Diversidade de Opiniões

Pensar sobre aquilo que nos rodeia é excelente para analisarmos as situações que vivemos e buscarmos soluções para possíveis problemas, assim como antecipar resoluções. Diante disso, qual é a base para formar nossa opinião? Nossa história de vida, estudos, amigos ou “inimigos”?

De maneira geral, parece ser o conjunto de todas essas coisas e mais algumas. Claro que naquilo que tenho uma formação, trabalho constantemente ou tenho uma proximidade considerável, minha opinião vai ser mais fundamentada e, por vezes, terei uma consciência maior do que a maioria sobre esse ou aquele assunto. Isso por causa da experiência que vivi, li ou experimentei. É evidente também que o tipo de experiência revela conhecimentos diferentes. Quem leu sobre o renascimento e estudou com afinco a obra de Michelangelo, mas não visitou a Capela Sistina, vai discorrer de uma forma diferente daquele que constantemente está diante da obra. Fora as inúmeras vertentes teóricas sobre cada assunto, na superfície tudo parece claro e conciso, como por exemplo “dois mais dois são quatro”, “mim não faz nada[PA1] ”, “a salvação é pela fé”. Mas, conforme nos aprofundamos sobre aquilo que estudamos investimos nosso tempo e reflexão, o que era claro e evidente com linhas pretas em um papel branco, vai ganhando cada vez mais tons de cinza e o branco já não é mais tão branco assim, nem o preto tão preto. Algumas teorias apresentam uma parcela razoável da verdade, outras nem tanto e há aquelas que parecem, por hora, serem pura viagem.

Por conta da caminhada que levamos até alcançarmos tal conhecimento, seja ele qual for, acabamos de maneira muito natural levando a sério o que sabemos e consideramos relevante a “escolha” teórica que fizemos e mais adequada, tratamos quase como sagrado aquilo que entendemos como correto e quando alguém fala sobre aquilo que tanto estudamos, conhecemos ou que temos apreço por tal conhecimento, já apresentamos nossa opinião mesmo que, por vezes, ela não seja solicitada. Discorremos e falamos horas ou escrevemos longos textos defendendo nosso ponto de vista, utilizamos todo ou quase todo arsenal de referências de teóricos que reforçam nossa opinião, discutimos, por vezes ofendemos, porque aquilo que defendemos é caro para nós e não chegamos à conclusão que chegamos do dia para noite (eu acho… espero… vai que), então, vamos com tudo que temos para mostrar que o outro, que acredita em boa parte do que eu acredito, entenda que aquele ponto que defende está errado.

Não me leve a mal! Não estou aqui dizendo que não devemos defender o que acreditamos. Apenas acho (e meu achismo é mais um palpite) que toda discussão deve partir de uma realidade. Nosso conhecimento é incompleto mesmo com anos de profundos estudos em uma determinada área, e que, possivelmente, tenha contribuído para o conhecimento humano em geral, ainda sim, existirão inúmeras áreas que não teremos domínio e nem mesmo naquela, na qual nos dedicamos a conhecer. Ainda estaremos limitados em determinados assuntos, pois cada área se desdobra em uma miríade de especialidades.

Claro que eu não sou o único que chegou a essa conclusão que, inclusive, deve estar equivocada em algum ponto, porém, ao concluir isso o que geralmente fazemos? Pensamos: não existe verdade, não dá para acreditar em tudo que vemos, os especialistas são hipócritas que não consideram a realidade completa, não vale a pena acreditar em nada, este mundo é uma ilusão, etc. Naturalmente rejeito o conhecimento e vou relativizando tudo arbitrariamente já que ninguém pode alcançar um conhecimento pleno de nada, não preciso saber de nada então e quem perde tempo com isso é um trouxa iludido e enganado que acha que vai ter alguma resposta objetiva nesse mundo caótico.

Entretanto, no dia a dia, essa posição negativa não se sustenta, afinal de contas você precisa confiar em certos conhecimentos para trabalhar, estudar, entre outras coisas. Como viver sem acreditar em nada se o que nos colocou onde estamos foram as crenças, mesmo que seja em algo puramente material ou totalmente subjetivo? Quando acabamos por rejeitar todo o conhecimento caímos em uma contradição risível, se eu rejeito todo o conhecimento em algum nível, acredito que tenho todo o conhecimento e, por isso, o que me apresentam como tal não me satisfaz, ou seja, como ninguém consegue alcançar o conhecimento pleno de nada e sei disso, vou rejeitar todos os conhecimentos, quase uma aplicação distorcida da máxima socrática “Só sei que nada sei”. Assim, acaba-se vivendo sem ter contato com a realidade, evitando aquilo que é real com a falsa afirmação que por não contemplar toda a realidade ela é falsa. Claro que isso não é desculpa para deturpações da realidade ou conclusões precipitadas, nas quais a falta de contato com uma verdade mais ampla justifique afirmações equivocadas ou desonestas.

Então, como viver neste mundo caótico, onde a verdade parece cada vez mais distante, onde o termo pós-verdade aparece para justificar mentiras com um nome mais “bonitinho”, onde o que vale é a versão que convence mais? Bom, acredito que um ceticismo positivo possa ajudar na aproximação da verdade, se uma descrição do ceticismo é que ele compara duas teorias e busca nelas a falsidade para eliminar as duas, o que exige uma leitura aprofundada de ambas, uma maneira positiva de utilizar a técnica é buscar nas teorias aquilo que se aproxima da realidade em cada uma das teorias, comparando com aquilo que temos em mãos Assim podemos ver pelo menos uma gama maior de facetas daquilo que nos rodeia sem necessariamente rejeitar tudo como falso. Claro, ainda assim, vai ser impossível conhecer a verdade total e completa, nem uma eternidade será suficiente, todavia, isso pode te aproximar um pouco mais dela e, na pior das hipóteses, ser mais tolerante com quem pensa diferente.

No final das contas, todos somos limitados, e mesmo o maior conhecimento que podemos alcançar, estaremos longe de um conhecimento pleno da verdade absoluta, como se pudéssemos enjaulá-la, porém, quanto mais o tempo passa, mais gênios aparecem e cada vez mais a verdade se revela selvagem, fora do nosso controle e totalmente autônoma, mas ainda revelando aquilo que ela é para que possamos compreender o mundo, onde ela habita e coordena. Assim, me parece mais prudente não se levar tão a sério. Sim, aquilo que parece ser uma afronta a realidade e ser injusto, deve ser denunciado e defendido, mas não por causa de você em si ou da sua teoria favorita, porque, afinal de contas, não são absolutas e provavelmente possuem falhas É necessário ter consciência de que é possível que você não compreenda boa parte do todo que está acontecendo, portanto, espere um pouco mais para falar e busque conhecer a maior parte possível dos lados, antes de sair como justiceiro da verdade.

E claro, tudo isso pode estar completamente errado, mas estou aberto à discussão sobre minhas falhas. =)

P.S. Um link com uma demonstração gráfica: https://demografiaunicamp.wordpress.com/2014/01/18/o-que-exatamente-e-um-doutorado/comment-page-2/