Lágrimas

Lucas Felippe Mello
Nov 7 · 2 min read

Hoje, as memórias abarrotam-se em meus olhos e transbordam em forma de lágrimas.

Enquanto deslizam sobre meu rosto numa valsa mórbida, minha mente concentra-se em uma fração de meu passado, uma única lágrima. Consigo avistar, turva e distantemente, um jovem rapaz. Ele parece feliz, dança com as flores ao ritmo do vento, enquanto canta uma melodia cheia de vida. Eu reconheço aquela música. Minha mãe costumava cantar para mim. O rapaz, outrora feliz, era eu, agora apenas um prisioneiro da amargura.

Quando volto à realidade, as lágrimas já parecem ter formado um oceano de melancolia debaixo de meus pés. A água, escura como a noite mais temerosa de um homem solitário, afoga-me impiedosamente. Meu passado voltou para levar-me com ele, e sou o único responsável por isso. Aquela única lágrima de felicidade parecia ser a única memória feliz restante em minha mente consumida por aflição.

Lentamente fecho meus olhos, já secos e miúdos de tanto chorar, e, ao abri-los novamente, avisto um imenso deserto branco. Flocos de neve caem do céu e repousam sob meu corpo exausto, calmamente me dando forças para ficar em pé. Minha visão, ainda acostumada com o breu absoluto, sofre para enxergar a vastidão branca que agora me rodeia.

Antes que pense em qualquer mínima coisa, uma brisa gelada arrepia todos os pelos do meu corpo. É como um sopro divino dando-me novamente a dádiva da vida. Instantaneamente, começo a chorar. Há tempos não era visitado pela vida, a morte não me permitia abrir a porta.

As lágrimas derretem a neve abaixo de mim, formando uma pequena poça, dessa vez com águas claras como os olhos de uma fada. Eu bebo daquela água salgada, na esperança de boas memórias preencherem meu vazio. Em vão.

Ao horizonte, ouço o vento performando seu concerto, impecável como sempre. Dentre os assovios, ouço a mesma melodia outrora relembrada num lapso de memória. Sinto-me acolhido pelo nada, que é tudo que me resta.

Fecho novamente os olhos e tudo fica escuro novamente. Ouço água e tempestade. Ao abrir os olhos, vejo-me no oceano negro de antes. A paz acabou mais uma vez. A escuridão deu-me a luz, para que pudesse, sadicamente, apagá-la. Remo, agora, incessantemente, na busca de uma única luz que me faça reviver algum dia em que fui feliz.

As lágrimas pesam. Corroem meu ser e me afundam, cada vez mais, nesse mar de mágoas.

Eu abraço o nada, pois é tudo que me resta.

Lucas Felippe Mello

Written by

Crônicas & prosa. Esporadicamente, poesia.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade