Pedro odiava chá

Pedro odiava chá. O cheiro causava uma série de náuseas; o gosto arrepiava dos pés à espinha; aquele monte de caixinhas distribuídas nas prateleiras, com um infinidade de cores, lhe reservavam diferentes desgraças.

Antes mesmo de nascer, já não era bem-vindo pelo pai. Aos 7 anos, quando os pais começaram a se desentender, sua vida cheirava à camomila. Entre um hematoma e outro, Dona Clarice punha a água pra ferver enquanto as lágrimas secavam no rosto. O que acalmava a mãe de Pedro fazia com que ele ficasse cada dia mais nervoso. Aos 14, filho de pais separados e repetindo de ano na escola, tomou raiva do mundo e depositou todo seu amor em Miguel, o avô. “Promete pra mim, menino, que você nunca vai ser igual ao meu filho”, ele ouvia da boca do velho. “Prometo”, seus olhos transbordavam. “Promete pra mim, vô, que o senhor vai viver pra sempre”. “Prometo”, Miguel mentia com hálito de chá. O pai do pai de Pedro travava, há anos, uma batalha perdida contra o colesterol. Aos 14, a vida do garoto e a morte do velho cheiravam à alcachofra.

Aos 18, Pedro conheceu a primeira ex-namorada. Antes de Carlos, seu melhor amigo, apresentá-lo à festa, um outro amigo lhe apresentou alguns prazeres. “Tem bala, doce, pó e chá”, disse, sorrindo. “Chá?”, seu estômago embrulhou com aquelas três letras e Pedro correu pra vomitar no banheiro. Cuspiu as lembranças e memórias no vaso, perdeu os óculos no meio do caminho e encontrou Vitória. “Festa difícil também, parceiro?”, perguntou a garota. Deixou no banheiro a vergonha, a timidez e a virgindade. Dividiram, quarenta minutos depois, um maço de cigarros mentolados. Dividiram, quatro meses depois, dois anos de vida. Com os ingredientes da janta em mãos, voltou do trabalho, aos 20, e encontrou Vitória na cama com Carlos. Na cozinha, a água fervia; na boca, o gosto amargo. Não era café. A chaleira anunciava, assoviando, a traição. Perdeu os sentidos, tropeçou umas várias vezes pra trás, derrubou os pacotes de chá no tapete e saiu de casa. Aos 20, sua vida cheirava à menta.

Superou Vitória com cigarros de canela e Beatriz. Aos 25 anos, namorava a universitária, dava palestras a cada quinze dias, visitava crianças com câncer em um hospital duas vezes por mês, matava a saudade da mãe todo domingo e prestava as homenagens ao avô todo Dia de Finados. “A menina só tem 20 anos, Pedro. Ela não aguenta suas responsabilidades e o peso da sua vida nas costas”, dizia Dona Clarice. O universo pareceu discordar e Beatriz se viu carregando, no ventre, o peso da vida que dividiu e juntou com Pedro. “Não era isso que eu planejava, Bia. Não agora. Olha pra gente! Nossa idade, nossos planos, nossas vidas”, transbordou. Desceu até a calçada, queimou os dois últimos cigarros do maço e só voltou depois de várias horas e uma promessa feita ao avô. Procurou a menina no apartamento e foi correndo pro quarto pedir desculpas. A cozinha estava tão úmido quanto os olhos do casal. A água havia fervido e a caneca vazia condenava a decisão de Beatriz. O quarto cheirava a gengibre. Pedro odiava chá.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.