Aquela tal vez

Em que se dobra as incertezas. Em que se anuncia mau tempo. “Fim de tarde com pancadas de chuva no litoral”, ela diz. Não bobeou em tirar os pés da rede. Era fingimento aquele descanso todo que lhe tomou a cabeça. Encostou o corpo na malha, sentiu a voz falha, caiu de novo num vazio que se fez casa. Lembrou do talvez que veio subitamente aos lábios. Do gosto incerto que forrou a garganta quando encontrou caminho livre pela frente. Escolhas têm sobrenome de pertubações para ela. Labirinto, “deuses me livrem”. Nunca escolheu nem um santo, rendeu-se a “librianices”. Notou enquanto passava um carro pela rua. Quase pôde ver os riscos na areia ainda seca do percurso traçado pelo barulho do motor.

Sua mente seguia de arranque. Não se distraiu nem com o borrão de cores do beija-flor, nem com o canto do vento pela janela. Mas a cabeça continuava a refazer caminho naquela fotografia da memória. Quase pôde sentir a frieza do tempo que se fechou. “Por que você não diz nada?”. Aquela interrogação caindo sobre o seu colo, aquele desejo de largá-la pertinho do mar agitado. A onda nunca levou a sua dúvida. Deixou o rastro do sal beijar os pés de quem nunca foi cantinho para decisões. Desfez tantas pegadas. Numa tal vez em que as pancadas de chuva no litoral apagaram as cores do fim de tarde. Era um cinza molhado, mente borrada, coração na boca. Reencontrar-se naquele instante balançava a rede de suas lembranças num sopro de chuvisco e vento. Aqui e lá. E de novo, de novo.

Anunciava tempestade onde era verão. Tanto a se dizer, um tico a escolher. Talvez esperasse um pouco mais, deixasse o céu terminar de chorar. Talvez, no passar dos minutos, a noite sorrisse estrelas e fosse fácil encontrar um destino ali. Eu vendo, ao longe, a garota virar mar, afogar o mundo para caber num enfim. Talvez tenha esbarrado em respostas. Não se sabe ao certo que fim levou o seu labirinto. Era aquela a tal vez em que lembrou do litoral.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Lucas Ericlyn’s story.