País de Gales, a nação entre dois divórcios

“Shoes off if you hate England.” Mas antes de pensar em dar o pé na Inglaterra, os galeses precisam decidir sobre o futuro da União Europeia

O sábado (11) de Eurocopa deu orgulho aos galeses. O País de Gales venceu a Eslováquia na estreia, e os torcedores em Bordeaux (França) ainda tiveram o gostinho de comemorar o tropeço da Inglaterra, a irmã rica de quem pensam, um dia, em se separar. Sobre outro cisma, no entanto, os compatriotas de Gareth Bale colocam um pé para trás. Em 12 dias, a nação vai às urnas com os escoceses, os norte-irlandeses e, claro, os ingleses para decidir se o Reino Unido continua parte da União Europeia após 41 anos.

Pode parecer crise de identidade. O Plaid Cymru — o Partido de Gales no parlamento britânico — pleiteia discretamente a independência dos galeses à coroa de Elizabeth II. No entanto, o grupo se posicionou a favor da permanência do Reino Unido na União Europeia no referendo marcado para 23 de junho.

“Se os ingleses quiserem sair, que saiam sozinhos. A gente fica”, comentou um galês em Bordeaux, que preferiu não se identificar. “Eu gosto de falar sobre a independência de Gales. Sobre União Europeia, não é comigo, mas eu prefiro ficar”, justificou.

A data do referendo coincide com a ressaca do último dia da fase de grupos da Eurocopa. Até lá, os torcedores galeses presentes na França se concentram na possibilidade de o time surpreender e chegar às oitavas de final. Mas o Brexit, como é apelidada a cogitada saída dos britânicos da UE, aparece na conversa entre uma cerveja e outra. Veja duas posições opostas:

O Reino Unido fica — e Gales também!

Sion Hinksman, 20 anos, estudante de história na Universidade de Swansea

“É mais seguro permanecer [na União Europeia]. O argumento de que o Reino Unido teria mais liberdade não me convence, simplesmente porque não há segurança alguma sobre o que aconteceria depois. Os políticos a favor do Brexit não se preocupam muito com as minorias que teriam a perder com essa medida — e a população do País de Gales é uma dessas minorias. Eu não sei como esse referendo pode afetar a ideia de nos separarmos do Reino Unido, mas ainda acho pouco seguro sair da União Europeia dessa maneira.”

O Reino Unido se separa — e leva Gales junto

Andrew Davis, 32 anos, servidor público

“A União Europeia tem ficado menor politicamente. É preciso salvar os empregos, em baixa no Reino Unido. A visão econômica da UE já se mostrou frágil com as crises recentes. Há também a questão dos imigrantes, refugiados ou não, que a entidade não parece saber lidar. Porém, a maioria dos galeses vota contra porque o País de Gales é uma região mais pobre, que depende dos subsídios europeus. É um tema muito complexo, mas eu voto pelo Brexit