Round do Inferno
Na sala da triagem límbica, acessei o sistema pelo computador mais próximo do leito do cliente:
C. F. S., masculino, 67 anos, acidente de moto.
Mais um, lembro de ter pensado; eram tantos por dia que até Lúcifer se comovia. Isso era o que diziam, pois nunca o conheci pessoalmente. A grande maioria teria muito mais tempo para consertar seu Balanço Moral e, quem sabe, jamais precisaria passar por tal inconveniente. Mas não: continuavam a chegar, cada vez mais jovens e inconformados. E a ironia é que quase todos relatam alguma crença divina no momento da chegada ao Limbo.
Eu sei o que você está pensando. E eu? Bom, eu ainda não morri. Esse é apenas meu trabalho.
Enquanto coletava informações do senhor C.F.S., um carrasco vinha me perguntar se já podia aplicar as penas de contenção nos clientes da ala sul. Eu não estou cobrindo a ala sul essa manhã, disse, mas antes que chegasse com as seringas de gasolina ao meu cliente, resolvi eu mesmo lhe passar as boas-vindas.
Bom dia, seu Carlos; ele abriu os olhos com dificuldade; Bom dia, seu Carlos!
Bom dia… onde eu estou? Procurava mexer a cabeça para seguir minha voz, mas a contenção de arame farpado o restringia a um curto ângulo funcional.
O senhor faleceu, seu Caros; Bem-vindo à vida eterna!
Mas… que isso? Eu sou ateu; ainda mexia o pescoço como se esquecesse as finas e pontiagudas protuberâncias metálicas que lhe perfuravam moralmente o que antes chamava de carne, hesitando sempre pela dor.
O senhor agora é cliente do inferno, seu Carlos. Mas não se preocupe, eu estou aqui para lhe defender. E se o senhor me ajudar, podemos fazer o possível para que sua passagem por aqui seja o menos horrível possível.
Eu detesto dar essa notícia. É realmente a única parte do trabalho que me incomoda.
Não, não senhor, me tira daqui, eu quero voltar!
Porque o senhor tem dois filhos, uma esposa infeliz e um cachorro gordo, sei bem. Seu Carlos, todo mundo tem seus motivos, mas receio que a decisão não caiba mais ao senhor. Então, me ajude a lhe ajudar? E, antes que decidisse responder, emendei: Nós vamos fazer um exame agora para lhe ajudar, certo? E conectei os eletrodos às duas maiores pontas do arame farpado, um na região frontal, outro na nuca. Precisei de três anos para compreender o que levara o engenheiro do inferno a achar a nuca um local apropriado para se enfiar um eletrodo enorme em forma de alicate, até finalmente perceber que isso aqui é o inferno, e não um spa de adultos travessos. Após um breve choque doloroso sem qualquer significado científico, a corrente elétrica gerava imagens numa imensa parede de rochas magmáticas incandescentes logo atrás do leito do meu cliente. As imagens representavam todas as nuances de seu sistema nervoso central. Configurei o aparelho de modo que só mostrasse as reações positivas e negativas geradas por algum estímulo sensitivo, fosse qual fosse. Para não confundir, selecionei apenas o da visão e comecei o teste.
O senhor não precisa dizer absolutamente nada a partir de agora. Quanto menos falar, melhor, combinado?
Tá.
A imagem do aparelho acusou imensa atividade elétrica na região temporal esquerda. Eu sempre me esqueço de não terminar essas frases com uma pergunta, mas é mais forte que eu.
Não fale, seu Carlos. Vou começar, ok?
Fez menção de concordar com a cabeça, mas o arame o impediu. Mostrei-lhe inicialmente uma fotografia de Hitler. Qual não foi a minha surpresa quando a máquina indicou neutralidade! Não é possível; eu jamais havia visto neutralidade perante tal foto. Capturei a imagem e passei para a próxima. Um vídeo de um ataque terrorista — infalível. E mais uma vez: neutro. Era evidente que algo estava errado. Não sem lhe causar certa dor, ajustei os eletrodos e tentei novamente. Mostrei-lhe fotos de velhinhas sendo conduzidas por jovens benfeitores pelo meio da rua. Nada. Jesus Cristo, nada; Judas, nada; Lúcifer — ele próprio, barba feita — tampouco lhe gerou qualquer estímulo agradável ou desagradável. Nem mesmo a tigela de sagu lhe causou qualquer ânsia. O velho era uma rocha.
Comecei a ficar preocupado e sem grandes esperanças. Por mais que o quisesse ajudar, era obrigatório que assinasse e publicasse os resultados do exame no Sistema Límbico. Resolvi poupá-lo da foto do papa e do filme da Xuxa. Inconformado, lhe questionei:
Seu Carlos, o senhor realmente é indiferente a todos esses rostos?
Gemidos ecoavam na sala do ácido, ao que se defendia uma carrasca: só mais um pouquinho, dona Ângela; ninguém mandou pegar marido de amiga! Só mais um pouquinho, lembre que a dor é só a memória de um corpo que já nem existe mais!
Seu Carlos ainda não respondia. Lembrei que lhe havia pedido silêncio.
Pode falar agora, Seu Carlos.
Pode?
Pode. O senhor não se comoveu com nada que lhe mostrei?
Um silêncio grosseiro se fez valer nos arredores. Todos queriam saber da primeira alma imune à Tomografia de Caráter.
Mostrou o quê? Eu sou cego!
E então eu aprendi, da pior forma possível, a consultar o prontuário dos clientes do inferno com a cautela das almas perdoadas.
Uma voz atrás de mim solicitava permissão para aplicar as seringas de gasolina. Concedi.