Olha a expressão dessa mulher

Os olhos negros da esperança finda, da glória escassa, contemplando a calçada pela janela do carro com a indiferença do feijão perante o arroz. E ainda que lhe esmagassem a face com um garfo, não lhe arrancariam a expressão dessa mulher!

Olha a expressão dessa mulher;

Ao lado do marido gordo de insucesso, que não lhe oferta senão falência, nem lhe surpreende sem fiasco; roncando as tripas maciças de merda, toda noite, toda noite, frustrando o sono do aliviamento, arrasando o bem-estar de toda a gente, à medida que ocupa um colchão inteiro, ou dois, se assim lhe consentissem; e tudo isso se lê de sua face espremida, que não lhe deram outra, mas sim, lhe tomaram as últimas gotas da juventude muito antes do tempo comer-lhe a carne, como faz com todas as carnes — porque é o tempo onívoro, e ninguém o importuna.

Olha a expressão dessa mulher;

Coberta de rugas de desilusão; a vaidade que lhe consumiram, o gozo que lhe furtaram, e o que restou? Onde foi que enfiaram seu deleite, que já tarda vinte anos… vinte anos! Anos passam tão depressa; ao contrário do relógio, com seus ponteiros lentos e irônicos, tão apáticos quanto quem o consulta durante o coito forçado, quando a volúpia de um embaraça a passividade do outro. E do bafo de cerveja barata, um gemido grotesco prediz mais um gozo parasita, deixando-a repleta de ojeriza fluida! Ah, se ao menos isso pudera suprimir! Que de gases já está habituada, mas não: quis a evolução lhe punir mediante um líquido espesso e repulsivo.

Não. Deitar com seu marido é tudo que ela não quer.

Olha a expressão dessa mulher!