meu primeiro contato com o funk carioca foi através de uma coletânea, em vinil, chamada de Rap Brasil - acho que era esse o nome - lançada pela Som Livre.
acho que era esse o nome, e acho que foi lançada pela Som Livre.
1995? 1996?
por aí. 
uma irmã que me apresentou essa coletânea, e Racionais Mc's na mesma época.
nessa mesma época, na finada TV Manchete, a Furacão 2000 mantinha um programa que ia ao ar todos os sábados.
tocava pagode e funk, pelo que me lembro.
som de preto, som de favelado.
nessa mesma época teve um BOOM de grupos de pagode: Malícia, Sensação, Redenção, Os Morenos, Exaltasamba, Katinguelê, Grupo Raça, Negritude Júnior, Soweto, Pixote e, mano, vários outros.
quem veio primeiro e quem puxou quem não vou conseguir dizer agora.
(ah, teve o Art Popular também, claro...)
tive contato com os primeiros lançamentos da maioria dos grupos acima, antes deles se tornarem uma versão brasileira bem sucedida dum modelo aplicado décadas antes pela Motown, nos Estados Unidos: grupos de garotos vestidos de terno falando de sentimentos.

(não, não tô falando dos Bitous - que também seguiam um padrão da época, basta olhar pras bandas The Who, The Animals, The Kinks: gravatinha e lágrimazinhas cabelinho mop top e aquilo tudo lá)

versão brasileira bem sucedida do modelo Motown? é, ué: artistas negros vindos da periferia vendendo milhões e fazendo muito dinheiro.
se isso não é sucesso, me elucide, por favor.
nessa época a MTV ainda não tinha gourmetizado o Zeca Pagodinho, mas ele tava por aí desde a década anterior à dessa rapaziada.
vi o Art Popular fazendo ragga (antes do Black Alien. aliás, até o Axé Blond cantou ragga antes dele), vi o Soweto e o Katinguelê misturarem algumas coisas latinas meio mambo meio bolero meio alguma coisa, o Exaltasamba rasgar um partido alto com direito à viola e 7 cordas...
na MTV tocava Paralamas do Sucesso (ainda batendo na tecla do The Police), Raimundos (o Offspring brasileiro?), Planet Hemp (nossos Beastie Boys) e blá blá blá.
na tv o pagode não tinha muito espaço (se tinha) fora dos programas dominicais. em 1999, sob o deboche cantado dos Raimundos (meu cabelo é ruim, mas meu terno é de "lin"/vou ser seu "Salgadin", cê vai gostar de mim/se eu tocar no seu radin/chora até o fim, só pra rimar com in/pois se eu ganhar din din/cê vai gostar de mim/se eu tocar no seu radin), o Art Popular preparava o primeiro Acústico MTV de MPB (música periférica brasileira/música preta brasileira).
em São Paulo as rádios Transcontinental e 105 FM faziam o que as demais rádios e revistas e emissoras de tv (raras e contáveis excessões) não faziam: o pagode era lei.
o rap e o funk também.
quando Capítulo 4, Versículo 3 assustou o pessoal da tv à cabo, os Racionais já tinham traçado o Raio X do Brasil há tempos.
veio o maior time depois disso tudo aí.
a MTV cedeu espaço (pequeno, viu?), e a correria dos envolvidos com o auxílio da internet explodiram o bang.
uma coisa eu reparo desde lá atrás: o que vem do preto pobre é sempre tido como menor, é sempre alvo de piadas - até rolar um embranquecimento ou uma gourmetização da parada.
exemplos? o Cabal, mesmo cagando nos microfones, fez sucesso no rap.
o Rick Bonadio, cacete, lançou o "Dogão" no mercado, e também fez sucesso.
Jeito Moleque serve de exemplo também.
lixo musical é a definição mais comum - principalmente enquanto o negro estiver com o microfone na mão.
lá no boom do pagode a negada já ostentava uns carrão tipo como? Enterprise.
no rap o pessoal deu uma segurada na ostentação porque a sociedade ainda não tá preparada (e nem quer estar) pra ver negão andando de carrão e Hayabusa. 
os mlk do funk (aqueles que cresceram sem Caloi) já nem quiseram saber: botaram os abelhão de duas rodas nas pistas e BOLOLOLOLO HA HA!
o Criolo diz que à cada rap, uma vida salva, mas ele sabe que os números são bem maiores.
é mais ou menos a mesma idéia que os caras da Trilha $onora do Gueto dão no início da música "programado pra morrê" (escuta aí).
quer um resumo dessa idéia toda?
então, é uma só: os críticos e produtores musicais e seus consumidores desconsideram que o rap/pagode/funk salvam vidas direta ou indiretamente, seja através do empoderamento (pesquisa aí essa palavra, já que chegou até aqui) ou da criação de empregos (como diz um amigo, cada mlk zik do funk que ascende tira boa parte da quebrada da miséria: trampo de roadie, de segurança, promotor de eventos e td mais que envolve o showbizz do palco aos bastidores).
rap/funk/pagode são comportamentos, são retratos sociais, são grifes de roupas, são garimpos e produções musicais de qualidade e criatividade.
é som de preto e de favelado, e se eles tocam é porque ninguém aguenta apanhar calado.

04/05/16

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.