criar sua própria franquia interconectada. É claro que os acionistas começaram a cobrar, com filmes da principal rival batendo recordes de bilheteria: “quando vamos fazer os nossos produtos renderem tanto dinheiro quantos os deles?”, eu os imagino questionando. Afinal, pense como um produtor: quais as chances de filmes estrelando Batman e Superman, dois dos personagens da cultura pop mais reconhecidos ao redor do mundo, renderem menos do que filmes com o Gavião Arqueiro e a Feiticeira Escarlate — personagens que, até pouco tempo atrás, apenas os fãs mais xiitas conheciam?

Acontece que a resposta da Warner (que, caso você não saiba, é dona da DC ) veio um pouco tarde. A Marvel teve anos para estabelecer seu plano, sua franquia, a fórmula de sucesso para os seus filmes e definir toda uma nova visão para o mercado do cinema blockbuster de Hollywood. Esquadrão Suicida, por exemplo, só ganhou sinal verde dos produtores após o sucesso inesperado de Guardiões da Galáxia na Marvel — uma equipe de anti-heróis que superam as diferenças para trabalhar em equipe (soa familiar?) — dois anos antes.

Onde estava a Warner quando a Marvel começou seus projeto de dominação global? Por incrível que pareça, ela estava servindo de inspiração para a rival.

Em 2008, no mesmo ano em que o primeiro filme do Marvel Studios, Homem de Ferro, chegou ao cinemas, a Warner e a DC faziam rios de dinheiro com o sucesso de O Cavaleiro das Trevas, segundo filme do Homem-Morcego com direção de Christopher Nolan. Foi o primeiro filme baseado em quadrinhos da história a bater a marca de US$ 1 bilhão em bilheteria no mundo todo, e apenas o quarto longa-metragem de todos os tempos a fazer o mesmo. Com Nolan, Christian Bale e Heath Ledger, O Cavaleiro das Trevas provava que filmes de super-heróis poderiam ser um dos pilares da indústria de blockbusters de Hollywood.

Mas o que O Cavaleiro das Trevas tinha (e ainda tem) de tão especial? O filme é uma sequência direta de Batman Begins (2005), continuando o arco que recontava o mito do Batman sob uma perspectiva mais realista. A ideia da Warner com o reboot da franquia — que levou quase uma década para sair do papel após o desastre causado por Joel Schumacher em Batman & Robin (1997) — era resgatar a importância de um de seus principais personagens diante do público, com um promissor e talentoso cineasta atrás das câmeras.

Antes de Batman Begins, Chris Nolan havia feito outros dois filmes para a Warner: o jovem clássico Amnésia (2000) e Insônia (2002), um par de suspenses com clima de filme indie que conseguiu boas críticas com seus orçamentos apertados. Após reconquistar o carinho dos fãs em Begins, reintroduzindo o Batman para uma nova audiência, preservando a essência do personagem com o roteiro simples de David Goyer, O Cavaleiro das Trevas veio então para superar os limites.

Enquanto Begins parecia modesto e contido nas suas ambições, O Cavaleiro das Trevas já começava com os dois pés na porta. A sequência de abertura, uma das mais eletrizantes da história do cinema, já nos apresentava de cara o que esperar do personagem mais marcante do filme: o Coringa de Heath Ledger. Sarcástico, imprevisível, ameaçador e cômico, o ator norte-americano (que morreu meses antes do lançamento do filme) deu ao clássico vilão do Batman a performance de sua vida.

É verdade que Jack Nicholson imortalizou o personagem nas mentes dos fãs com seu palhaço desequilibrado em Batman (1989), de Tim Burton. Mas o Coringa de Ledger foi ainda mais ousado. As poses e trejeitos de lunático, o discurso sobre ser um “agente do caos” e sua imposição como adversário intelectual à altura do Batman fizeram do personagem um vilão completo, fiel aos quadrinhos e à proposta daquele universo criado por Nolan e companhia.

E não foi só o Coringa que fez de Cavaleiro das Trevas um sucesso. O roteiro, mesmo cheio de reviravoltas, era coeso e cheio de substância, incluindo embates filosóficos entre o bem e a ordem (representados pelo Batman), o mal caótico (Coringa) e a justiça do acaso (Duas-Caras). A direção de Nolan, perfeccionista como seu ídolo Stanley Kubrick, apostava em uma fotografia de filme de ação mano-a-mano, como a Trilogia Bourne e 007, além de sequências de ação autênticas, usando quase nada de computação gráfica. A maior parte da cena de perseguição do Batmóvel (chamado neste universo apenas de Tumbler), por exemplo, fechou ruas e avenidas reais de Chicago por quase uma semana.

O Cavaleiro das Trevas era um filme coerente com a proposta e a mente de seus realizadores: Chris Nolan, John Nolan e David Goyer, cineastas que, antes de se aventurarem pelo mundo dos super-heróis dos quadrinhos, eram apaixonados pela sétima arte. Fazer um filme, pura e simplesmente, era mais importante para esses artistas do que fazer um filme de super-herói. O sucesso de bilheteria era a prova de que o público estava preparado para histórias do gênero. E então veio a Marvel.

Com Homem de Ferro e seus “derivados-de-títulos-diferentes”, como Thor, O Incrível Hulk, Capitão América, até culminar em Os Vingadores (que gerou Guardiões da Galáxia, Homem-Formiga e por aí vai), a Marvel estabeleceu uma fórmula. São filmes que misturam comédia e ação, nem sempre na medida certa, mas que apelam para todo tipo de público. Até mesmo para o de fãs de quadrinhos, já que os filmes tiram inspiração direta das HQs, desde o roteiro até a direção de arte e fotografia.

São filmes, porém, encomendados. Não há grandes e excêntricos artistas ou autores por trás da ideia para cada projeto, mas sim os interesses e ideias de produtores e executivos de olho nas vendas de ingressos e licenciamento. Fãs de cinema conheceram Chris Nolan por outros projetos além de Batman, como o já citado Amnésia, A Origem (2010), O Grande Truque (2006) e Interestelar (2014). Trata-se de um diretor que, apesar de polêmico, possui uma visão e uma assinatura muito claras, indiscutivelmente.

Mas o que dizer de Jon Favreau (diretor de Homem de Ferro), Kenneth Branagh (Thor) e Joe Johnston (Capitão América: O Primeiro Vingador)? É difícil distinguir o estilo de um para o outro. São profissionais competentes, é verdade, responsáveis por filmes muito divertidos e que cumprem o que prometem. Mas, convenhamos, ninguém vai ao cinema ansioso para ver o mais recente trabalho de Peyton Reed (Homem-Formiga) ou de Louis Leterrier (O Incrível Hulk) porque amam seus estilos particulares.

É verdade que a Marvel já trabalhou com artistas de mais forte assinatura, como Joss Whedon (Os Vingadores) e James Gunn (Guardiões da Galáxia). Mas foram casos isolados. O primeiro entregou Vingadores: Era de Ultron à Marvel e encheu jornais e revistas de entrevistas falando sobre como foi sofrido o processo de aturar produtores querendo meter o bedelho no seu trabalho o tempo todo. Isso sem falar em Edgar Wright, o jovem e promissor diretor de Scott Pilgrim, Shaun of the Dead e World’s End que durante anos encabeçou o filme do Homem-Formiga, ajudou a Marvel a criar a fórmula para seu universo cinematográfico, mas acabou demitido semanas antes do início das filmagens de Homem-Formiga devido a “diferenças criativas” entre ele e os produtores.

A Marvel faz produtos de entretenimento, e não há absolutamente nada de errado com isso. A grande maioria dos filmes é de qualidade, são longas divertidos e que dificilmente decepcionam. Mas não há como negar que, numa visão geral, o “look & feel” das franquias do estúdio é basicamente sempre o mesmo: vilões genéricos, apoiados por um exército de capangas sem identidade e idênticos entre si, muitas piadas para quebrar o clima pesado nas sequências mais tensas e absolutamente nenhuma gravidade.

Essa fórmula tem funcionado, com recordes atrás de recordes sendo quebrados nas bilheterias de todo o mundo. A marca de US$ 1 bilhão de Cavaleiro das Trevas, por exemplo, já foi batida pela Marvel quatro vezes até hoje: em Os Vingadores (2012), Era de Ultron (2014), Homem de Ferro 3 (2013) e Guerra Civil (2016). Depois que O Cavaleiro das Trevas provou que era possível, a Marvel repetiu o feito e deve continuar repetindo com seu sólido e expressivo universo cinematográfico. Enquanto isso, por onde andou a Warner/DC?

Levou um bom tempo até que a Warner/DC percebesse que o sucesso da Marvel não era uma moda passageira. A indústria dos filmes de super-heróis veio pra ficar e era uma mina de ouro. Enquanto a rival montava seu panteão de personagens a estrelar filmes próprios de 2008 a 2012, culminando no longa que unificaria todo esse universo pela primeira vez (Vingadores), a Warner dava espaço para que Chris Nolan finalizasse a trilogia que ele construiu com o Batman e que serviu de inspiração para toda Hollywood.

O Cavaleiro das Trevas Ressurge foi lançado em julho de 2012 trazendo ao fim a saga realista de Bruce Wayne como o Batman. Não havia espaço para Superman, Flash e Mulher-Maravilha nos filmes de Nolan, porém. O diretor disse, em mais de uma ocasião, que o seu Batman existia em um mundo ancorado na realidade, onde super-homens e alienígenas simplesmente não existiam. Respeitando a decisão do cineasta que lhes rendeu uma das maiores bilheterias de todos os tempos até então, a Warner preferiu esperar a trilogia de Nolan acabar antes de investir em seu próprio universo cinematográfico para rivalizar com o da Marvel.

A primeira tentativa do estúdio, porém, foi ainda bem cautelosa. Zack Snyder, que para a Warner já havia feito 300 e Watchmen, dirigiu O Homem de Aço, a volta do mais antigo herói da editora aos cinemas anos depois do fracasso de Superman: O Retorno em 2006. Homem de Aço reconta a origem do personagem com um roteiro escrito por David Goyer a partir de ideias de Chris Nolan, a dupla por trás do sucesso do Batman. É claro que Nolan, após três filmes de super-heróis, não queria ter mais intimidade com a expansão do universo cinematográfico da DC e aceitou o simples crédito de produtor executivo do filme.

É possível ver em Homem de Aço traços da trilogia do Cavaleiro das Trevas, como o excesso de explicações que tentam tornar aquele mundo o mais plausível e realista possível. A estética empregada por Zack Snyder, outro diretor com uma forte assinatura em sua carreira, é a de cores frias e sombrias, num filme com muito pouco senso de humor e um final, no mínimo, polêmico — após destruir metade da cidade em uma batalha irresponsável, Kal-El quebra o pescoço de seu algoz ferindo uma de suas regras mais conhecidas das HQs, a de não matar.

Apesar disso, há espaço no filme para alguns easter eggs, sementes plantadas que poderiam ser reutilizadas no futuro em uma possível (e provável) expansão daquele universo. Não há qualquer referência literal a Batman, Mulher-Maravilha, Aquaman ou qualquer outro herói em Homem de Aço, mas vemos o logo das Indústrias Wayne em certo ponto, além de uma possível sugestão à Supergirl. Enquanto a Warner engatinhava como se não estivesse segura do que queria fazer, porém, a Marvel já tinha um calendário público com ao menos dois filmes de super-heróis por ano até 2020, todos interconectados e que expandiam cada vez mais seu universo cinematográfico.

Após tanta demora, a Warner finalmente decidiu apressar as coisas e produzir Batman vs Superman, sobre o qual já falei neste outro artigo. Agora, Esquadrão Suicida chega aos cinemas preparando terreno para Liga da Justiça e Mulher-Maravilha, agendados para o próximo ano. Há ainda diretor e elenco contratados para filmes do Aquaman, Flash e Ciborgue, em um calendário que também vai até 2020. Mas além dos problemas criativos de BvS e Esquadrão, sobre os quais já discutimos, entra em cena também a questão econômica, tão importante nessa indústria do entretenimento.

Batman vs Superman, o filme com dois dos personagens mais valiosos da Warner, não teve fôlego para alcançar o US$ 1 bilhão de bilheteria pretendidos com um orçamento que, dizem alguns, chegou perto de US$ 300 milhões. Já Esquadrão Suicida, ainda em cartaz, teve uma queda de 67% na venda de ingressos domésticos entre a primeira e a segunda semana após sua estreia. Apenas BvS e o fraco Quarteto Fantástico de 2015, da Fox, tiveram quedas mais acentuadas.

Como o estúdio que fez o primeiro filme de super-herói a render mais de US$ 1 bilhão em bilheteria não consegue mais alcançar seu principal rival, tanto em termos de venda de ingressos como também — e principalmente — em termos de esmero artístico? É inegável que, apesar de seus problemas, os últimos dois filmes da Marvel (Homem-Formiga e Guerra Civil) são mais coesos e bem montados do que BvS e Esquadrão. Há muitas possíveis respostas a esta pergunta, mas uma parece fazer mais sentido: a Warner enfrenta uma crise de identidade.

Historicamente, a Warner sempre foi conhecida por dar muita liberdade a seus cineastas. O caso da trilogia Cavaleiro das Trevas nas mãos de Chris Nolan é um bom exemplo. O estúdio poderia ter forçado o diretor a incluir múltiplas referências a outros heróis da DC no seu último filme e, assim, acelerar a expansão do DCEU. Mas não fez isso, preferindo dar a chance para que o Nolan terminasse sua história do jeito que queria. O resultado foi mais um sucesso de bilheteria, último filme baseado em quadrinhos do estúdio a bater o sonhado US$ 1 bi.

O que aconteceu de lá para cá? Em O Homem de Aço, é nítido que o trio Nolan-Goyer-Snyder tem toda a liberdade criativa que o estúdio sempre ofereceu a seus realizadores, mas o resultado não foi o esperado para um filme estrelando o personagem de quadrinhos mais conhecido do mundo. Com heróis muito menos populares, como o Homem de Ferro, a Marvel conseguiu fazer muito mais sucesso.

Tratar seus filmes como obras de arte feitas a mão individualmente não deu o retorno que a Warner esperava, enquanto a rival fazia rios de dinheiro com sua linha de produção cinematográfica, um enlatado atrás do outro. Será que toda essa liberdade criativa seria o problema? É nítido que BvS é bem menos livre, tendo sofrido com a mão pesada de produtores e seus interesses comerciais. Basta notar o desenvolvimento apressado da Liga da Justiça no filme, assim como o começo e o fim mirabolantes da desavença entre Batman e Superman, e o plano cheio de detalhes de Lex Luthor. Esquadrão, então, é ainda mais caótico e parece ter suprimido ainda mais a liberdade dos criadores, com o já comentado conflito de interesses entre David Ayer, o marketing e as expectativas geradas pelo fracasso de BvS.

Essa crise de identidade da Warner se torna visível quando vemos o estúdio tentar conciliar sua filosofia tradicional, a de dar espaço e liberdade aos criadores, com os interesses comerciais de acionistas que querem fazer tanto dinheiro quanto a Marvel e sua linha de produção por encomenda. Cria-se esse tipo de situação, em que a visão do diretor (Zack Snyder ou David Ayer) é tão particular que gera receio por parte dos produtores e executivos de não agradar o grande público.

O problema do relativo fracasso comercial de Homem de Aço, BvS e Esquadrão é diferente: o primeiro deu muita liberdade aos realizadores, enquanto a versão do terceiro que foi aos cinemas não parece ter sido fruto da visão do diretor. Sendo assim, qual caminho a Warner deveria seguir a partir daqui? A resposta me parece muito simples. Se o objetivo é fazer dinheiro e manter-se fiel à sua postura estabelecida, basta que os produtores deem uma olhada para a trilogia de Christopher Nolan em Batman Begins, Cavaleiro das Trevas e Cavaleiro das Trevas Ressurge.

Três filmes com um objetivo quase que minimalista diante da grandiloquência do MCU e DCEU: contar a história do nascimento, da queda e da renascença de um ícone, um herói que serviu de exemplo (literal e figurativo), numa jornada de autodescoberta, autodestruição e redenção. A trilogia do Cavaleiro das Trevas é uma história fechada em si mesma, que respeita e muito a mitologia dos quadrinhos, mas não tem medo de explorar suas próprias ideias. Há defeitos técnicos e criativos nos filmes? Claro que sim. Mas o essencial funciona perfeitamente bem.

É preciso que haja um consenso entre o estúdio e os realizadores. Nolan teve toda a liberdade para fazer seus filmes do Batman, e a sua visão para o personagem casou-se com as expectativas do público, da crítica e dos produtores. Não é cabível que a Warner contrate um cineasta de mão pesada e senso estético definido, como Zack Snyder, e depois se arrependa de ter em mãos um filme denso e sombrio. Será que os executivos não conversaram com ele antes de tomar a decisão de contratá-lo, para saber se sua visão estava de acordo com a visão da empresa?

Essa é a melhor lição que a Warner pode tirar do desastroso Esquadrão Suicida. Uma lição que já devia ter sido aprendida com o fracasso de outro estúdio, a Fox, e seu confuso reboot do Quarteto Fantástico. A lição é a de que apenas os realizadores do filme podem definir qual será o tom e a montagem final da obra, a lição de que a visão de um cineasta deve ser respeitada até o fim do processo, haja o que houver, e de que, se há planos para criar um universo cinematográfico unificado, é preciso que uma mesma visão norteie cada produção do início ao fim, e que o estúdio esteja de acordo com essa visão.

Se Mulher-Maravilha e Liga da Justiça não forem capazes de colocar a DC no mesmo patamar que a Marvel, tanto criativa quanto financeiramente, os fãs de quadrinhos são os que mais têm a perder.