Nesse cantinho, canto triste um conto

Falei das malas que deixei sob a cama. Ele me ouvia como quem quisesse contar de um dia qualquer em que eram seis da noite, a música na rádio, o vazio ensurdecedor. As malas, eu dizia. E o meu olhar se escondia. Era da janela para fora o seu atentar. Um cigarro aceso cortando os lábios, o caminho que a sua mão percorria sobre os cabelos, e meu coração valsando sobre roupas dobradas e coisas mais.

Morávamos onde a nossa pele se tocava como brasa. Era um tempo de algum tempo atrás, a voz se revelando em meus encantos e eu me fazendo refém. Quem dera eu pudesse isolar meu corpo da culpa de entregar em mãos beijadas o tudo que era meu. Terei perdido as horas se me entregar a um abandono e caminhar sem olhar para trás para o que viria um dia a ser passado em minha história. Era, de tudo, o que eu menos desejava.

A vida ia cobrando moedas de coragem do meu bolso vazio e eu deixando tudo assim, no vermelho.

Vermelhava como tudo que era vítima do seu toque como um derramar de sangue sem torniquete. E em seu silêncio de ruidosa despedida, fui desatando os meus nós em desamor. Nós. Agora dois tão sozinhos. Sem muito o que contar, sem muito o que se entender. Só um apelo que desfiz à beira-boca. Deixei no interior, senti queimar e, num instante, abrasei.

Das minhas mãos, soltaram-se palavras num grafite rasgando brancura de papel. É de coração, eu disse num silêncio que só eu mesmo poderia ouvir. Ele contemplava sozinho algo que a noite escondia de mim.

Quando dobrei aquele pedacinho em mim para deixar como um beijo em suas mãos, o cigarro tinha por fim apenas cinzas, os seus cabelos caíam sobre os olhos e a solidão tocava o seu ombro. “Tristes. Os dias serão tristes”.

E ali, eu pude concordar. As noites também.