aí meu pai me mostrava umas revistas Pleibói, c'umas loiras magras e peitudas e tal...
tipo, mano, eu não entendia aquilo, mas me era apresentado como algo bom, uma parada legal.
ok.
loira magra peituda. 
as loiras peitudas chegaram junto com a Turma da Mônica. 
eu tinha 4-5 anos, e era isso o que eu consumia: seios loiros e coelhadas.
eu queria ser igual o Cascão: porquinho (releve, eu era criança), corinthiano e maloqueiro. o Cascão era o melhor.
mas tinha os seios ali. eu tinha que olhar pros seios.
ok, eu olhava.
falou pra olhar, eu olho, oras.
também me falaram que seios eram legais e que eu tinha que curtir seios. curti.
seios e Turma da Mônica.

tá blz, vamos ver o próximo capítulo: "um vídeo de casal namorando e se amando" que não era pra eu assistir, assim me disseram, pq eu era criança.
na capa do vídeo tinha uma das loiras peitudas.
esses vídeos sempre estiveram ao meu alcance. as Pleibóis e os gibis da Turma da Mônica também.
as meninas brincavam de Paquitas (também loiras, que também vi nas revistas) e Chiquititas; e os meninos brincavam de porradaria tipo Jaspion Jiraia FlashChangeman Shurato Cavaleiros do Zodíaco e as coisas todas que víamos na televisão.
normal, coisa de criança.
criança é curiosa e sabe usar vídeo cassete pros filmes da Disney e pq não também assistir os vídeos das loiras peitudas namorando?
assisti, oras.
e assisti muito.
muito.
muito, mesmo.
assistindo aqueles filmes eu me perguntava se as minas serviam como uma espécie de saco de porrada sexual (não tô falando de socos e chutes - ainda), porque assim elas eram apresentadas.
tinha uns lances meio extravagantes que eu não entendia, mas a mulher sempre tava por ali num papel meio que de manequim vivo pra atender às modas: cumshot, cumface, gang bang, anal, deep throat, cream pie, e outras mais.
em algumas produções umas minas (muitas) sorriam sem graça no final da cena.
elas sorriam sem graça.
algumas gritavam, e parecia dor. me falaram que era prazer, mas não parecia.
ok, eu era criança, não entendia.

tá blz, vamos em frente.
tá na hora de transar, né?
é...
mas como se faz isso?

"igual os caras dos filmes, mano!"

foi e é a didática da maioria dos homens (e mulheres): filmes pornôs.

uma vez meu pai me disse que sexo não era aquilo que as pessoas faziam naqueles filmes, mas aí eu já tinha assistido muitas daquelas aulas.
aí a gente vai transando e reproduzindo (ou tentando) aquelas poses e performances e se descobre um fracasso sexual. pq, pô, os caras dos filmes pornôs transam PRA CARALHO! OS CARAS TRANSAM MUITO!
e as minas? gésuis, essas transam 10 vezes mais!
ou 30 vezes mais!
elas engolem ou tomam banho de porra, escondem uns pinto gigante (vários, por sinal)...

"caralho, a mina transa tipo pornô!"

e assim eu conheci umas minas que transavam tipo pornô, e até pensava durante as fodas "acho que essa mina assistiu o mesmo filme que eu... porque eu tô fazendo o que aquele ator fazia e ela tá respondendo igual a atriz respondia...".
aí vem o álcool, o snif e tu acaba virando um personagem bukowskiado.
tem também os Snoop Doggy, as revistas Cláudia, os funk perverso, a pseudo libertação sexual feminina e toda aquela coisa que consumimos e reproduzimos.
mas o pornô é a didática mor.
é no pornô que nóis aprende à gozar na cara das minas, à transar igual uma britadeira...
à comer o cu das minas...
no filmes elas estão rindo (meio que sem graça), mas estão rindo. ou não estão?
comecei à lembrar e suspeitar daqueles sorrisos tímidos/envergonhados de final de cena dos pornôs da adolescência. na era do DVD tinha até uns com making of.
no making of elas não pareciam felizes, e quando pareciam felizes, soava "estranho".
aqueles sorrisos nunca saíram da minha cabeça.

aqueles sorrisos me deixaram meio assim, meio pensando, sabe?
aí lembrei dum filme que nunca assisti inteiro, do Nicolas Cage, que falava dumas paradas de sequestro e estupro pro lado underground da indústria pornográfica...
lembrei que nos sites pornôs (e até em comunidades do Orkut) tinha uns links escritos "raped" que meu inglês de MTV conseguia me traduzir.
aquele filme do Nicolas Cage não era viagem.
eu procurava por "blowjob", mas o "raped" tava lá.
sempre esteve.
fui deixando de consumir pornografia, às vezes por não ter acesso, às vezes pra não me sentir frustrado por não transar tipo aqueles caras lá, às vezes porque aqueles sorrisos sem graça voltavam nas minhas vistas.
ouvi umas histórias dum monte de minas da Ásia e do leste europeu e de vários cantos que eram sequestradas pra serem escravas sexuais inclusive na indústria pornográfica.
aí eu também soube dumas brasileiras que passavam por isso em outros cantos do mundo e, mano...
aquelas minas daqueles pornôs lá de idioma estranho...
elas não são atrizes, elas são escravas sexuais...
elas estavam lá, aleatórias, entre "black", "interracial", "glory hole" e outras categorias mais.
elas existem.
aquelas minas são reais.
elas são sequestradas e dopadas e violentadas e filmadas.
"ah, mas elas estão rindo no vídeo! tão gostando!".
tão, tão sim. tão cheia de heroína e de promessas que serão libertadas.
e a gente aqui, reproduzindo na tela do celular e na cama.
puxada de cabelo, tapa na cara, posições D'Soleil, sexo grupal com mina desmaiada...
a gente reproduz isso.
champagne nas minas igual tu viu naquele clip de trap tosco, chamar as minas de bitch pq aqueles meninos que fazem um rapzinho falam...
a gente reproduz isso.
whisky com água de côco, pra mim, tanto faz.
e senta senta.
tá normal.
você consome, você reproduz.
a gente violenta.

26/05/16

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