Favelado não é suburbano. Ou unido.

LDFS
LDFS
Aug 31, 2018 · 6 min read

Antes de contar a minha parte nessa história eu gostaria de me desapresentar. Eu não sou sociólogo, mas também não tenho esse fetiche. Gosto de basear meus argumentos em evidências sólidas e científicas, mas não vai ser o caso devido à escassez de artigos que seguem a direção (ou contra) esse ponto de vista. E é assim que eu gostaria de chamar esse texto, um ponto de vista.

Ainda sobre mim, eu também não sou um verdadeiro campeão. Não tenho nenhum título que me permita assumir a posição de líder de nada. Não falo por ninguém, senão por mim, e senão pelo fato que, até onde sei, fui o primeiro a falar, ao menos com um olhar crítico (ou pessimista, que se foda, o copo está meio vazio com um buraco de bala) sobre o assunto que falo. É importante frisar que eu falo porque quero.

Esse ponto de vista não tem a ver com local de fala, representatividade ou outros termos modernos importados do inglês. É um texto sobre convívio, vivência e os demais azares da vida em sociedade. Mesmo se eu tivesse que mostrar a minha pulseirinha VIP do local de fala, eu sou favelado à 24 anos de 24 anos vividos. Não sou ex-favelado e nem pessoa que alugou uma casinha na favela para ficar perto da faculdade e poder beijar muito na boca dentro do movimento estudantil.

Mais um parêntese antes de ir direto ao ponto, isso não é nenhuma unanimidade, mas o termo que acho correto é favela. “Comunidade” é invenção da rede globo pra vender novela. Voltarei a falar desse assunto.

Existe uma tendência na internet e no Rio de Janeiro de generalizar o termo “suburbano”, tratando como qualquer pessoa que não se encaixa nos bairros centrais ou de elite. Para além das brincadeiras de colocar tijucano como suburbano, por mais que eles afirmem o contrário, e das concepções imprecisas em respeito aos conceitos geográficos que definem o subúrbio, como dizer que “suburbano é quem mora perto da linha do trem”. Pode-se dizer que isso é “saber popular”, outro nome pra “informação errada”.

Todas essas definições tendem a encaixar as favelas dentro do subúrbio e muitas vezes essas classificações são feitas por cientistas sociais, movimentos políticos ou pessoas extremamente otimistas ou desinformadas, considerando que otimistas e desinformados não sejam sinônimos. Outro nome que se usa para se referir ao mesmo grupo generalizado de pessoas é periféricos. Esse termo horrendo pode se referir ao que for conveniente: na hora em que o cara que mora num casão no Méier quiser falar pelos suburbanos, ele vai falar que é o Nelson Mandela dos periféricos, o Che Guevara dos viadutos, o Lênin das ruelas, a Ivete Sangalo do CADEG. Quando cientistas sociais do outro lado do rebouças quiserem falar sobre o sofrido povo brasileiro, usarão o termo periféricos para se passarem por politicamente corretos, quando na verdade é bem chato ser chamado de “acessório de computador”.

Favelado tem entrada USB?

Achar que suburbano e favelado é a mesma coisa é dizer que o gato e o rato são amigos porque ambos são mamíferos. Na prática, para o suburbano padrão, se tornar favelado é seu pior pesadelo. Caiu na vida o suburbano “do asfalto” que subiu o morro; esse certamente vira piada entre os vizinhos. O favelado, para alguns espécimes, é sujo, bagunceiro, violento e desonesto, tudo que o próprio suburbano tem capacidade de ser, e muitas vezes é, quando não tem ninguém olhando.

Para o suburbano conservador, o favelado é um grande vilão da sociedade e privilegiado porque, além de achar que ninguém trabalha e que todo mundo recebe bolsa-família, “não precisa pagar luz”. Em todas as manicures do subúrbio se conta a história da empregada que mora na favela tem 4 aparelhos de ar condicionado, 2 freezers -80ºC, 2 usinas têxtil e 1 microscópio eletrônico de varredura em ambiente refrigerado, tudo isso em cada um dos andares do seu triplex, como se só o favelado e não o suburbano fizesse gato de luz, vulgo para furto de energia, também.

Sem querer inocentar o favelado, que não perde a oportunidade de virar suburbano quando um pequeno negócio dá certo. O ciclo é vicioso e muitas vezes ele vai disseminar o mesmo pensamento quando estiver no asfalto e não mais no morro. Quando um favelado sai da favela e guarda ressentimento, ou fica desumilde, ou é racista, ele pode carregar um discurso tão odioso quanto o de quem nunca lá esteve. Não tenho a intenção de escolher um lado ou gerar na cabeça do leitor uma ideia de conflito, já que os lados não se reconhecem como inimigos. O favelado acha que o suburbano é a elite e, o suburbano, concorda.

Outra ideia muito comum nos movimentos sociais é a união entre os favelados. Superficialmente, é uma ideia de que um dia os favelados vão todos se unir, descer e fazer uma grande greve ou uma grande manifestação que fará com que a cidade pare de funcionar. Nos sonhos mais molhados dos diferentes setores políticos, os favelados nesse evento utópico estarão defendendo as bandeiras que esses setores também defendem. Isso se deve muito ao fato de todo mundo achar que os favelados são mentes burras e vazias a serem trabalhadas, que não sabem o que querem. Em algum momento, nesse cenário fantasioso dessa masturbação intelectual, vão se revoltar todos os favelados de todos os morros e a revolução começará quando eles se unirem para defender o [insira uma ideologia aqui].

Ou poderia ser qualquer música do Chico Buarque

O desdém que parte dos suburbanos carrega pelos favelados não é nada comparado ao desprezo que alguns favelados sentem uns pelos outros. O critério pode ser qualquer um. Um se acha melhor que o outro porque a favela é maior, mais famosa, mais desenvolvida ou porque tem uma facção/milícia mais branda ou é pacificada. A moda é cantar vantagem. Para ilustrar, um morador da Rocinha se vangloriando por morar numa favela com a vista mais bonita que a Cidade de Deus, um morador do Dendê tratando mal, pelas costas, alguém que vem de uma outra favela “menor e sem baile” pra curtir o Baile do Dendê (aliás, recomendo).

A partir de um certo nível de ódio gratuito, o critério passa a ser o critério elitista, do mesmo olhar que o suburbano tem sobre nós, ou que as elites têm sobre o suburbano. Oras, o favelado pode não ter nem onde cair morto, mas pelo menos ele não é igual à dona Rosana (nome fictício) cujos filhos vão todos desarrumados pra escola pública enquanto a Valentina, filha do favelado enjoado, vai toda emperiquitadinha pra escola particular que ele paga 90 reais por mês porque pediu um desconto pro diretor.

Para além dos motivos gratuitos de ódio, um grande fator da desunião dos favelados é a questão do medo. Um morador de uma favela do A.D.A. ou do T.C.P. não pode frequentar uma favela do C.V. ao léu e vice versa. São facções rivais que controlam o direito de ir e vir de seus moradores, principalmente dos jovens e principalmente dos homens. De qualquer forma, é comum o sentimento de insegurança dos jovens em frequentar algum lugar que pode o trazer problemas, mesmo que nada tenha sido dito explicitamente. Os dois principais motivos pra isso são o de os traficantes desconfiarem de espionagem (X-9) e de que os moradores estejam usando drogas da concorrência, mesmo que o envolvido não use nenhuma droga. Além dos problemas que podem ocorrer na volta pra casa, a pessoa pode despertar inimigos na favela que está visitando. Isso é papo pra outro texto sobre as nuances da relação do jovem com as facções.

Para encerrar algo que considero apenas o início de um assunto maior, que tentei sintetizar aqui depois de pensar nisso por vários anos, acredito estar diante de talvez o momento de menos propensão à união das pessoas que, além de não possuírem concordância política e ideológica, estão distantes de se respeitarem em seus projetos pessoais e estão cada vez mais carregando estigmas uns sobre os outros e cada vez com menos capacidade de compreender e ouvir. O medo e a violência, além de cercar casas e condomínios, de tirar as pessoas das ruas, também esculacham qualquer ponto de vista otimista da proximidade democrática dessas pessoas.

Ou não, quem sabe mais é a internet. Desculpa qualquer coisa.

Tchau.

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