“Ah, você está vendo só o jeito que eu fiquei, e que tudo ficou…”

No próximo dia 12 de junho completarão vinte anos que perdi minha avó materna, Dona Celita (sim, no dia dos namorados).

Vinte anos.

Há seis anos, eu já tinha vivido mais tempo sem minha avó do que com minha avó. É uma constatação óbvia, clara, mas eu acho profundamente injusto que, ao mesmo tempo em que os anos que passamos juntos seja um conjunto finito, aqueles que não estivemos próximos acumulem-se a um rumo indefinido.

Claro, quando digo de com e sem digo de algo físico — a psicologia clínica nos ensina que algumas pessoas estão presentes na sua ausência. Complexo? Nem um pouco: imagine uma pessoa criada sem o pai, que (como tantos) abandonou a família. Ao mesmo tempo, em sua casa era um recurso de linguagem comum dizer: “quando seu pai estava aqui, as coisas não eram assim” ou “se o seu pai estivesse aqui você ia ver” ou ainda “quando seu pai voltar, as coisas vão se ajeitar”. Perdido no mundo, aquele pai encontra-se ausentemente presente naquela família, na criação daquele sujeito: quase como um bicho-papão, cuja presença mudaria completamente o rumo do jogo.

Eu sempre uso imagens da Tia Nastácia (Jacira Sampaio, que morreu um ano depois de minha avó) da versão da década de 1970/80 pra representar Dona Celita, por conta da semelhança.

Numa definição rasteira, o presente na ausência é aquele que, não estando fisicamente presente, o está na memória, individual ou coletiva, do(s) sujeito(s).

Pois minha avó é presente na ausência há vinte anos.

Eu era um adolescente quando um aneurisma levou ela de nós. A tirou de mim.
Isso quer dizer que todos os grandes momentos da minha vida, minha formatura na faculdade (a segunda pessoa na família a fazê-lo!), a construção da minha carreira profissional, o nascimento de minhas sobrinhas, meu casamento, meu mestrado… nada disso ela viu. Mais do que isso, eu não pude lhe contar nada disso — ao contrário, passei por todos estes momentos imaginando quais reações ela teria. Será que se incomodaria d’eu escolher a psicologia, essa ciência de mexer com doido? Será que se assustaria quando entrei para a polícia? Será que ela ia subir em árvore, entupir de fruta e doce a Duda como fez comigo quando eu tinha a idade dela? Com quantos anos será que ela pararia definitivamente de me dar aquele puxão na orelha que eu sentia que ia descolar a pele da cabeça?

O episódio de sua morte foi assim (ao menos é assim que me lembro. Os fatos podem contradizer a memória mas, neste caso, pouco importa): era uma terça-feira quando ela teve um AVC e foi internada. Houve uma pequena melhora na quarta, mas ela não chegou até a quinta-feira. Por que isso está assim, marcado em ferro, na minha memória? Porque eu lembro dos sentimentos: o susto na terça, um suspiro na quarta, antes mesmo que eu tivesse a real dimensão do que se dava, uma promessa de visitá-la na quinta (só se podia visitar no hospital às terças e quintas) que não se cumpriu.

A morte de minha avó me fez, nas palavras daquele samba do João Nogueira, “trocar de mal com Deus”. Ficou a promessa de um abraço que eu não dei. Ficou uma despedida que eu não pude dar. Nesses vinte anos, inúmeras vezes fantasiei que aquela quinta-feira chegava e a sua chegada mudava tudo, abria espaço para um mundo que eu não pude viver, de acontecimentos e emoções que compartilharíamos: ela poderia ver o Cruzeiro levantar mais uma Libertadores naquele ano. Conquistar três campeonatos brasileiros depois. Passaríamos apertados em 2011, sofreríamos aquela final (provavelmente ela quebraria mais um radinho) em 2009. Ela puxaria a minha orelha ainda um sem número de vezes. Eu comeria o seu pé-de-moleque feito na pedra da cozinha. E pediria a benção. Muitas vezes, todas as vezes.

Escrever este texto agora me dá a impressão de que o escrevi repetidas vezes nos últimos vinte anos. Talvez eu saiba escrever por (e para) isso, para tentar expurgar essa dor que se repete em cada vacilada, em cada lembrança fortuita.

Uma lembrança fortuita fez nascer este texto, prematuramente nascido quatro meses antes do esperado. Veio na forma de um vídeo que Flávia compartilhou. Na descrição, lê-se o seguinte:

Avó estava internada se tratando de um câncer e na volta para casa resolveu fazer uma surpresa para netinha, olha no que deu (Emocionante)

Na emoção da menininha, aninhada naqueles braços pretos, fortes iguais aos que minha avó tinha, senti a falta do abraço que eu não dei. Um vídeo tão poderoso, uma emoção tão genuína, tão franca que a cada vez que a garota se afastava para contemplar a avó meu coração se afastava também, incrédulo (“Será ela mesmo?”), como se fosse comigo (“A senhora voltou mesmo? É real?”).

Revi o vídeo algumas vezes — vi-o pela primeira vez no trabalho, no meio do expediente e precisei me segurar, para conter os olhos marejados, transbordados da humanidade que emana desses pouco mais de um minuto. Da verdade desse encontro entre a menina e a avó, transbordado pelo olhar feliz, pela urgência do abraço… transbordado pela saudade que eu também sentia.

Este é um texto egoísta. Não podia deixar de ser, porque eu queria falar da saudade que minha avó me causa. Essa saudade que só se poderia aplacar com um “Vó, que saudade”, seguido de um abraço muito apertado. Desculpem a mesquinhez…

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