No Country for Old Men, ou Onde os Fracos Não Tem Vez - versão não solicitada aos irmãos Coen

Eu fui delegado desse bairro quando tinha 25 anos.
Difícil de acreditar...
Meu avô foi um homem da lei. Meu pai, também.
Eu e ele fomos delegados na mesma época; ele lá num bairro vizinho, e eu aqui mesmo.
Acho que ele sentia muito orgulho disso...
Só sei que eu sentia.
Alguns dos delegados da antiga nunca andaram informados, e muita gente não consegue acreditar nisso: o (Paulo) Telhada nunca usou o seu coração.
O (Conte) Lopes, antigo da corporação, também nunca usou o coração.
Sempre gostei de ouvir histórias do pessoal da antiga...
Nunca perdi uma chance de ouvir!
É impossível não se comparar ao pessoal da antiga...
Fico só pensando como eles agiriam hoje em dia...
Tem um rapaz negro que eu deixei ser linchado um tempo atrás... Eu não dei o flagrante, mas deixei o povo terminar o serviço com ele.
Alguns jornais diziam que ele foi confundido com um ladrão, mas os comerciantes locais se sentiram mais seguros e diziam que há muito tempo isso tava precisando acontecer com alguém, e se fosse o caso de suspeita, linchariam de novo.
Desejaram que o rapaz fosse pro inferno, e que chegaria lá em 15 minutos.
Eu não sei o que pensar disso. Não sei mesmo.
Os negros de hoje em dia são difíceis de se entender...
Não é que eu tenha preconceitos com eles...
Eu sempre soube que pra ser delegado não era preciso estar disposto à pensar, mas eu não quero ser imprudente e me meter com algo que não entendo.
Teria que por o meu cargo à prêmio.
Teria que dizer "tudo bem, vou respeitar o seu mundo...".
Bons tempos aqueles em que não havia direitos humanos...
A credibilidade e moral da polícia não era colocada em xeque. Respeitavam e acreditavam no nosso serviço. 
Me lembro do policial Otávio Lourenço Gambra, que chamávamos carinhosamente de Rambo...
Rambo cumpria sua patrulha religiosamente, todas as noites. Criado na igreja. Um bom homem.
Armaram uma emboscada pra ele que lhe rendeu cadeia.
Ele só estava cumprindo o seu dever...
Não sei o que esses negros tem de dizerem que são vítimas...
Meu avô tinha uma família em sua fazenda, 5 cabeças de negro, que ele tratava muito bem. Até o dia em que a negrinha da família acusou meu avô de currar ela, e ele pôs todos pra fora.
Hoje eles tem muitas liberdades, muita coisa mudou, e eles até se casam com brancos...
É muita ousadia.
Algumas famílias, não a minha, permitem que seus filhos se casem com negros.
E tem alguns negros que se recusam à casar com um branco e melhorarem de vida.
Oportunidade igual essa não bate à porta duas vezes.
Um rapaz matou uma mulher negra porque ela não queria se casar com ele. Eu acho que foi crime passional, mas alguns jornais pequenos daqueles que ninguém lê disseram que foi um tal de feminicídio com motivação racial.
Esses jovens...
Eu fico um pouco confuso, confesso, porque hoje eles argumentam...
Antigamente eles apanhavam calados, o que era direito deles.
Eles são inteligentes, articulados, e eu estou cansado...
Nas manchetes eu vejo que alguns estão conseguindo entrar na faculdade através de um sistema baseado em compaixão e dó...
Os tempos estão mudando, eu acho...
Não consigo acompanhar.
Preciso visitar a fazenda do meu falecido avô, cavalgar...

...

Não ando dormindo bem.
Tive sonhos...
Sonhei que tínhamos voltado aos velhos tempos...
Eu estava atravessando a cidade à noite... 
Fazia frio e tinha sangue no chão...
Meu pai passava por mim à cavalo, ele estava enrolado em uma manta branca e carregava uma tocha na mão e me chamava.
Como fazíamos antigamente.
Aí eu acordei.

02/06/16