O que são negócios sociais?
Bem, se você está lendo isso é porque realmente se interessa pelo assunto e talvez tenha vontade de realizar algo que ajude outras pessoas. Os problemas do mundo devem mexer com você e te deixar pensativo sobre o que e como fazer para ajudar. Comigo é assim.

Talvez você esteja lendo porque é o primeiro texto que escrevo no Medium.

É algo que eu já tinha escrito. Dei uma melhorada e vou disponibilizá-lo aqui.
O termo negócio social chama atenção.
Para darmos os primeiros passos em direção à eles quero colocar um dado histórico, resumido:
A década é a de 70. O professor e economista Muhammad Yunus, de Bangladesh, inconformado com a pobreza extrema no seu país, decide testar um novo modelo de empréstimos bancários: o microcrédito. Tirando do seu próprio bolso ele começa a emprestar pequenas quantias ( 1, 2, 5 dólares) para algumas mães de família que sabiam o que fazer com o dinheiro: comprar material, produzir algo e vender.
Ele viu que dava certo. As mulheres conseguiam pagar de volta, emprestavam um pouco mais e aos poucos iam aumentando sua renda e a da sua família, o que impactava na educação de seus filhos, na alimentação de todos e no empoderamento da mulher como chefe do lar. Todo juros que ele recebia era destinado aos empréstimos para outros e tinha o único objetivo de maximizar o impacto que estava ajudando a causar.
Então ele institucionalizou isso, padronizou as operações e criou o Grameen Bank. Referência no mundo, o banco tem 99% dos seus empréstimos pagos pelos clientes, a maioria mulheres. Já operam em diversos países, inclusive em países desenvolvidos, e já inspirou milhares de operações similares. Todos os trabalhadores do banco recebem salário de mercado e nenhum lucro é distribuído, apenas utilizado para reinvestir no banco. Yunus se tornou o Banqueiro dos Pobres.
Mas vamos começar a abrir esse tipo de negócio e identificar todas as suas características e alguns dos seus requisitos. Para isso, considere esse fato: a pobreza é uma realidade muito presente. 3,5 bilhões de pessoas vivem com menos de 2,5 dólares por dia. E a tradicional divisão entre Estado, empresa e sociedade parece não resolver o problema.
As organizações sociais sem fins lucrativos tentam. Mas muitas vezes sem verba, sem receita, e dependendo totalmente de doações, essas organizações estão passando por dificuldades e não conseguem sustentar suas operações em longo prazo. Na maioria das vezes falta o know-how de gerenciamento para elas.
Do outro lado, as empresas tradicionais estão procurando abordar de maneira mais ativa os desafios enfrentados pela sociedade, até porque hoje isso parece estar atrelado ao que o cliente quer e espera. Conhecimentos gerenciais e de negócios podem ajudar essas corporações a atingirem seus objetivos sociais mais facilmente.
SURGE ENTÃO UMA MISTUREBA, OS NEGÓCIOS SOCIAIS! São negócios como qualquer outro, inseridos em um mercado. Têm concorrentes, vendem algum produto ou prestam algum serviço, têm receita, pagam impostos e buscam o lucro. Mas o principal objetivo desses negócios é criar e causar impacto social positivo, identificando problemas e criando soluções. (Necessidades primeiro, oferecer solução vem depois) E por isso o lucro é importante, já que torna toda a operação sustentável, independente de doações, tornando esses negócios capazes de cobrir seus custos e com possibilidade de ser escalado a medida que se reinveste o lucro na empresa.

A tarefa inicial de um negócio social é então identificar esses problemas sociais (educação, fome, saneamento, infraestrutura, falta de esperança, desnutrição, etc.), que são muitos e que variam de região para região. Depois se cria uma solução. Simples? Não. É aí que começa toda a complexidade.
Primeiro, devemos levar em conta todos os costumes do lugar, a religião, o padrão de comportamento familiar, as tradições e tudo que envolve a vida das pessoas que estamos querendo ajudar. Quem disse que eles querem ajuda? Quem disse que queremos oferecer é o que eles esperam receber? Aqui entra um requisito: parcerias e alianças no local. Seja com uma pessoa, uma ONG, um projeto. Essas parcerias podem direcionar os esforços e ajudar a maximizar o impacto. É bem provável que a identificação das reais necessidades do local seja mais acertada.
Depois, nossa solução deve ser viável e precisamos bancá-la com um modelo de receita. Precisamos vender algo e receber dinheiro para não ficar dependente da boa vontade de pessoas ou empresas enquanto esperamos suas doações. Outras dificuldades surgem. Nosso produto deve estar em sinergia com a necessidade do mercado, com preço adequado e exposição. Princípios básicos de empresas tradicionais.
Com isso, temos um modelo de receita e um modelo de impacto social.

Dentro do modelo de impacto social, outros requisitos:

1- Medir o impacto causado: criar métricas e indicadores para validar o que se está fazendo. O objetivo está sendo alcançado? Da melhor maneira?

2- Adaptar e melhorar: estar sempre atento as falhas do modelo. Ou a oportunidades. Exemplo: na Hevp, nós doamos uniformes para cada camiseta vendida. Começamos então a produzir esses uniformes no local. Dessa maneira, direcionamos investimentos em produção no local. Além disso, no objetivo agora é produzir com as mães dos alunos. Aumentamos o impacto que causamos ainda mais.

3- Escalar. Escale suas vendas, escale sua empresa e escale seu modelo de impacto social. Escale seu lucro. Escale sua renda enquanto empreendedor social. A margem em um negócio social é muito menor, por isso escalar é imprescindível.

E apesar dos negócios sociais ainda serem um conceito novo, eles claramente tem um potencial muito significativo. No futuro, conforme seus benefícios e melhores práticas fiquem mais conhecidos, é possível que os negócios sociais se tornem um setor cada vez mais forte na economia global. Espera-se que os negócios sociais complementem organizações nos setores público, privado e filantrópicos.
Hoje o conceito de negócios sociais se internacionalizou. Há aqueles que, como Yunus, não distribuem lucros para sócios e há aqueles que acreditam ser justo lucrar e viver apenas de seus negócios sociais.
Depende de você. E acredito mesmo que quando se tem vontade, deve tentar. Planejamento é bom, mas planejar demais pode te levar a não fazer. O mais legal é começar pequeno e ir estruturando. Para mim esse é o primeiro requisito de qualquer negócio: botar o pé.