A Turquia é Europa?

Não, ao menos a rigor. Mas nem os europeus sabem definir o continente.

Nacionalistas olham de rabo de olho a presença dos turcos na Eurocopa — ainda que a Uefa inclua também Israel e Cazaquistão, países incontestavelmente asiáticos. Fora do mundo esportivo, a ideia de integrá-los à União Europeia também é controversa. O principal partido nacionalista alemão, o Alternativa para a Alemanha (AfD), deixa claro que a Turquia não deve fazer parte do bloco.

O problema é que não há como refutar 100% a tese de que os turcos são europeus sem colocar o próprio conceito do continente em cheque. Afinal, grosso modo, a Europa aparece como uma península no noroeste da Ásia, separada da África pelo Mediterrâneo e do Oriente pelos Montes Urais.

Mas só a geografia não basta para rejeitar a Turquia, que tem 3% da área nos Bálcãs, como europeia. Essa e outras alegações podem ser corretas do ponto de vista geográfico, mas encontram contradições em outros exemplos de dentro do que conhecemos por Europa.

Critério geográfico

A definição mais difundida coloca o Estreito do Bósforo, em Istambul, como a separação entre a parte europeia e a asiática da Turquia. Assim, só um pedacinho do país fica na Europa. No entanto, o Chipre, uma pequena nação insular no Mediterrâneo, faz parte da União Europeia mesmo mais próximo da costa síria do que da Europa.

Há ainda a Islândia, de população majoritariamente de origem nórdica. Mesmo fora da UE e mais perto da Groenlândia do que do Velho Continente, poucos se arriscam a pensar no país como não europeu. Confederações esportivas europeias incluem também Azerbaijão, Geórgia e Armênia, apesar de ser difícil olhar para o mapa e ver o Cáucaso — limítrofe com o Irã — fora da Ásia Central. Isso sem falar na Rússia, cujo território se estende muito mais pelo norte asiático do que para Oeste dos Urais, onde, porém, vive a maioria dos russos.

Critério religioso

Quem usa esse critério para excluir da Europa a Turquia, laica de maioria muçulmana, parte do pressuposto de que o Velho Continente seja uniformemente cristão. Entretanto, a maior parte da população da Bósnia-Herzegovina também segue o islã — e não se trata de imigrantes. São bósnios, tão eslavos quanto os ortodoxos da vizinha Sérvia.

Critério econômico

Outro fator pouco convincente. Mais uma vez, acredita-se que a Europa seja uma coisa só: um bloco de prosperidade. Mas há nações bem mais pobres do que a Turquia. Albânia, Bósnia-Hezergovina e Moldova têm indicadores econômicos bem inferiores aos turcos.

Dá para apontar uma diferença de “cultura econômica”, o que é bem real. Mas a Zona do Euro — formada só por europeus (e o Chipre) — vive maus lençóis justamente porque os países adotam a mesma política monetária enquanto têm políticas fiscais diferentes.

Critério democrático

De fato, o governo de Recep Erdogan está longe de ser democrático. Além disso, os países integrantes da União Europeia vivem democracias relativamente estáveis, com exceção, talvez, do Chipre (de novo). O país tem eleições, mas o norte da ilha se autodeclara independente — com reconhecimento, inclusive, da Turquia. Ou seja, há um conflito aí.

Encarar a Europa como um bloco único democrático desde a queda do Muro de Berlim (1989) e do fim da Guerra da Iugoslávia (2001) é perigoso. Primeiro, porque a Bielorrússia vive um regime ditatorial desde que se separou da União Soviética, com Alexander Lukashenko no poder há 22 anos. Segundo, porque nada garante que essa estabilidade nos outros países seja duradoura — especialmente com o avanço de políticos autoritários, sobretudo no Leste.

Mas a Turquia é Europa?

Não, porque ninguém “é Europa”. Alguns países se localizam nela, caso de 3% de toda a área da Turquia. A pergunta a ser feita é se o Estado Turco deve gozar das mesmas prerrogativas das demais nações europeias — outra noção arbitrária, pois não há uma unidade clara.

Aliás, justamente essa ideia de uniformidade está no meio da crise da União Europeia — inclusive fortalecendo partidos nacionalistas, de esquerda ou direita. A recente força dos eurocéticos Syriza (Grécia), Frente Nacional (França) e Alternativa para Alemanha provam isso. Antes de decidir se a Turquia deve se unir à Europa, é preciso definir: o que, afinal, é a Europa?