Precisamos suportar Fernando Holiday

Há meses este texto começou a surgir na minha cabeça. Acho que foi logo depois que Fernando Silva Bispo, o “Fernando Holiday” do Movimento Brasil Livre (MBL. Não riam) conseguiu ser eleito vereador por São Paulo.

Caso alguém não conheça, uma rápida digressão: o MBL é um movimento político, auto-intitulado apartidário e representante de uma “nova política”, fortemente neoliberal. Tem como suas principais lideranças uns rapazes na casa dos 20 anos, como o próprio Holiday e Kim Kataguri, ambos de SP. Candidato pelo partido Democratas, o DEM, Holiday conseguiu se eleger vereador pela cidade mais rica do país. Suas plataformas de campanha? Redução do estado, escola sem partido e combate ao que ele chama de “vitimismo” das populações negras e LGBT. Como atos iniciais de seu mandato, afirma (digo “afirma” porque não procurei saber se o fez de fato) ter protocolado projetos com o objetivo de terminarem com as cotas raciais, o feriado do dia da Consciência Negra (20/11) e outras políticas afirmativas dentro do município de São Paulo.

Não só essas medidas como a própria campanha de Holiday à câmara foram alvos de duros protestos. Para um número considerável de pessoas, todas elas progressistas, ver um negro (posteriormente Holiday se reconheceu homossexual) defender pautas radicalmente fora do que se esperaria de alguém desse tipo foi assustador. É incômodo mesmo: esperamos que Bolsonaro’s e congêneres, homens brancos heterossexuais defendam esse tipo de bandeira. Quando alguém do “nosso” time, negro e homossexual faz isso, nossos cabelos (ao menos daqueles que ainda os têm) se arrepiam. Daí o ataque desceu com força e seguiu essa linha aí:

Entendo a revolta. Participei dela. Numa redução estúpida, vejo Holiday jogando contra o patrimônio, chutando contra o nosso próprio gol. Porque diferente do Holiday, sei que na madrugada todos os pardos são pretos. Sei que mesmo sendo policial há mais de dez anos, ainda vou sofrer abordagem da polícia por andar “mal vestido” (camisa de time de futebol, bermuda, sandália e turbante) no meu próprio bairro. Talvez ele não saiba disso — sim, dou-lhe o benefício da ignorância.

Entretanto… me dei conta que os ataques “progressistas” a Holiday também eram… profundamente racistas. Há uma camada de racismo óbvia: aquela que emparelha o vereador a um capitão do mato, um “negro da senzala”, que opõe negros e negros.

Essa pressupõe que “ser negro”, condição fenotípica, involuntária, traz em si automaticamente consciência de classe, condição sócio-cultural e consciente. Não traz. Uma coisa é ser negro por efeito da genética. Outra muito diferente é ser negro por efeito social: a primeira é condição necessária para a segunda, mas o inverso não é verdadeiro.

Porém, os ataques a Fernando Holiday têm também uma camada de racismo não óbvia e, no meu entendimento, ainda mais perversa, porque irmana progressistas conscientes e Fernando Holiday num mesmo pacote, nos coloca de mãos dadas: o racismo que homogeniza negros e negras, LGBT’s de todas as cores.

Dizemos “como ele pode ser negro e pensar assim?” e concluímos: “que negro imbecil!”.

Há negros que são imbecis. Há negros que não são. Há negros que gostam de música clássica. Há negros que gostam de funk proibidão. Há negros que são imbecis e gostam de música clássica. Há negros que não são imbecis e que gostam de funk proibidão. Tem negro que é ladrão. Tem negro que vive de pagar prestação. Tem negro no PCC, tem negro na polícia. Tem negro que bate tambor, que veste roupa preta na segunda-feira e branco na sexta. Tem negro que carrega consigo uma lasquinha da fogueira santa de Israel. Tem negro que põe o copo d’água em cima da Tv. Tem negro que gosta, tem negro que não.

Resumo? Tem negros e negras de todos os tipos. Somos uma população. Se me permitem o trocadilho, há negros de todas as cores. Seria lindo se todas as mulheres e homens negros do “Novo Mundo” fossem progressistas, combatentes do racismo estrutural nas nossas sociedades, historicamente conscientes? Seria. Seria? Não sei. Acho que não. Me parece totalitário. Me parece post-mortem: só o não vivo pode ser homogêneo, constante, plenamente previsível e mapeado. Essa é uma característica dos seres vivos: a diferença, a mudança.

Isso quer dizer que não me revolto com as bobagens que o Sr. Fernando Silva Bispo diz? Não. Me revolto sim. Mais do que isso, me entristeço. Acho super interessante que ele possa se apresentar nas plenárias exibindo um belo e vertical cabelo blackpower, e fico puto da minha cara quando ele deslegitima a briga de quem sofreu e sofre preconceito por conta do cabelo que tem, por exemplo.

Mas engulo em seco. Se quero que nós, enquanto população, sejamos reconhecidos e respeitados, compreendidos como sujeitos únicos, diversos e complexos, preciso engolir Fernando Holiday. Mais do que isso, preciso respeitá-lo. ~Pausa. Respira fundo~ preciso mesmo suportá-lo. Não no sentido de tolerá-lo, mas no sentido de… oferecer suporte.

Não é fácil não, talvez seja até contra-intuitivo, mas como militante negro, eu não posso (ninguém pode, mal aí) me arvorar o direito de negar a Fernando Holiday o direito de ser babaca. Isso é a mesma coisa que lhe permitir cometer evidentes injustiças? Não, é claro que não. É combater o seu discurso com outro discurso. É atacar o seu problema, não a sua pessoa. Fernando Holiday é um babaca. Mas negros, brancos, heterossexuais, homossexuais, bissexuais, a todos nós o direito de ser babaca permanece validado pelas noções mais básicas de direitos fundamentais: a liberdade de pensamento. Porque nenhum de nós pode se auto-declarar militante anti-racismo e, com essa mesma boca, dizermos que alguém não pode ser babaca por ser negro (ou gay. Ou lésbica. Ou trans. Você entendeu).

Porque senão, ora! Me parece que seremos racistas. E pasmem: usando exatamente o mesmo mecanismo de quem profere frases do tipo “todo preto é…. (insira aqui um atributo negativo qualquer)”.

UM ADENDO

(porque parece que algumas coisas não ficaram claras)
Repare que quando digo “suportar” Fernando Holiday, digo suportar o sujeito. Seu discurso (que é tantas vezes criminoso, quase sempre nocivo) deve ser combatido. No campo do discurso, sem usar das mesmas armas que não queremos apontadas para nós. Porém, eu acredito que o combate ao seu discurso não pode se dar em nenhum momento pela via do silenciamento, porque se o fizermos estaremos agindo como os que combatemos. A questão é entender que a dissonância sempre existirá. E só a venceremos criando, e dando espaço e engrandecimento ao nosso discurso em tal volume que o discurso dos Holidays da vida se tornarão irrelevantes: serão proferidos, mas serão tão abjetos, tão descolados da realidade, que não haverá quem lhes dê ouvidos. Fim.

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