Os caras de terno, o elevador & as tupperware de vacilo

Calor do caralho. Eu sentado na janela do ônibus com aquele desgraçado daquele sol me lembrando que a mínima da quarta-feira era de 32 graus. Elevador do prédio comercial com doze pessoas; capacidade pra quinze. Prédio comercial é uma merda porque os elevadores parecem colmeias corporativas cheias de caras de terno. “Cara de terno”, como é autoexplicativo, é aquele broder de alguma firma — geralmente um escritório, seja lá o que isso signifique — que tá sempre de terno e fala sobre apenas três coisas no elevador: futebol, esposa e vizinha gostosa. Nunca sobre um desses assuntos. Sempre os três ao mesmo tempo. A “Cartilha de Sobrevivência aos Caras de Terno” diz que se você usar fones de ouvido é impossível ser notado por eles. A “Cartilha de Sobrevivência aos Caras de Terno” só não avisa que por mais que caras de terno sejam previsíveis, às vezes eles desrespeitam a Matrix e criam um quarto assunto: você.

— Olha lá o menino, mó magrinho.
— A música tá alta, heim. Se cê não vai engordar, surdo cê ainda pode ficar.
— Tá novo ainda, dá tempo de conseguir as duas coisas.

Ajeito os óculos com o dedo médio enquanto sorrio sem mostrar os dentes. Odeio elevador. A ideia de reunir 15 pessoas em alguns poucos metros quadrados só dá certo no fumódromo. Lá, todo mundo tem o mesmo objetivo. No elevador não. Ele é só um meio de transporte pra cada um chegar no andar que precisa. E respeitando uma das Leis de Inconveniência dos Meios de Transporte, as pessoas fazem da maldita caixa um ambiente de conversas ruins e obrigatórias e puxam papo sobre inutilidades. Maior concentração de vacilos por metro quadrado.

Calor do caralho. Ar da firma ligado. “Deus existe e ele está em modo turbo, a 18 graus e com a função swing ligada”. Bato ponto, confiro as demandas na minha mesa e começo com as prioridades: guardar a marmita na geladeira. A moça do financeiro que eu não sei o nome tenta liberar espaço entre a multidão de tupperware. Quando você é adulto, mais da metade da sua vida é gasta organizando vasilhas e alimentos na geladeiras. O resto é desperdiçado em pé na fila da lotérica. A moça do financeiro desiste da acomodação da marmita e sai da cozinha em fúria enquanto olha mesa por mesa da firma:

— Esse caralho desse iogurte Grego da Danone que custou R$ 7,99 lá no Verdemar é meu, porra.

Um espectro ronda a firma.

— Não tá vendo que tá escrito “Márcia” de todo tamanho em cima da porra da embalagem?

Agora pelo menos eu já sei o nome dela.

Leio todos os nomes de todas as etiquetas de cada uma das tupperware e tento imaginar quem é quem na firma. Na geladeira, todo mundo sabe o que é de cada um. "Mas que tipo de filho da puta traz camarão pra esquentar no micro-ondas?". Coloco minha marmita em cima de um pote de margarina, passo pela Márcia em fúria e me protejo atrás do computador. O monitor é meu escudo e nada me atingirá.

— Quem foi que mandou essa peça feia pra caralho e sem aprovação pro cliente? — gritou o Cardoso lá do extremo norte da bancada.

Troca de olhares, assovios, coçadas de cabeça. Ninguém é culpado de nada. Demanda errada não tem dono. Pro Cardoso saber quem xingar, o jeito é todo mundo trabalhar na geladeira, dentro das tupperware etiquetadas.

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