Perdão, Belchior

Bigode farto, voz aveludada, letras ainda mais fartas que o bigode; meu pai ouvia Belchior. Eu odeio esse cara. Do Belchior eu aprendi a gostar.

Era uma segunda à noite, cedo demais pra dormir e tarde demais pra ver um filme. Ainda não sei o nome do diabo que me possuiu, mas resolvi que era o horário perfeito pra encarar o velho. O fim do termo “saudade”. Passei o café, separei um cigarro, abri a janela e escolhi o álbum que guardava a única música do Belchior que eu me lembrava.

Me lembrar é algo difícil ultimamente. Não me lembro da voz, da altura, do olhar e nem das expressões. Acho que a culpa é do bigode que escondia todas as emoções do velho atrás de si. Quando você se esquece, de detalhes a coisas importantes, o cara que você um dia quis ser acaba sendo substituído. Na falta de alguém pra culpar e me lembrar e desprezar, tratei logo de adotar o coitado do Belchior. Coitado de mim.

É duro admitir que eu preciso de você, Belchior. Nessa maldita caminhada, vi o rapaz latino-americano começar a se tornar um homem e entendi o peso de ter que carregar o próprio bigode. Você, mais que ninguém, sabe como é ser estudante da tal vida que se quer dar. Eu tô crescendo, mas tô sozinho, porque aquele amigo que embarcou comigo, cheio de esperança e fé, já se mandou.

Ele deve estar escondido atrás de um grande bigode em algum lugar, devendo hotéis e fugindo dos impostos, ou compondo canções sobre a vida que levou e odiou. Fumando Hollywood no Uruguai. Morando em Hollywood e fumando cubanos. Vivendo em Cuba e correndo com os coyotes. Eu não me importo. Amar e mudar as coisas já não me interessa mais.

Perdão, Belchior.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.