Impacto

[Conto baseado neste Writing Prompt. Você pode ler as histórias de outros autores clicando no link.]

O leve trepidar do veículo em movimento era a única coisa que o mantinha longe da completa distração. Seus olhos cruzaram a cela móvel, observando as paredes de metal de mais de um metro de espessura, sem janelas, apenas uma pequena grade de ventilação que passava por diversos filtros antes de ir para o exterior do veículo. No banco paralelo ao seu estavam dois guardas. Nenhum dos dois sequer se movia, e seus dedos repousavam sobre o gatilho dos pesados rifles, sempre apontados para o seu peito. Olhou para baixo, fitando as próprias mãos. Algemas grossas e pesadas cobriam seus pulsos, mantendo as mãos juntas e com movimentos extremamente limitados. Não eram algemas quaisquer, eram as chamadas Nulificadoras, feitas especialmente para criaturas como ele.

Feitas para meta-humanos. Naquele caso, um supervilão.

Seu nome era Impacto. Ao menos seu nome de vilão. Havia nascido Claus Dodson, numa pequena cidade no Arizona. Aos dezesseis anos sua meta-humanidade floresceu. Aos dezessete roubou seu primeiro banco. Aos dezoito, fugiu da prisão estadual.

Ressurgiu aos vinte anos, já como Impacto. Num mundo de meta-humanos, Impacto era exemplar: seu dom permitia que pudesse manipular a energia cinética ao seu bel-prazer, podendo distorcer as leis da física no que toca à inércia e às forças de ação de reação. Ele precisava de apenas um toque da ponta de seu dedo para gerar um impacto tão intenso quanto uma colisão entre dois caminhões.

Poucos herois conseguiam lutar de igual para igual com Impacto. E menos ainda conseguiam mantê-lo em cárcere por mais de dois dias.

Isto é, até a criação das Nulificadoras.

Impacto voltou a si. Fitava as Nulificadoras. Lembrava-se de cada detalhe daquelas malditas algemas. Elas eram o lembrete da sua prisão definitiva. Eram o lembrete de que fazia mais de três anos desde que fora jogado em uma cela de metal espesso, assim como aquela cela móvel que o carregava sabe-se lá para onde.

Ouviu um leve sopro à sua esquerda. Era o ar comprimido permitindo que uma porta deslizante se abrisse, dando acesso para o corredor que levava ao cockpit do transporte. Um homem engravatado carregando uma pasta adentrou, acompanhado de um guarda igual aos outros dois da cela, que prontamente se levantaram. A porta se fechou.

Impacto ergueu os olhos, observando o sujeito. Parecia mais um homem de negócios, desses que se alimenta da burocracia e das almas dos empregados menos afortunados. Um homem branco. Sempre é um branco.

-Dodson. — O homem disse. Impacto continuava a observá-lo, como se não tivesse ouvido seu nome.

Um dos guardas ameaçou dar uma coronhada em Impacto, mas o engravatado interviu, erguendo uma mão trivialmente.

-Não. Ele não pode ir machucado.

Ergueu uma sobrancelha, confuso. Estava acostumado com o abuso dos guardas.

-Bom, já que você não vai falar, permita-me começar o briefing, Dodson. — O sujeito disse, abrindo a pasta e retirando alguns papéis, como se precisasse ler um script. — Eu sou um representante da Fundação Make a Wish. Temos um trabalho para você.

-Trabalho? — Impacto indagou. Percebeu o sorriso de canto do representante e castigou-se mentalmente por ter permitido demonstrar seu interesse.

-Não se preocupe. Tenho certeza de que será fácil para alguém com sangue frio como você.

Impacto ouviu atentamente ao briefing. Não entendia aonde queriam chegar com aquilo.


O caminhão parou. Outros dois veículos que faziam sua escolta pararam ao lado, descarregando mais uma dezena de soldados. As portas traseiras pressurizadas se abriram lentamente. Impacto sentiu pela primeira vez em muitos anos o aroma do ar fresco.

Caminhou calmamente em direção da porta, cercado de guardas e acompanhado pelo representante da fundação. O ar leve e agradável do fim de tarde deu espaço para o nauseante odor hospitalar. As paredes de cores entediantes, prontuários depositados em portas de quartos. O local parecia vazio, mas ele sabia bem que havia sido previamente evacuado pela sua presença. Poucos funcionários continuavam ali. A maioria era muito provavelmente composta de agentes do governo disfarçados, treinados para cumprir aquele serviço sem criar suspeitas.

Pararam diante de uma porta branca, assim como todas as outras. Olhou para o representante, que fez um sinal para que ele esperasse ali. Deu duas batidas à porta.

-Suzie? Podemos entrar?

Uma voz infantil empolgada, porém com um claro tom de fraqueza, respondeu que sim.

A porta se abriu, e Impacto foi levado para dentro do quarto.

Sentiu o mundo perder sua gravidade por alguns instantes. Sabia que era algo psicológico. Sabia que era um monstro sem coração. Mas ainda assim sentiu uma ponta de dor em seu âmago.

Diante dele estava uma grande cama hospitalar, rodeada de aparelhos. No centro da cama, uma garotinha que não devia ter mais que onze anos. Tinha um sorriso imenso, apesar do rosto magro e a cabeça raspada. Os olhos castanhos brilhavam, mesmo estando tão fundo naquele rosto seco pela doença.


-Puxa vida, você veio sem o seu uniforme? — Suzie resmungou, cruzando os braços.

Impacto olhou para baixo, lembrando que estava vestindo o uniforme cinza da penitenciária. Sentiu-se levemente embaraçado.

-Mas não tem problema. Eu estou muito feliz de te conhecer, Impacto!

-Feliz? — Impacto indagou, olhando para a menina. Era magra e pálida, mas conseguia perceber que outrora Suzie fora uma criança corada e cheia de energia.

Pensou em como o mundo podia ser tão desgraçado em dar poder quase infinito para um monstro como ele, enquanto matava uma criança com uma doença incurável.

-É claro! — A voz de Suzie o trouxe de volta ao mundo real. — Eu finalmente estou conhecendo meu heroi favorito!

-Heroi? Eu não sou nada disso, Suzie…

-Ué, e você já matou alguém?

A pergunta da menina o deixou indefeso. Em todos esses anos ele havia cometido todo tipo de crime, mas jamais matara alguém. Por mais vilanesco que fosse, sabia que roubar uma vida era um crime que prisão nenhuma poderia compensar.

-Não.

-Então, eu soube há alguns dias atrás — Suzie disse em tom de segredo, e Impacto instintivamente aproximou-se da menina — enquanto via o noticiário escondida, que houve uma grande luta entre o Karmificador e a Justiça. E sabe o que houve? Ela matou ele. Isso é coisa de vilão!

Impacto concordou com a cabeça. A garota falou incessantemente sobre como havia acompanhado a carreira do vilão desde que se entendia por gente. Ficaram por duas horas conversando e tomando chá. A conversa foi interrompida vez ou outra por um médico que vinha trazer os medicamentos da menina, que tomou todos com bravura diante de seu ídolo.

Impacto fitou a xícara vazia por alguns instantes. Ouviu a voz de Suzie.

-Eu sei que vou morrer.

Ergueu os olhos. Esperava que a garota estivesse chorando, mas havia uma certa serenidade naqueles olhinhos.

-Mas não importa. Eu te conheci.

-Ainda não.

Suzie ergueu os olhos, confusa. Impacto estendeu as mãos, tentando ignorar a pressão das Nulificadoras.

-Prazer, Claus Dodson.

A garota colocou os dedos finos entre as mãos calejadas do criminoso.

-Suzanna Hernandes. Pode me chamar de Suzie.

Claus sorriu. A porta do quarto se abriu, permitindo a entrada do engravatado.

-Suzie, infelizmente Impacto já tem que ir embora.

-Sério? — A menina fez bico.

-Sim. Ele é perigoso, e mantê-lo fora da cadeia por muito tempo é um risco, inclusive para você.

-Ele não é perigoso. Ele é meu heroi. — Suzie retrucou. — Podemos fazer só mais uma coisa antes dele ir?

-Se não demorar muito…

A menina apontou para o gabinete ao lado da porta. Uma pequena câmera Instax repousava próxima ao bule de chá, agora vazio.

-Você pode tirar uma foto nossa? — Suzie pediu.

-Duas, por favor. — Claus interviu, surpreendendo o representante.

As fotos foram tiradas rapidamente. Suzie tomou uma, tremendo, e pegou desastradamente o estojo com canetinhas coloridas ao lado da cama, junto com um caderno. Entregou a caneta preta para Claus.

-Você pode autografar atrás?

Claus tomou a caneta, claramente tímido. Assinou da melhor maneira possível e permitida pelas Nulificadoras, um “para minha fã número 1 — Impacto” e entregou a foto para Suzie, que o abraçou.

Se despediram amuados, sabendo que não se veriam novamente.

A porta do quarto se fechou, deixando a sua única fã para trás.


O trepidar o caminhão o tirou do transe. O trepidar mais forte tirou os guardas do transe.

O caminhão capotando acordou a todos.

Impacto olhou para a parede onde estava seu banco, agora posicionada como se fosse o teto da cela. Os cantos deformaram-se lentamente e foram arrancados como se a parede fosse feita de papel. Uma figura imensa sorria, com a luz da lua em suas costas, o tornando uma imensa sombra.

-Impacto! — O brutamonte gritou, feliz. Pegou Impacto pela cintura como se fosse um boneco e o colocou no chão.

-Everest? — Impacto deu alguns passos para trás, observando o colosso que era Everest, um de seus parceiros vilões. Era um homem monstruoso, de quase cinco metros de altura. Devia pesar mais de três toneladas de puro músculo, e apenas meio quilo de cérebro.

Atrás de Impacto localizavam-se Gravita, a vilã conhecida por poder aumentar ou diminuir a gravidade de seus alvos, e .EXE, o tecnopata notoriamente conhecido por ter quase causado uma guerra nuclear.

-O que vocês estão fazendo aqui? — Impacto perguntou, já sabendo a resposta.

-Viemos te soltar, o que mais? — Gravita sorriu, flutuando em torno do vilão. — Assim que soubemos que você estava em transporte, sabíamos que era a chance de te salvar.

-Venha cá. — .EXE ordenou, tocando as Nulificadoras de Impacto. As algemas soltaram um leve gemido de baterias se desligando e se abriram, libertando seus pulsos.

Impacto esfregou os pulsos, sentindo sua força superior voltando ao corpo. Olhou para o lado e viu Everest arrancando as portas traseiras do caminhão. As mãos gigantescas puxaram os dois guardas, que gritavam de dor. Gravita pousou ao lado de Impacto, tocando seu ombro.

-Para comemorar sua vitória, vamos descontar todos esses anos de prisão nesses soldados, que tal?

-É uma ótima ideia. Assim também poderíamos eliminar quaisquer testemunhas. — .EXE complementou.

-E eu sempre quis te ver arrancando a cabeça de alguém! — Everest gritou, agitando os guardas como brinquedos.

Cerrou os punhos, sentindo a força de uma locomotiva se acumulando em suas mãos. Olhou para um pequeno pedaço de papel caído no fundo da cela.

-O que é isso? — Gravita indagou, manipulando a gravidade e trazendo o papel para si.

Abriu um sorriso irônico, olhando para Impacto.

-Ah, então foi pra isso que você saiu. Pra ver uma menina moribunda.

-E aí, Impacto? Ela morreu na sua frente? Foi que nem nos filmes? Aquela máquina fez uma linha reta quando ela morreu? — Everest soltou os soldados desacordados e agachou-se, olhando para a foto.

Antes que qualquer um deles pudesse reagir, Everest voou por centenas de metros, arrancando todas as árvores em seu caminho, ricocheteando no chão duas vezes e caindo desmaiado sobre um monte de entulho no ferro-velho próximo dali.

-Impacto? — .EXE mal terminou de falar, e o dedo de impacto tocou seu estômago. A força de um tijolo sendo arremessado atingiu-o em cheio, e o tecnopata também caiu desacordado.

-O que você está fazendo, seu imbecil? — Gravita urrou, se afastando do homem. Flutuou alguns metros acima e intensificou a gravidade em torno de seu corpo.

Impacto atravessou o campo de gravidade com calma. Seus pés se afundavam no asfalto, mas ele não parava de andar. Olhou Gravita nos olhos e segurou-a pela perna. Gravita podia sentir a gravidade agindo sobre o corpo de Impacto, que por sua vez puxava o corpo da vilã pela perna.

Trouxe a gravidade normal de volta e foi recebida com um puxão que a afundou no asfalto quebrado. A última coisa que Gravita viu antes de desmaiar foi Impacto perguntando aos guardas se eles estavam bem, e pedindo um novo par de Nulificadoras e que se apressassem e pedissem reforços logo.


Cinco anos se passaram.

O centro da cidade ardia em chamas. Discos voadores cortavam o céu, disparando raios de energia. Robôs gigantes atravessavam as ruas esmagando carros e pessoas. Dezenas de herois lutavam contra as máquinas com dificuldade, enquanto a colossal nave-mãe descia entre as nuvens, projetando uma sombra macabra sobre a cidade em ruínas.

Ele ajeitou os fones nos ouvidos. Estava ouvindo à rádio local. A repórter dizia em tom de pânico que a invasão acontecia em escala global, e o então chamado Império Galático Glok exigia que a humanidade se rendesse e entregasse seu planeta, recurso e campeões para a causa do Império.

-Alguns países encontram-se em estado de emergência, enquanto outros menos protegidos por seus herois já foram completamente eliminados. Há relatos de que as heroinas-símbolo do México, Rubra e Arcana, estão desaparecidas em combate. No Japão a situação está em controle, graças ao Careca de Capa. Ele disse, porém, que infelizmente não poderá auxiliar outros países, pois mesmo tendo eliminado as ameaças principais, muitas naves e robôs desgarrados continuam a assolar o solo japonês.

A voz da repórter foi cortada por um breve chiado. Interferência magnética.

-A Costa Oeste americana está sendo protegida bravamente por nossos herois e heroinas. Não temos números exatos, mas estima-se que as casualidades ultrapassem um milhão de civis e mais de trezentos herois.

A voz foi cortada mais uma vez. Não por interferência. Era um grito. Um grito de esperança vindo não apenas da repórter, mas das pessoas refugiadas.

O vulto de uniforme negro cortou o céu da cidade.

-É ele! Vindo diretamente da Costa Leste! O Reformado está aqui, cidadãos! Não há nada a temer!

Ele sorriu, tirando os fones e guardando o celular no bolso. Viu a mesma repórter passar sob seus pés como um borrão. O casco da nave-mãe se aproximava cada vez mais.

Um buraco do tamanho de um campo de futebol se abriu na imensa nave. Centenas de metros de paredes foram arrasadas, uma a uma.

A parede da sala de controle explodiu. As criaturas alienígenas gritavam, confusas. O homem de capa caminhou calmamente pela sala, agarrando a criatura mais alta e robusta, claramente o líder por ali.

-Vamos tentar resolver isso pacificamente. Ou vocês nos deixam em paz e saem do nosso planeta, ou eu tiro vocês dele.

O alienígena soltou um grunhido de puro horror. Os batedores haviam alertado a frota principal sobre aquele mamífero invencível. O campeão do terceiro planeta no Sistema Sol.

Impacto.

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