
Para os Mortos e Para os Vivos no dia de Finados. (Erasmo Ruiz):
No dia 2 de novembro os cemitérios ficam lotados de pessoas vivas ao lado de seus mortos. As vendedoras de flores e velas alegram as calçadas e tudo transforma-se num ruidoso mercado da morte.
Parte das pessoas terá um dia burocrático, afinal, o que se dirá delas caso as flores não sejam depositadas nos túmulos? É preciso estar imune à crítica do filho sem coração ou do neto relapso. É o momento também para que as pessoas lavem as sepulturas, talvez com a intenção de lavarem a si mesmas pelo nojo neurótico da morte.
Milhares se acotovelando por espaços estreitos e um cheiro perfumado de flores que já começam a morrer. Não deixa de ter um tristonho ar poético que flores morram num cemitério, como um sacrifício pelas almas dos que partiram.
A maioria dos jovens, alheios a essa “estranha” tradição de se visitar os mortos, tentarão viver a vida mais intensamente nas praias e estradas, com alguma droga lícita ou ilícita. A juventude padece da doce ilusão da imortalidade até que o sexo sem camisinha ou uma curva mais fechada faz com que a ceifeira colha o trigo ainda muito tenro.
Mas espere. Nos cemitérios nesse dia 2 de novembro existe espaço ainda para se lembrar com muita saudade daqueles que já fizeram a viagem que tanto nos atrai e amedronta. É um estranho dia de celebração onde a lembrança da morte de alguém traz de volta à vida momentos que escreveram textos em nossas almas.
Eu me lembro saudoso de meu avô Bomfilho Ruiz, do momento em que ele me deu um relógio de presente, um marcador de tempo que dividia a linha da vida ao me avisar: “agora você já é um homem”. Tempo de lembrar dos bolinhos de chuva da minha avó Carmen que fazia a gente levitar junto com um café forte e doce. Como é bom ter uma avó que “estraga” os netos.
É tempo de lembrar de Dona Antonieta, minha mãe querida que quando partiu levou parte de mim junto. Eu a ouço até hoje cantando canções de Ângela Maria, imitando seus falsetes e alegrando um dia cheio de labuta. É tempo de lembrar da Tia conceição, de sua doçura e todo seu zelo temperado com suas bolachinhas de pimenta....eu era a criança mais feliz do mundo por sentir que tinha duas mães. É tempo de lembrar do meu Tio Barretinho, marido de Tia Conceição, que por trás de um jeitão austero era a essência da bondade. Nunca esquecerei sua fala rápida e daquele sorriso que sabotava seu olhar sério.
É tempo de lembrar do Seu Arlindo, meu pai. Um homem cheio de humor e amor, capaz de contagiar a todos com alegria, dono de um raciocínio que cortava a alma da gente. Nunca vi um homem tão solidário, pronto para colocar a vida de pernas para o ar para ajudar um amigo. Tempo de lembrar da Tia Cida cantando “Granada”, dando rodopios com sua roupa de bailarina de dança flamenca ao som de castanholas...nunca esquecerei seu riso solto e sua alegria pela vida.
O preço que pagamos por viver é acumular as lembranças dos nossos mortos queridos. Na verdade, cada um de nós é um livro escrito por todos eles. No dia 2 de novembro, parte das pessoas precisa estar mais próximo deles e elegem os cemitérios como espaço onde exercitam um simbólico reencontro num misto de tristeza e contentamento. O que talvez não saibam é que na verdade todos nós possuímos um cemitério dentro de nós, onde vivem nossos mortos cheios de vida. Diferente do cemitério de verdade, em nosso cemitério privado podemos ainda conversar, pedir e ouvir conselhos, fazer fofoca ou simplesmente surpreende-los nas festas que fazem em nossas mentes.
Assim, não deveria existir um dia dos mortos já que na verdade nossa existência está repleta deles todos os dias. Até hoje, por vezes, sou acordado pelo cheiro do café e por alguns segundos penso que minha mãe está na cozinha terminando de fazê-lo. Mas a dura realidade me traz de volta e depois de um suspiro de decepção, fico divagando por entre as boas lembranças que ela me legou.
Agora, em meio ao torvelinho da vida, pare e reflita comigo. Talvez parte da dor e do sofrimento no dia dos mortos não seja produzido apenas pela ausência, mas pela percepção de que coisas não foram feitas no momento certo. No dia de finados, lembre-se dos vivos. Agora é o instante mágico para se pedir desculpas, oferecer flores e dizer: EU TE AMO!
