Dona Diana não sabe mexer no celular e me manda pelo menos três fotos da perna/chão/sofá por dia.

Dona Diana

Eu não visito minha mãe com muita frequência, mas de uns tempos pra cá tenho pensado sobre isso e me cobrado mais. Nenhuma atitude por enquanto, claro. Sei lá, eu achava que ia ser suave manter uma rotina de ir todo mês, de passar um final de semana inteiro lá, com direito a duas noites de sono. Na real, o direito eu tenho e ela faz questão. Eu mesmo que sou meio cuzão e acabo dormindo só de sábado pra domingo. Mas nesse último sábado eu fui lá ver a dona do meu sobrenome.

Ter a chave da casa dela na minha mochila me passa a certeza de que eu vou ser sempre bem-vindo, sabe? Isso deixa o coração com um quentinho bom, até melhor que o café que a gente passa depois do almoço. Esse aí, inclusive, é mais óbvio e mais gostoso que tudo: arroz, feijão, um cozido de batatas com cenouras e molho de tomate de saquinho. A minha contribuição pro prato são os ovos. “Omelete, frito ou mexido?”, eu sempre pergunto pra Dona Diana. “Mexido eu sei como que faz, porque é só misturar na frigideira.”. Eu acho bonito que ela sabe fazer um negócio que, no fim das contas, fica pronto justamente porque não tem jeito certo de fazer. Dona Diana criou dois filhos.

A cozinha da minha mãe nunca tem sal, ela prefere óleo do que azeite, tem uma panela lá que não tem alça e é um saco cozinhar nela, mas a tv sempre fica desligada na hora do almoço. Ela troca a única companhia que tem atualmente pela minha, por isso eu faço questão de assistir a tudo que ela me conta. Geralmente é meio repetido e sem ordem cronológica, exatamente igual a ficar trocando de canal e nunca parar em um específico.

Nesse último sábado eu levei de presente três anéis desses grandões pra ela. Foram três por dez reais e isso é muito, mas muito mais do que ela gastou comigo de faculdade. Na hora que ela viu os anéis e colocou um por um no mesmo dedo, eu tive certeza que eu amava aquela mulher. As mãos dela tem poucas rugas, mas mais do que eu imaginava, e ela tem os dedos mais grossos que os meus, o que é engraçado, já que ela é mais leve e menor que eu. E tem uma mania de usar anel no dedo médio. Quando eu fui experimentar, porque queria ter certeza de qual número levar, escolhi o meu anelar pelo nome óbvio. Minha mãe não é óbvia. Eu acho que entendi um pouco do sentimento que é se dedicar a alguma coisa e ela não sair conforme o planejado. Desculpa pelo meu jeito, mãe.

Eu gosto de entrar no meu antigo quarto pra reler alguns quadrinhos. Parece que tô dentro das minhas lembranças, porque tem detalhes idênticos à infância, mas também tem uma mudanças que ela fez por conta própria. É legal, de verdade. Só não é mais legal que o cheiro da casa. Tirando o nosso poodle que morreu uns anos atrás, acho que o outro olfato bom da casa é o meu. Eu sempre sabia quando ela confundia o meu travesseiro com o da minha irmã na hora de pegar do varal e entregava eles trocados pra gente, porque o cheiro da minha irmã tinha algo muito específico e especial pra mim. O quarto dos meus pais também tinha um cheiro próprio dos dois. Sei lá, eu posso tá forçando a barra, mas eu acho que conseguia distinguir cheiro de pai e cheiro de mãe, tudo meio junto, mas diferentes, sabe?

De qualquer forma, nesse último sábado eu sorri quando entrei na casa dela e tudo tinha um cheiro só e três anéis a mais e omelete, porque ela sempre escolhe esse. É o meu preferido também.

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