O repórter-fã

Uma das coisas mais legais do jornalismo é a possibilidade de o repórter escrever sobre seus assuntos preferidos. Vá a uma faculdade e pergunte aos calouros o porquê de eles terem escolhido a carreira, mesmo tão maltratada de uns anos para cá. Batata: vão falar que sempre sonharam em ver de perto uma Copa do Mundo, fazer o red carpet do Oscar ou assistir aos filmes antes mesmo da estreia. É querer estar, mais do que exatamente cobrir.

Normal. Até, é claro, você se formar. Porque aí você corre o risco de se tornar um repórter-fã.

O repórter-fã coloca em primeiro lugar a paixão sobre o assunto e, em segundo plano, o jornalismo. Pode ser ótimo para comentar, mas a investigação acaba pobre. Aliás, o repórter-fã é muito espectador e pouco investigador.

Ele existe nas editorias de esporte, cultura e turismo, esta última quando os jornais ainda abrem espaço. Em política, a espécie aparece menos — acho que não sobrevivem à rotina. Entretanto, o conceito de repórter-fã é pouco compatível com economia — afinal, quem é fã fã fã de economia não vai estudar jornalismo.

Porque o repórter-fã ama o evento que cobre, e não a cobertura. É um picareta que se esconde numa arrogância. Nem os editores podem. Vai discutir com o cara do cinema europeu? Questionar a apuração do jornalista que entende tudo sobre Olimpíadas?

O problema aparece quando o repórter-fã editorializa a pauta. Ou vão bater palmas para cada linha daquele ídolo (ou o assessor de imprensa do evento que tanto ama) ou vão implicar com quem quer estragar tudo.

Citei as Olimpíadas ali atrás porque elas são um bom exemplo. Sou um puta fã, mas acho que aprendi a tempo — talvez depois de encarar a vida real fora do glamour ou então de pesquisar tão a fundo o assunto na academia a ponto de me chocar com algumas coisas. Aliás, jornalista anda perdendo a capacidade de se chocar com uma facilidade, né?

Voltando. A ideia dos Jogos Olímpicos no Rio se mostrou a galinha dos ovos de ouro para vários jornalistas fãs do evento — como eu. Grandes portais deram espaços e colunas para esses caras. Natural. Oportunidade, talvez, de uma cobertura extensiva. Pautas positivas quando o assunto for bom, negativa quando não.

Mas o que se viu foi uma explosão de páginas de loucos por, fanáticos por. Não falem dos problemas de organização, do possível erro que tenha sido escolher o Rio lá em 2009. Não destruam o castelo de areia desses repórteres-fãs. Para eles, a culpa do clima bad trip é de todo mundo, meeeeeeenos da organização, dos comitês, de tudo aquilo que leve a marca.

É como aquele repórter cinéfilo que não esteve nem aí para o protesto dos atores negros no Oscar passado. Seja qual for a posição do jornalista sobre o assunto, custava uma apuração sobre, sei lá, o histórico da presença de negros no cinema americano?

Pode ser medo de perder kits, credenciais, ou outros mimos que componham a memorabília desses loucos por [assunto que cobre]. Ou de ver que aquele evento, clube, diretor, jogador, sei lá, não é aquilo que se idealizava desde os tempos de faculdade.

Que os jornalistas amem aquilo que amam cobrir. Ótimo, aliás. Só espero que não se esqueçam da beleza do jornalismo — a investigação, a apuração criteriosa e crítica. Caso contrário, abra um blog, tente um emprego na assessoria da coisa que tanto ama e deixe aberta a vaga de repórter.

Melhor um neutro capaz de fazer uma cobertura equilibrada do que um fanático por que entende tudo sobre o assunto e apenas isso.

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