Tonante

Quando eu era criança, em algum ano que não sei precisar exatamente, tive uma vontade, um pequeno impulso, de tocar violão. Meus pais foram para uma loja de departamentos (tipo uma Casas Bahia da vida), e compraram um violão Tonante. O entusiasmo inicial se foi, quase tão rápido quanto começou. Ele ficou então vários anos guardado na parte de cima do armário, se transformando em um receptáculo de poeira e ácaros.

Salto para novembro de 2015. Decidi retomar essa pendência da vida. Comecei a ter aulas, e voltei a usar o violão para treinar. Meu irmão havia usado ele por um breve período de tempo. Colocou dois adesivos nele, e trocou as cordas. Antes, eram cordas de nylon. E agora, está com cordas de aço.

As minhas primeiras práticas eram repetitivas, e cansativas no começo. O violão estava sequer afinado. Eu fiz a afinação por volta da segunda ou terceira semana de prática. Os calos nos dedos apareceram. Cerca de 15 minutos bastavam, para que a leve dor aparecesse. Fui aprendendo os primeiros acordes, e o básico de ritmo.

Eu comecei a notar que, durante as aulas, o resultado costumava ser melhor do que quando eu fazia em casa. E também que eu tinha uma tendência de tocar com mais força do que a necessária. De início, eu atribuí isso ao fato de meu violão ter cordas de aço, o que o deixaria mais difícil de ser tocado. Continuava praticando. Com metrônomo, ouvindo música. Em cerca de três meses, conseguia tocar a minha primeira música, bem tranquila de ser aprendida. Meu irmão, que já tinha um tempo maior de prática no violão, achava a música “estranha”, ao ser tocada no meu violão. Eu atribuía isso à qualidade do violão. Pois havia pesquisado, e a Tonante é bem antiga, e não é extremamente recomendada pela qualidade de fabricação.

A coisa complicou quando vieram as pestanas. Elas simplesmente não saíam, por mais que eu tentasse. Quando fiz na aula, conseguia de primeira, fazendo da mesma maneira. O professor inclusive me emprestou um violão de cordas de aço, e foi bem tranquilo de fazer. Tive a certeza de que havia algo de errado com o meu violão. Na próxima semana, eu iria levá-lo para um especialista, um luthier. Seria talvez questão de ajustar a altura, a inclinação, ou algo do tipo.

O diagnóstico foi terrível. O violão estava empenado. Braço irremediavelmente torto. Não tinha ajuste de inclinação. Palhetas superiores afundadas. A única possibilidade era trocar todo o braço, mas isso custaria o preço de um violão novo. Era o fim de uma era. Eu imaginei que ficaria mais tempo com o Tonante. Que só depois, quando estivesse mais avançado, iria pensar em um segundo instrumento. Agora, a compra de um novo instrumento ganhou mais importância.

Pensando no assunto, fico um pouco surpreso. Eu passei mais de três meses tocando em um violão quase inutilizável. Só esbarrei nas limitações dele, à medida que a minha técnica avançou. Eu compensava o braço empenado com mais força nos dedos. Isso explica as dores nas pontas dos dedos, pois o esforço é em teoria maior do que em um instrumento perfeitamente regulado. Em termos de analogia, eu treinava técnicas de espadachim com uma espada enferrujada. Fazia arco e flecha com um arco distorcido. E, mesmo assim, consegui avançar. Claro que eu teria ido mais rápido se eu pudesse notar o avanço durante os treinos, e não durante as aulas semanais. Pois cada vez que eu tocava, parecia que eu estava fazendo com pouca força, e o som resultante sempre era estranho.

Além de aprender uma lição prática sobre como transformar um violão em berimbau, consegui notar também que, mesmo em condições não inteiramente perfeitas, o aprendizado ainda assim pode ocorrer.

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