Aquele poema do Manuel Bandeira
Desci do ônibus e fazia frio.
Não sei o que deu em Belo Horizonte, de uns dias pra cá dá cinco da tarde começa um vento frio vindo ninguém sabe de onde. Eram dez para as oito e eu sentia o vento passando em cada buraquinho das mangas da minha blusa de lã.
Coincidência kármica, Gonzaguinha me repreendia um comportamento geral no meu ouvido cansado de um dia de trabalho. O governo atrasando o salário, aquela universidade também não pagou. Tem boleto atrasado, geladeira no módulo básico: pão, ovo, alho, cebola, água (não, cerveja não).
Descendo a rua, um barulho de metal corta meu transe: na outra calçada, num trecho mais escuro, um homem corpulento revira, de pé, os sacos de lixo. A seus pés, um cachorro.
Um cachorro que se move de um jeito estranho para um cachorro.
O cachorro, meu deus, era um menino.
O homem revirava o lixo, encontrava latas de alumínio e as jogava ao chão. O menino, num agasalho de moleton vermelho tão largo quanto o boné na cabeça, se move pra lá e pra cá como uma aranha recolhendo-as. Amassa aos pisões, joga num carrinho de mão, recomeça.

Frio. Comportamento Geral. Cansaço. Geladeira vazia. Uma aranhazinha de no máximo seis anos de idade.
Arrisco a futurologia: o que vai ser daquele menino? Oito horas da noite de uma quinta-feira fria na região noroeste de Belo Horizonte, catando latinha aos (sei lá) seis anos de idade?
Futurologia não, aqui começa a fanfic: talvez o homem revirando os sacos de lixo seja seu pai. É um alento, nas classes menos abastadas, a figura paterna é mais rara que dinheiro de sobra. Talvez o pai tenha passado o dia num trabalho formal, que apesar de formal paga pouco, por isso à noite ele sai catando lata. Talvez o menino passe o dia numa boa creche pública. De noite, infelizmente, catar latinha é também conviver com o pai.

Enlevado na ficção, o psicólogo em mim diz que a força dessa interação pode colocar o menino fora da rota de repetição: em algum momento o pai lhe proibirá mesmo aquela pouca convivência — “Você não vem comigo mais não, filho. Você fica em casa e estuda.” Avanço a fita, o menino agora adulto, não mais aranhazinha. É um corvo sorridente vestindo beca. Desce o pano, sobem os comerciais. VIVA! BRAVO! A platéia de pé, palmas.
Mas em mim há um policial sentado há anos no precipício da desesperança. Capacidade imaginativa zero. Polícia. Polícia. Polícia.

Talvez algum dia ofereçam um mês de latinhas catadas no frio só pro menino-aranhazinha levar meia dúzia de pecinhas braco-amareladas daqui pra lá. E depois mais e mais pra mesma coisa.
Talvez esse dia chegue e ele diga não.
Mas é quinta-feira, dali a pouco é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será.
Todo dia será dia de resistir. Frio. Comportamento Geral. Cansaço. Geladeira vazia. E se um dia…

E se.
Basta um “e se”.
E se eu não precisar mais catar latinhas? E se eu pudesse vestir roupas que me coubessem? E se meu pai não precisar mais catar latinha? E se a comida puder ser farta, se a geladeira não precisar mais ficar vazia, se eu não precisar mais ficar de quatro na rua escura?
E se? E se? E se? E se? E se?
E se o bicho, meu deus, se revoltar de ser bicho?

