Ridículo Manifesto de Insatisfação Social — Review

  1. Ridículo Manifesto de Insatisfação Social

Quando li o conto “Ridículo Manifesto de Insatisfação Social”, que dá título à primeira obra de Sergio Trentini, já esperava uma bomba de sensações. E várias delas se confirmaram com sucesso —agonia, ironia, raiva, pena e conformismo — , mas o soco no estômago que recebi em alguns trechos me gerou verbalizações de prazer, traduzidas em curtas gargalhadas monossilábicas direcionadas para o teto.

Um desses momentos me ocorreu no fim do penúltimo parágrafo. Após atingir um sentimento de cansaço concomitante ao do narrador— e a narrativa te induz exatamente à sensação de monotonia que a vida dele se lhe representava — , o alívio vem travestido de conformismo. O narrador conclui que as coisas continuam idênticas e acinzentadas (ainda pior que incolores), “E no novo trabalho, um dia você acorda e as coisas continuam sendo as coisas. O cinza do asfalto que você trilha para chegar ao serviço entrou na sua mente. E todos os passos são da mesma cor”. Na sequência, justifica o significado do uso culposo da medicação supracitada, “Porque tudo nessa vida tem um significado, e você descobre o significado dos antidepressivos”.

Socos no estômago podem ser encarados como dolorosos. Mas a dor e o sofrimento jamais foram sinônimos. A cada alfinete que crava, Trentini compensa com um afago, que geralmente vem em forma de genialidade narrativa. “Tenho um bloco de anotações cheio de nomes. Nenhum faz sentido pra mim, mas todos valeram a diversão de anotar, pedir desculpas por não ter entendido e fazer a pessoa soletrar. Depois desligar. Sim. Isso é diversão.”. Para que nosso sorriso se justifique ao ler essa brilhante definição, é preciso consentir com a ambivalência de “diversão”, que claramente flerta com o significado de “tédio”. Quando o tédio e a diversão se confundem, o sujeito está na fundo do poço em se tratando de bem-estar. É o que o faz buscar, desesperadamente, qualquer forma de desopilação, como a vaidade; “(…) aqueles que supostamente seriam meus iguais saberão diferenciar o meu botão do colarinho, aberto e desalinhado, dos seus fechados, bem passados e alinhadíssimos. (…) As pessoas certas saberão. Nossa, que rebelde.”. Mas mesmo a vaidade — intimamente ligada ao ego — perde espaço para o superego de um ser que se castiga por pensar demais. E o sofrimento que gera é polivalente; a rebeldia contida é expressa pelos mais ínfimos detalhes, “(…) Sufoca pra caralho deixar o último botão da camisa aberto. Ideologicamente.”. Ou seja, o sufoco que sente está muito além da forma, mas sim da semântica, da “alma” de cada objeto característico de seu monótono dia.

A ironia é a rainha das figuras de linguagem do texto. Muito mais do que as crises de inconformidade desabafadas pelo narrador, suas afirmações irônicas nos trazem à sua perspectiva com o máximo de empatia possível. A gente ri com a imagem de sua boca irônica proferindo tais blasfêmias profissionais, como “Quem sai perdendo, nesse caso, é a empresa. E a empresa não gosta de injustiças. Ela oferece tantas coisas boas.”. E se os fragmentos acima não foram o suficiente para lhe esclarecer o título de “ridículo manifesto” — ou irônico? — , a “insatisfação social” é evidenciada o tempo inteiro. “Semana passada, dois novos estagiários começaram aqui. Isso diminui meus gastos com açúcar em, aproximadamente quarenta centavos. E essa foi a melhor notícia do mês.”. A melhor notícia do mês foi quarenta centavos de desconto no açúcar do café. Outro soco bem dado, dessa vez no meio das fuças despreparadas.

O jogo de conformismo irônico subentendido na relação empregado-empresa descrita ao longo do texto é uma evidência da subjugação silenciosa — mas rebelde — a que se submete o narrador. “A empresa oferece o plano e nós oferecemos as doenças para justificar o desconto do plano”. Não precisamos de muito para entender que seu ponto de vista é amargo e ciente da injustiça que sofre, embora se encontre em alguns trechos indícios de autovalorização. “Chamamos de Seu Lima porque é um senhor, mas um senhor humilde. O pronome para pessoas mais velhas e humildes é “seu”.”

Logo após, o sonho das cordas basicamente representa a angústia do narrador perante as responsabilidades sufocantes da vida adulta. As cordas que lhe convidam para o descanso são as mesmas que lhe apertam, esbugalhando-lhe os olhos para que enxergue as contas que vão vencer. Quando o sofrimento atinge seu ápice, o ambivalente relaxamento representa, ao mesmo tempo, o conformismo diante das faturas organizadamente penetrando seu bolso. O toque do despertador serve basicamente como o “amém” no final do pai nosso.

A busca pela mínima qualidade de vida torna-se cada vez mais obscura e utópica ao longo do texto. O relato nos leva a comparações entre a rotina sufocante do narrador e seu conhecido do callcenter, ainda mais infortunado, como se uma vantagem orgásmica tomasse espaço naquele tempo a mais para se ir ao banheiro. A partir deste momento, traços obsessivos tomam conta da narrativa, gerando um ambiente ainda mais pesado. “Comecei a cronometrar cada minuto que passava longe do computador e percebi que trabalhava muito menos do que esperavam de mim”. Culpa e revolta se misturam em confissões inesperadas, quase pedidos de socorro. “Não almoçar ou faltar o inglês era o máximo de quebra de rotina que eu conhecia”. Mas, para que não sobrecarregue a mente do leitor, mais um alívio irônico: “(…) mas lembro que não há um campo nomeado “capacidade de fazer piadas espirituosas” para que ela me avalie como razoável”.

Porém, o grande soco, outra vez travestido de ironia — uma ironia leve e amarga, como uma limonada fraca e sem açúcar — , vem exatamente onde você esperaria, embora nada previsível. No final. Um salto de quatro décadas e meia. Um alívio sobretudo pela garantia de que o tempo (ruim) fora pregado no passado. A notícia de que o narrador teria se aposentado da sua terrível experiência profissional. Mas a última frase do texto compromete toda a positividade que o paralelismo anterior reconstitui à rotina do infeliz eu-lírico. “E, de repente, quarenta e seis anos se passaram. Você já pode se aposentar. Tá tudo bem agora.”

Uma fotografia do texto inteiro é o seu último parágrafo. Com ainda maior transparência, mais um pedaço da genialidade da obra de Sergio Trentini é revelada, surpreendendo a todo leitor com a verdade passiva-agressiva do dia-a-dia.

Lucas Di Marco, 19/10/2016